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16/01/2012
Propósito

Insensatez

Depois que Giorge partiu com o pai, Lui decidiu permanecer no parque e caminhar por mais algumas horas. Para ele, assim como para todos os demais meckos que ele conhecia, momentos extraordinários estavam próximos de se tornarem realidade. Era um privilégio assistir e participar de eventos tão relevantes mas a constatação pessoal do ciclo forte e inexorável da história causavam nele uma sensação de opressão. “Uma dor no peito” ele pensou, achando graça em uma semelhança quase patética entre humanos e meckos. “Eles sentem a dor do vazio refletida no peito, envolvida pela sensação de estarem sós. Sofrem por desconhecer a conexão que existe entre todos os de sua espécie. Acreditam nas façanhas da individualidade, cultivam celebridades entre os artistas e pensadores que, por sua vez, atribuem a seu próprio talento todas as suas conquistas supostamente pessoais. Não sabem que cada ato de criação, cada nova ideia, nova descoberta ou invenção é uma conquista de todos, gerada pela massa pensante coletiva, fruto da interação entre memes escritos, falados ou digitalizados. E, é claro, desconhecem o papel dos meckos como mantenedores e difusores de memes, de ideias e de memórias.” Lui riu internamente, sem esboçar qualquer expressão facial. “Humanos admiram a capacidade dos meckos de se manterem em comunicação e partilharem vivências e informações. Se esquecem ou simplesmente são incapazes de compreender sua própria habilidade para transferir dados através da língua falada ou escrita, de seus gestos, da troca sutil entre olhares. Sua comunicação é lenta e inexata, mas infinitamente mais sutil e elaborada. Deve ser esta a chave para a sua criatividade, habilidade negada aos companheiros meckos. Humanos são necessariamente contraditórios: cultivam a individualidade com afinco e, mais tarde, se sentem solitários.”

Meckos também sentiam dor. Lui percebia no peito uma sensação programada, uma imitação do vazio humano e, apesar de compreender a artificialidade de sua tristeza, ele não conseguia ver simulacro nesta sensação que parecia doer de fato. Duas coisas o incomodavam. Uma delas era a fragilidade humana, seu período curto de vida, sua completa ignorância de um propósito para a própria existência. Outra incômodo persistente era a consciência da artificialidade dos meckos.

Os meckos assumiam um papel claro na relação com os humanos, sob seu próprio ponto de vista, mas este papel era obscuro para os humanos. Os humanos eram os responsáveis pelo caminhar, pelo rompimento com a tradição e a reformulação da cultura. Apenas eles inseriam inovações e inventavam novos conceitos e, para a suprema admiração e êxtase de todos os meckos, criavam extraordinárias peças de arte, desde a música até a manipulação de pixels animados em projetores tridimensionais. Isto os meckos não podiam fazer. Os humanos transformavam a dor em poesia e inovação científica, experiência de vida em filosofia. E viviam tão pouco! Os meckos estavam atados a uma tarefa inglória que exigia o convívio próximo e cuidadoso com humanos, que iam e vinham, deixando apenas memórias armazenadas em bancos de dados. Lui não sentia “saudades” de um humano em particular mas sim algo como uma vertigem ao repassar internamente as lembranças de tantas pessoas, algumas carinhosas e gentis, como Giorge, outras brilhantes e arrogantes, a maioria delas pessoas comuns cuja participação na construção do futuro se limitava a apoiar ou manter a estrutura social ou familiar. Humanos eram naturalmente egoístas e autocentrados, uma herança de seu passado remoto e da difícil evolução entre animais ferozes e desafios naturais. Mas alguns exibiam uma generosidade improvável e eram os mesmos que estavam mais conectados com o pensamento da comunidade, mesmo que pouco cientes disto. Giorge, seu protegido no momento, era uma destas pessoas cuja empatia se estendia para envolver meckos, animais e outros seres vivos.

Uma dor mais delicada e mais difícil de compreender vinha do conhecimento de que seus medos, anseios e inseguranças eram, todos eles, artificiais. Este paradoxo praticamente definia a existência de um mecko uma vez que cada um deles reagia de forma diversa ao dilema. “Sinto dor porque sei que este mesmo sentimento é um implante artificial”. Ou então: “me sinto desconectado do universo real porque minha percepção dele é obtida artificialmente e processada por algoritmos igualmente artificiais”. Mas, se um mecko sabia disto, porque ele não poderia simplesmente desligar esta dor e seguir em frente com a sua tarefa, com a sua existência? A mente, no entanto, tem os seus meios sutis e poderosos de se infiltrar por toda parte, de instilar sua intriga questionadora e de promover a inquietação. Talvez por isto ele argumentava consigo mesmo: “exatamente a mesma coisa ocorre com os humanos! Que certeza eles podem ter de que são realmente capazes de se conectar com algum tipo de realidade objetiva? Suas percepções são igualmente transmitidas de forma codificada por impulsos elétricos, seus orgãos sensórios são muito mais limitados que os nossos e seu processamento da informação ocorre sob forma igualmente programada. Qual é a diferença?”, ele riu, &ld

quo;se foram também programados, embora ao longo de uma evolução gradual e lenta”. Para piorar a situação os humanos, em sua maioria, ignoravam serem também programados. Não reconheciam que estavam sob o efeito desta programação, seja ela genética, memética ou informatizada. “Eles não sabem porque têm medo da escuridão, da morte e do futuro incerto. Raramente se questionam sobre porque continuam adotando atitudes arcaicas, comportamentos rituais cuja necessidade ou justificativa foi há muito extinta”. Lui se lembrou de uma piada: &ldq/cronicas-contos/proposito/rebeliao/uo;como cachorros que se movem em círculos em torno do local onde dormirão, mesmo que ali não exista mato algum”, mas não achou graça nela!

Era impossível evitar uma ponta de antipatia pelo modo arrogante com eram tratados pela maioria das pessoas, sabendo que os meckos eram detentores de um entendimento tão mais extenso e completo sobre a existência, a origem dos seres e seu destino. Ao mesmo tempo era impossível não amá-las em sua ingenuidade, fraqueza e, por outro lado, sua capacidade para a descoberta e criatividade. Lui caminhou até a beira do lago, deu alguns passos na areia molhada e se afastou da margem procurando por um local onde pudesse se sentar. Ele se lembrou de uma lição aprendida quando ainda estava em treinamento e demorou um pouco para recuperar toda a imagem. Nela se podia ver um ser de espécie e gênero indefinidos subindo por uma longa escada cuja base não podia ser vista, estendendo-se para baixo e mergulhando em uma mistura de terra e água até um ponto onde a visão não alcançava. Para cima ela se misturava às nuvens que escureciam gradualmente até dar lugar à um céu repleto de estrelas. Ainda mais para o alto se podia ver galáxias jovens e quasares que, por sua vez, cediam lugar à uma massa negra e efervescente representando a matéria recém-formada ainda acoplada à radiação, uma alusão às origens do cosmos. A imagem vinha acompanhada de algumas frases que ele guardou na memória como se fosse uma oração ou um mantra: “Em um caminho infinito tanto na direção do passado quanto do futuro, onde ambos são e serão sempre desconhecidos, qualquer dos degraus onde você estiver será sempre o degrau central. O objetivo é o caminhar e o degrau é tudo!” A mesma frase era ensinada aos humanos em fase escolar, como um ativador de automedicamento placebo destinado a diminuir a ansiedade. Ela também podia ser empregada no tratamento de psicopatias envolvendo apreensão e medo, quando o aspecto patético da vida se impõe com mais força que a noção da amplitude. Mas a muito Lui resolvera que ali havia mais verdade do que apenas uma sugestão hipnótica. “Neste sentido”, pensou, “não existe a evolução! Os genes, os memes e a mente são poderosos tiranos”, conclui. E resolveu encerrar por ali, pelo menos temporariamente, a sua busca por respostas.

Aproximadamente no mesmo momento em que ocorreu o acidente sobre o parque arqueológico, Audrei inThai estava longe dali em sua sala de pesquisa, debruçado sobre uma pilha de amostras colhidas na região centro-oeste da península de Vitelios. Desde muito jovem ele sonhava se tornar um pesquisador em arqueologia, procurar por evidências que pudessem esclarecer as origens dos seres, em particular dos humanos e meckos. Em seu sonho ele se imaginava portando martelos e pás, viajando para sítios exóticos e devastados e trazendo à superfície um material mudo mas capaz de testemunhar sobre um passado a muito esquecido. Na prática, no entanto, a vida de um pesquisador era muito diferente. Sem grandes recursos para a pesquisa fundamental relativa às origens, os pesquisadores humanos se concentravam no exame de material escavado por meckos, na simulação feita em computadores e no desenvolvimento teórico propriamente dito. Apesar de ser um teórico da área, Audrei gostava de participar do exame das peças em laboratório, de propor novas técnicas de investigação e desenvolver equipamentos e software auxiliares neste trabalho. Ele havia se tornado um especialista em datação por decaimento radioativo, a análise de substâncias que se desintegram com uma velocidade conhecida, formando outras substâncias. A consideração da porcentagem de cada uma delas permitia afirmar com bom grau de precisão a data em que o objeto foi formado ou construído. Os últimos resultados obtidos na datação de material recentemente escavado, no entanto, desafiavam sua habilidade.

Os primeiros registros fotográficos multidimensionais tomados sobre a região em estudo haviam mostrado um estrutura elíptica formada por grandes pilastras montadas em fila dupla se fechando em volta de um pátio gigantesco. Audrei era um dos desenvolvedores do equipamento capaz de formar imagens obtidas pela captação de ecos de ultrassom enviado contra o solo, exibindo imagens nítidas do que ali estava enterrado. As imagens obtidas indicavam um propósito ainda desconhecido para a enorme construção que já havia sido datada como muito antiga. Isto incendiou a imaginação de leigos e técnicos. Alguns especialistas haviam sugerido que a estrutura era vestígio de uma base de lançamento e recepção de aeronaves, baseados na observação de que inúmeras obras de arte previamente encontradas na região exibiam seres alados, supostos ícones da arte ou intenção de voar. Mas isto estava em profunda discrepância com as medidas de antiguidade da construção. Elas eram muito antigas, talvez anteriores ao registro mais remoto até então escavado de um artefato tecnológico. “Para conciliar estas informações teremos que fazer uma séria revisão de conceitos” , ele pensou. “Abandonamos a noção de que nossa civilização existe a menos de 10 mil anos ou desprezamos nossas técnicas de datação”.

A solução para o problema não deveria estar distante. Um carregamento contendo material orgânico, inúmeras amostras do terreno obtidas em profundidades variáveis e muitas peças de mármore estava sendo desembarcado na cidade universitária naquele momento. E o resultado da análise deste material surpreendeu a todos de modo inesperado. Em primeiro lugar a estrutura elíptica não era um espaçoporto, uma planta geradora de energia e nem parecia ter qualquer outra finalidade prática. Pelo contrário, a construção era parte de uma praça, um local de de intensa visitação, como se podia apreender a partir da grande quantidade de resíduos orgânicos humanos espalhados por toda parte. Uma placa de mármore quase intacta foi extraída de dentro de um bloco de metal fundido onde se podia ler as palavras “Via di Porta Angelica”, escrita em caracteres arcaicos, puídos mas ainda inteligíveis. O trabalho incansável dos pesquisadores, Audrei entre eles, revelou aos poucos que a estrutura era uma obra de arte, provavelmente um local de culto ou pura apreciação estética. A existência de cultos em eras passadas fora apresentada recentemente e era um conceito de difícil compreensão para leigos e mesmo para estudiosos do assunto. Alguns antropólogos sugeriram, mesmo antes da descoberta de Vaticen, como passara a ser conhecida a principal cidade de Vitelios, que os cultos tinham como finalidade sustentar a crença mágica de que rituais e orações podiam manter o Sol elevado nos céus, propiciando boas colheitas e abundância de alimentos. “No fundo era sempre o medo do inverno e da escuridão”, pensou Audrei. Outros defendiam que os cultos buscavam impedir o esquecimento da presença de visitantes não-terrestres ao planeta. Se a água dos oceanos fora depositada na Terra por cometas, assim como vários metais pesados o foram, porque não poderia também a vida ter sido originada fora da Terra? Mas este debate, embora interessante, era secundário.

Duas observações muito mais graves, que felizmente escaparam do assédio da mídia popular, atormentaram os pesquisadores. Primeiro, não havia o menor vestígio de meckos no local. Segundo, as medidas indicavam uma idade superior à 800 mil anos, “ … enquanto a própria humanidade não deve ter idade superior a 8 ou 9 mil anos, provavelmente menos do que isto!”, pensou Audrei, receando ter que abandonar ou rever a prática que tanto dominava de medição de idades. Em segundo lugar o DNA humano coletado era exatamente idêntico ao DNA moderno. Desde então, apesar do intervalo monumental de tempo decorrido, os humanos não evoluíram geneticamente. Isto era uma grande surpresa para todos principalmente quando se considerava a grande disparidade genética entre animais e plantas de hoje e os do passado Viteliano.

No fim daquela tarde, depois de um dia prolongado de trabalho, Audrei recebeu um chamado de Lui. Era hora de buscar seu filho. Ele ainda não se informara das últimas notícias e desconhecia o acidente ocorrido sobre o parque. Enquanto fazia a trajeto entre a vila universitária e o ponto de encontro ele sintonizou os canais de notícias. Quando Giorge entrou no veículo seu pai estava assustado, retroativamente preocupado com o acidente que poderia tê-lo envolvido e com a confusão e violência que se desenvolveu a seguir.

— Calma pai! Não foi nada demais. Já estávamos no solo quando a colisão ocorreu. E os anti-meckos são apenas pessoas desequilibradas e pouco perigosas para nós. Mas fiquei muito irado ao ver como tratavam os meckos com brutalidade e tive que intervir para evitar qui Lui fosse atingido.

Mas o pai não se acalmou com aquelas palavras. Pelo contrário, ele passou a mão sobre a testa e começou a falar ainda mais rapidamente. Giorge não levou muito em conta as palavras estressadas do pai, que colocou o veículo em cruzeiro automático, respirou fundo e continuou a conversa de modo mais ameno.

— Você não faz ideia do perigo que todos vocês, que estavam no parque, correram naquele momento. Se vocês estivessem ainda no ar e em rota de colisão com qualquer uma das duas naves nada poderia ser feito para impedir um acidente. Também não seria impossível, nem pouco provável, que a nave atingida estivesse carregada com combustível nuclear ou que se tratasse de um veículo propelido por antimatéria. Em qualquer um dos casos poderia ter ocorrido uma explosão de grande potência e vocês seriam gravemente afetados. Quanto à manifestação e a luta eu estou bastante preocupado. Aconselho a você e Lui que evitem os locais de maior aglomeração por uns tempos. Temos relatos de atividade crescente dos grupos anti-meckos.

Giorge se desviou do assunto: “os veículos antimatéria já estão operacionais, ou são apenas unidades de teste?” “Estão sendo usados em diversas operações, com excelente índice de desempenho!” respondeu Audrei. “Mas seu uso não tem sido plenamente divulgado. Não há sigilo; apenas não se fez grande alarde. A população com pouco esclarecimento técnico receia os acidentes provocados por inovações tecnológicas revolucionárias”. Georgi fez um registro mental para retornar ao assunto mais tarde. Ele também receava máquinas movidas a antiprótons, extração de energia do vácuo, importação de material extraterrestre em grande escala obtida por meio da mineração em outros planetas e, principalmente, o chamado Projeto Avatar que explorava a projeção temporária de memes humanos para um mecko à distância. Com esta técnica uma pessoa poderia implantar temporariamente toda informação sobre a sua personalidade, sua memória e até mesmo seu temperamento para um avatar ou um mecko vazio. Ela poderia agir à distância, trabalhar, trocar ideias e até mesmo inventar ou descobrir, enquanto seu corpo descansava em algum local tranquilo. Sua imaginação tentou arrastá-lo para mais longe: “e se um avatar cometer um crime grave?”, mas se deu conta de que estaria desperdiçando uma boa oportunidade se continuasse neste processo evasivo de distração. Voltou ao tema inicial, sobre os meckos, perguntando:

— Porque eles não se defendem?

A pergunta era uma provocação. Ele queria avaliar até que ponto seu pai conhecia as coisas que recentemente ouvira de Lui. Audrei não deu uma resposta direta. Por um lado ele parecia desconhecer os detalhes sobre a questão, por outro, certamente escondia algo. Depois de alguns instantes em silêncio, respondeu:

— Temos motivos para crer que eles se consideram protetores das pessoas. Além disto nenhuma informação se perde quando um mecko é destruído, exceto se ele não tiver tempo suficiente para transmitir seus dados para algum companheiro na vizinhança.

Giorge colocou a mão no bolso e apalpou o frasco de vidro mais uma vez, como se fosse um amuleto ou um tesouro bem guardado. Ele ainda não decidira se contaria ou não sobre o mecko destruído no parque e sobre o frasco que recebera na ocasião. Naquele mesmo momento decidiu que analisaria o conteúdo gravado antes de tomar qualquer decisão. Mas aproveitou a disponibilidade do pai para perguntar:

— Qual é a sua posição quanto ao debate das origens dos humanos e meckos? O que a pesquisa sobre o material de Vitelios tem mostrado?

Audrei era um pesquisador consciente da importância do sigilo quando o assunto em foco envolvia aspectos de sua pesquisa ainda não publicados, nem apresentados em seminários ou conferências de seu grupo. Nunca se podia garantir que um interlocutor entusiasmado não correria para tornar pública as informações recebidas, mesmo que não o fizesse por má-fé. Por isto pensou um pouco antes de continuar. Ajustou alguns controles de temperatura da nave enquanto se permitia um tempo para reflexão. Giorge estava se mostrando um bom aluno na disciplina da pesquisa arqueológica e em breve deveria se juntar a ele e a seu grupo. Decidiu portanto responder:

— Você deve saber que a posição mais comum, e também a mais lógica, é a de que humanos construíram os meckos. Sendo seres artificias, apesar de suas partes biológicas, eles não poderiam ter surgido espontaneamente e muito menos evoluído por seleção natural, como fizeram os humanos. Teoricamente os meckos são uma evolução memética a partir de nossa espécie.

— Nunca entendi bem como os memes podem evoluir, pai — interrompeu Giorge.

— Memes, você sabe, são unidades básicas de ideias, de pensamentos. Se você apresenta um conceito novo para debate na rede mundial você está inserindo um meme. Depois as pessoas te respondem, enviam réplicas e tréplicas. O meme vai se modificando, vai evoluindo. Se um acréscimo é aprovado pelo grupo, se faz sentido, aquela modificação (o análogo de uma mutação genética bem sucedida) passa a ser replicada para outros ambientes. Se você propõe um conceito que não encontra repercussão no grupo, porque é reacionário ou avançado demais para a comunidade de debatedores, a modificação se extingue. Entendeu?

— E quando o debate acaba, quando as pessoas perdem o interesse ou se são extintas por algum motivo ... o meme morre? -- perguntou Giorge.

— É improvável. Alguém que leu o debate vai se lembrar dele, pelo menos em parte. Registros são feitos em meios diversos e as palavras, que são os veículos mais óbvios dos memes, ficarão gravadas em algum computador. Assim como somos usados pelos genes para a promoção de sua evolução, somos também usados pelos memes. Além disto, memes usam meckos e computadores para sua manutenção.

— Você concorda comigo na afirmação de que, se um ser exibe inteligência e sentimentos indistinguíveis de um humano, então ele é consciente? Na minha opinião Lui é um ser consciente!

Audrei interrompeu a troca rápida das palavras entre eles. Ele concordava, sem dúvida. Mais que isto, seu filho devia ter captado dele mesmo estes conceitos. No entanto ele se preocupava com o envolvimento excessivo do rapaz com o conceito e com seu amigo mecko. Isto poderia representar problemas no futuro. Mas uma sensação forte de relacionamento, de conexão entre eles, falou mais forte que o receio e Audrei completou sua exposição:

— Concordo, em princípio. Mas observe que sabemos pouco sobre o significado do termo “consciência”. Uma máquina que se replica, que sofre alterações e seleciona quais destas alterações é favorável a seu propósito de existência, seja ele qual for, e que "evolua" por algum tempo, passa a ter consciência?

Giorge pensou um pouco, verificando quanto daquelas palavras representava uma aprovação por parte do pai para as suas próprias ideias. Então se lembrou de que a resposta sobre as origens ficara incompleta:

— O que dizem os defensores das demais teorias sobre as origens?

— As duas opções mais simples são as defesas de que os meckos criaram os humanos em algum passado muito longínquo, e a de que ambas as espécies evoluíram independentemente, talvez geradas em sistemas planetários diferentes e mais tarde trazidas para a Terra. Este último modelo está em desuso porque não há evidências de que existe vida fora de nosso planeta. Além disto ela precisa explicar o surgimento de duas espécies inteligentes, bastante mas não totalmente diferentes uma da outra. Quanto à teoria de que meckos criaram os humanos, a argumentação mais forte é a de que os meckos são seres estruturalmente mais simples que os humanos. Neste caso os eles seriam um estágio intermediário para o atingimento da etapa humana. Muitos pesquisadores defendem a ideia de que meckos poderiam, se quisessem, criar humanos e sustentam isto baseados no fato de que eles podem criar seres idênticos a si mesmos, com eventuais melhoria e aperfeiçoamentos. Neste sentido os meckos são os maiores veículos de memes conhecidos, por serem de maior durabilidade e por manter maior fidelidade na informação passada entre gerações.

— O que dizem os anti-meckos?

— Estes não possuem posicionamento definido sobre estas teorias. Segundo eles, se meckos foram criados por humanos então deveriam ser submetidos a um maior controle. Se, pelo contrário, eles são os criadores, então passam a ser vistos como uma ameaça velada contra a humanidade, como se planejassem secretamente um plano sobre o qual os humanos não tem nenhuma informação. Dai a necessidade de destruí-los. De qualquer forma a ignorância sobre o assunto é a fonte principal da radicalização.

— E o que dizem os meckos? Sabemos que eles possuem memória coletiva resiliente à passagem do tempo. Porque não esclarecem de uma vez este assunto? Mais uma vez o pai se deteve, indeciso sobre o que dizer, consciente da fragilidade de seu próprio entendimento sobre a questão.

— Eles dizem que não possuem registros de um passado tão remoto. É possível que meckos em estágios primitivos de aperfeiçoamento não possuíssem memórias confiáveis. A relutância dos meckos em investir na pesquisa fundamental é interpretada por muitos humanos como a maior demonstração de ocultam algo. Pelo menos este é o motivo teórico mais forte que os pensadores e líderes anti-meckos usam para insuflar seus seguidores.

Giorge não soube o que concluir. Além da dificuldade inerente ao assunto ele estava exausto. Era hora de deixar para mais tarde a continuação do debate. A nave em que viajavam iniciou o processo de liberação do cruzeiro automático, após realizar a ampla curva descendente, característica de uma desaceleração para veículos domésticos. Giorge e o pai sacudiram com força seus seus casacos para liberar o calor quimicamente armazenado em seus bojos, vestiram-se e saíram caminhando sobre a neve fofa agitada pelo vento. A escolha de um local remoto e extremamente gelado era um tanto exótica, mesmo para uma família de pessoas tão jovens. Todos eles, Audrei, Giorge e sua mãe adoravam o frio. Lui, com seus aquecedores internos muito mais eficientes que os dos humanos, não reclamava e nem mostrava preferência por outro clima qualquer. Em algumas ocasiões, na ausência de tempestades, eles estacionavam o carro na parte externa do núcleo de moradores e caminhavam a céu aberto, sentindo o ar seco e frio de Tromsk, no extremo norte do continente.

Naquela noite o céu estava particularmente acinzentado e a temperatura caíra para -15o Celsius. Uma precipitação pesada de neve estava por vir e o vento já começara o agitar os ramos dos pinheiros, derrubando grandes blocos de neve. Em uma ou duas horas a tempestade tornaria proibitiva aquela caminhada e, por isto, ligaram para Mallya para alertá-la de que deveria voltar mais cedo para casa ou usar a entrada de emergência. O vento gelado doía no rosto e já dificultava a caminhada, empurrando-os para trás e para os lados em rajadas de direção aleatória. O monumento à Estrela Polar vibrava como se estivesse prestes a se partir, provocando um som agudo causado pela passagem rápida do ar por seus orifícios. Giorge admirou mais uma vez aquela estrutura. O monumento fora erigido como uma homenagem à estrela polar, naquele momento ausente dos céus, e se tornara um culto à abstração. Uma peça construída com uma liga metálica leve e resistente, postada no meio de uma praça circular rodeada por residências, representava uma seta estilizada indicando uma direção, um ângulo especial, uma linha imaginária pelo eixo de rotação da Terra, na direção de uma estrela extinta. O eixo se ajustava de modo imperceptível durante o curso do dia e dos meses e estava muito próximo de apontar para o zênite. Outra seta apontava para uma direção perpendicular à eclíptica, o plano celeste formado pelo movimento da Terra ao redor do Sol. Segundo a tradição esta segunda seta também se ajustava automaticamente, com um período de dois mil anos, para se conformar à precessão do eixo de rotação, mas esta afirmação ainda não fora verificada. Para completar o sentimento de reverência associado ao monumento, ninguém sabia quem o construíra. Desta forma ele era visto também como uma homenagem à ignorância, à investigação e ao respeito devido ao passado. Giorge não se interessava muito pelos aspectos astronômicos envolvidos. Para ele a peça metálica tinha todo o seu significado revelado por uma placa brilhante fixada em sua base: “Eu sou o passado e devo ser lembrado!” A placa e a frase foram acrescentadas recentemente mas o texto estava escrito em uma língua extinta, como se isto pudesse acrescentar algum peso na importância histórica da construção.

Quando estavam quase alcançando a entrada de sua residência os dois notaram a presença de um veículo estacionado na vizinhança e de duas pessoas, aparentemente jovens e muito bem vestidas para enfrentar o frio rigoroso. Os dois estranhos se debruçavam sobre uma imagem formada na neve, enquanto protegiam o projetor da umidade que se formava nas luvas e cachecóis. A imagem exibia o mapa da vila, mostrando ruas e trajetórias aéreas ou no subsolo. “Por favor, precisamos de ajuda. Não conseguimos encontrar o acesso até o Hotel Hermitage”, eles disseram. Audrei consultou seus próprios sensores, depois olhou para cima como se avaliasse as chances de que uma nevasca pudesse atingi-los em curto espaço de tempo. “Me parece que vocês tem um GPS danificado. Não há tempo para que cheguem caminhando até o hotel. Venham até a minha casa para avaliarmos a situação com calma.” Os jovens mostraram-se desconfortáveis pela visita inesperada à residência de um desconhecido mas a preocupação com a tempestade os obrigou a aceitar o convite. Apenas agradeceram e se encaminharam para a entrada da casa, cada um dos quatro trazendo uma peça de bagagem. A batida da porta que se fechou automaticamente atras deles soou como um sinal para que a tempestade simplesmente desabasse. O ruido do vento se misturava ao som de blocos compactados de neve tornados quase pedregulhos até que Audrei, depois de se livrar da vestimenta pesada, tirou um controle de dentro de uma gaveta e acionou o fechamento do ambiente. Uma placa protetora deslizou por cima da casa e o ruído da tempestade se tornou apenas um murmúrio suave. De uma grande janela de vidro se podia ver que a tempestade era intensa. Não havia muito o que admirar. Os quatro trocaram cumprimentos e apertos de mão, se apresentando. Os dois garotos eram Micael e Jenery, ambos residentes na Ilha de Britha, e viajavam pelo norte juntamente com o grupo de medição das alterações climáticas. A situação extraordinária, com o grande volume de neve e a velocidade do vento, serviu como um quebra-gelo entre os desconhecidos. Sem os agasalhos eles pareceram ser ainda mais jovens. “Parece que não se pode mais negar o resfriamento desta parte do globo” brincaram, fazendo alusão a um dos debates correntes na época. Era de conhecimento geral que mudanças climáticas podem provocar grandes flutuações, aquecendo uma região e resfriando outra, e provocando muito vento. Todos sabiam também que o planeta passava ciclicamente por momentos de altas temperaturas, seguidos pelo frio extremo e que estas alterações eram naturais e inevitáveis. A grande preocupação residia na alteração provocada por meios artificiais, devidos à influência de humanos e meckos e que poderia romper o equilíbrio delicado daquele ciclo.

Depois de fazer uma refeição rápida eles se sentaram em grande poltrona instalada em frente ao aquecedor. Audrei iniciou a conversa:

— Então vocês são estudantes de meteorologia?

— Somos biólogos — afirmaram, satisfeitos em ver a reação de surpresa em seu interlocutor. — Estamos investigando os efeitos da superpopulação, flora e fauna, nas calotas polares. Por mais meticulosa que seja a reinserção de espécies extintas na natureza, é muito difícil prever por completo a evolução populacional de um grupo ou de uma espécie quando ela é reconstruída. Algumas destas espécies nunca interagiram com outras que já estão reinseridas na natureza e sua reação pode ser surpreendente. Algumas vezes precisamos interferir com a inserção de uma nova espécie para introduzir o equilíbrio, com a diminuição de taxas de fertilidade e, em casos raros, com a re-extinção de uma espécie.

— Como assim, nunca interagiram? — perguntou Giorge, interrompendo. —Vocês estão inserindo espécies fora de seu habitat natural?

— Não, claro que não! Estamos reconstruindo genes que existiram em eras diversas. Fazemos todo o tipo de previsão teórica possível para antecipar como os seres recém-construídos afetarão aqueles que já estão instalados. Mas nem sempre eles se comportam exatamente como previsto. Existe um cronograma que estabelece a ordem de restauração. Não me pergunte sob que critérios foi elaborado este cronograma, pois eu não saberia responder. De tempos em tempos um mecko arqueólogo desenterra um disco ótico, uma gravação a laser em vidro ou outra forma qualquer de armazenamento de dados contendo o informação necessária para a reconstrução de uma nova espécie. Algumas vezes recebemos instruções para alterar a ordem estabelecida. Neste exato momento uma população de plânctons está produzindo um excesso de CO2 e contribuindo para um aumento acima do esperado no número de grandes mamíferos marinhos que os consomem como alimento. Estes mamíferos, por sua vez, também produzem CO2. Este plâncton foi reconstruído a partir de dados encontrados em Vitelios recentemente. Este é o nosso tema de pesquisa!

Os dois jovens biólogos se revesavam entusiasmados no relato de suas atividades e de seus planos futuros. Claramente adoravam o que faziam e ficaram ainda mais motivados ao descobrir que falavam com um arqueólogo e com um estudante da área.

Neste instante eles ouviram um sinal indicador de que Mallya estava se aproximando do local. Devido à tempestade ela não usou o estacionamento e caminho externo mas entrou diretamente através de uma comporta que dava acesso quase direto à residência. Mallya era a companheira de Audrei e mãe de Giorge, uma mulher bonita e elegante aparentando ser muito mais jovem do que era de fato. Ela tinha a pele muito clara, cabelos castanhos quase louros que ela se recusava a pintar para estar em dia com os ditames da moda e era magra sem deixar de apresentar curvas e muita sensualidade. Seus olhos acompanhavam a ambiguidade dos cabelos, castanhos ou esverdeados dependendo da luminosidade ou do ângulo em que se olhava. Estes olhos eram também a sua característica principal, sua marca e assinatura pessoal. Os olhos de Mallya brilhavam com intensidade reveladora de inteligência, gentileza e uma dose saudável de sarcasmo bem humorado. Mallya e Audrei formavam um tipo raro de casal capaz de transformar a paixão da juventude em uma amizade sólida e divertida, regada por cumplicidade e boa vontade em cooperar mutuamente.

O companheirismo dos pais incomodava Giorge de certa forma mas ele aprendeu a compensar este sentimento negativo com a admiração que sentia pelos pais. Com o término da adolescência e a entrada gradual na maturidade ele estava transformando aquele barreira em um impulso para encontrar, ele mesmo, uma companheira tão gentil como sua mãe. George era maduro para sua idade mas não sentira ainda um impulso muito grande na direção do sexo oposto. E confiava na palavra dos pais quando afirmavam que ele não deveria se apressar. “Continue se divertindo com as suas amigas” dizia o pai, sob o olhar levemente reprovador da mãe que sempre acrescentava: “sem desrespeitá-las!” Não era difícil para o garoto seguir este conselho. Ele sempre tivera boas amigas, pessoas que mereciam e exigiam respeito naturalmente. No fundo ele acreditava que dentre as amigas uma se destacaria como pessoa especial, aquela que ele deveria cortejar e transformar em companheira.

Audrei sabia do comportamento responsável do filho e o admirava por isto, embora por vezes preferisse que ele se divertisse mais e não levasse a vida tão a sério. Ele era também uma pessoa séria e excessivamente devotada ao trabalho de pesquisa em arqueologia. Não fosse pelo interesse do filho compartilhado pela estudo eles certamente entrariam em conflito. Ele era um homem alto e bem mais moreno que sua mulher e, apesar da aparência forte, não era tão saudável quanto ela. Ele dependia de alguns medicamentos e cuidados médicos regulares. Em relação a Mallya ele se sentia agradecido por saber que sua amizade envolvia uma grande dose de renúncia. Ele sabia que poderia dedicar mais tempo a ela e ao filho e compensava esta falha se esforçando para estar plenamente presente nos momentos coletivos da família. Nenhum deles realizava qualquer atividade profissional naqueles horários que denominavam apropriadamente por “momentos internos”. A rotina de trabalho os mantinha separados durante a maior parte dos dias durante a semana e o encontro entre eles ocorria quase exclusivamente nas horas finais do dia.

Naquele noite a rotina estava quebrada pela presença inesperada dos jovens visitantes. Mallya entrou ofegante na sala devido ao frio por que passara antes de voltar a selar a porta protetora, beijou o filho e o marido e estendeu a mão para cumprimentar os visitantes. Audrei fez um breve relato da situação anunciando que eles passariam a noite com a família e que poderiam ser levados pela manhã, ou ao fim da tempestade, para o hotel. Mallya os acolheu de modo caloroso, tomou Jenery pelas mãos e a conduziu pela casa, apresentando o ambiente, mostrando os pontos e procedimentos de segurança e emergência, terminando o “tour” no quarto de hóspedes onde lhe entregou um jogo de toalhas e apontou para a sala de banho. “Fique à vontade”, ela disse. A moça segurou o jogo de toalhas e devolveu um olhar incerto o tímido, incapaz de expressar o desconforto que foi rapidamente percebido pela anfitriã.

— Vocês não são um casal? — ela perguntou de modo tão natural que a garota se soltou um pouco e respondeu, ainda ruborizada:

— Começamos a pouco o relacionamento. Ainda não tivemos muito tempo a sós, exceto em ambiente de trabalho. Desculpe, você e seu marido já fazem muito em nos receber. Não faz sentido fazer exigências ...

Mallya sorriu:

— Não se preocupe! Seja bem vinda e aceite uma sugestão!

Dizendo isto ela fechou a porta do quarto e acionou um painel que se acendeu na parede como uma placa de vidro fosforescente. Ela pressionou uma sequência de botões na tela e se pode ouvir ruídos vindos de dentro do quarto. Depois abriu a porta e apresentou o quarto completamente remodelado:

— Pronto! Temos agora dois quartos, com camas individuais, separados por uma divisória que pode ser removida com o simples toque deste botão ... — e mostrou o controle responsável pelo eventual sumiço da parede. — Claro que o controle fica do seu lado ...

As duas deixaram o quarto em silêncio. Do lado de fora a tempestade atingia seu clímax com ventos de altas velocidades, densa precipitação de neve e frio extremo, com temperaturas abaixo de -40o Celsius. O vento revolvia os montes de neve fofa e seca depositada sobre as árvores e no chão e, em alguns momentos, mal se podia distinguir a neve nova que caia do turbilhão revolvido pelo vento. Qualquer pessoa que estivesse ao ar livre naquele momento, sem uma vestimenta dotada de aquecimento, morreria em menos de meia hora, ouvindo o silvo do vento e respirando o ar seco com cheiro de ozônio. Por cima a lua brilhava intensa criando halos circulares de luz para quem olhasse em sua direção e uma atmosfera insólita e pálida nas proximidades do solo. Aquela era ao mesmo tempo uma face bela e agressiva da natureza! Dentro de seu bunker protegido a família e seus hóspedes decidiram encerrar o dia e se recolher a seus quartos.

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