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16/01/2012
Propósito

Rebelião

O Sol já estava baixo e o céu bastante avermelhado quando o veículo se aproximou do parque e iniciou a manobra de aterrizagem. O lugar parecia ser apenas um jardim bem cuidado. Algumas pessoas caminhavam pelas trilhas demarcadas discretamente no meio de arbustos e folhagens dispostas em grandes canteiros sob formas geométricas, cada um deles emoldurado por árvores mais altas. Em alguns trechos se podia ver construções evidentemente modernas apesar de simular prédios arcaicos, como se fossem relíquias de civilizações de um passado remoto. Grupos enormes  de pássaros faziam revoluções sobre o solo em voos coordenados e se aproximavam aos poucos dos locais onde passariam a noite. No horizonte as árvores mais altas provocavam o escurecimento prematuro do ambiente. Com a sombra se tornaram claros os primeiros sinais de que aquele não era apenas um parque — dentro dos setores vazios e planos,  como agora se podia ver, o terreno era plano e sólido e havia faixas claras iluminadas de modo intermitente, piscando como sinalizadores.

O veículo se aproximou em alta velocidade realizando uma volta similar à que faziam os pássaros e diminuindo sua velocidade bruscamente. Ele parou sobre um dos sinalizadores que passou a brilhar com maior intensidade. Sem fazer qualquer ruído desceu lentamente em reta vertical até  o solo e pousou com suavidade. De dentro desceram duas pessoas, a primeira delas um jovem humano. A  segunda, apesar da luz  escassa, parecia ser um mecko, a julgar pela forma rápida como desceu do veículo, de seu gesto preciso que fez surgir no ar um painel iluminado repleto de botões e controles virtuais. As pessoas eram, respectivamente, Giorge inThai, um garoto de aproximadamente quinze anos de idade, e e-Luige M47, um mecko de idade indefinida. Inúmeros riscos e arranhões exibidos em seu rosto e braços conduziam a impressão de que ele não era muito jovem e já havia passado por muitas experiências, inclusive de natureza violenta e desgastante.

Lui, como o garoto se referia ao mecko, era simultaneamente uma espécie de tutor e guarda do humano, embora agisse por vezes como um serviçal.

— Podemos ir ainda hoje conhecer as ruínas da Terra-Velha?  — perguntou o garoto entusiasmado — Você podia me contar mais sobre as origens e história de meckos e humanos!

— Você sabe que não posso responder a todas as suas perguntas. Responderei sempre Terei grande prazer em ensinar o que sei. Antes disto, porém, quero que você leia hoje à noite os arquivos sobre estas ruínas. Caso contrário não tirará grande proveito desta visita — respondeu Lui adotando o ar austero mas sem perder a paciência.

— Mas "M", você sempre me responde de forma ambígua ... nunca sei se deixa de responder algo porque não conhece a resposta ou por outro motivo qualquer ...  algo como a falta de permissão para falar. Pelo que compreendo os meckos sabem mais do que costumam admitir, sobre o passado dos humanos, das ruínas e dos próprios meckos!

Giorge  gostava de se dirigir ao companheiro usando simplesmente a letra M quando pretendia ser formal, quando estava irado ou  queria acrescentar um toque de importância e irreverência à sua frase. Chamá-lo de Mecko soaria como uma insolência quase intolerável e a liberdade em usar apenas a letra M mostrava afinidade e companheirismo entre eles. Nestes momentos o mecko respondia fazendo alguma referência bem humorada à sua natureza humana:

— Meu caro e jovem humano, você se esqueceu da possibilidade de que eu não tenha todas as respostas? Você acredita que todas as dúvidas estão resolvidas? Talvez por isto você tenha se descuidado ultimamente de sua preparação para a pesquisa. A história mostra que aqueles que crêem que todas as respostas foram encontradas, indivíduos ou comunidades, não se empenharão no trabalho de busca de novo conhecimento!

Lui parou por um instante, pensativo. Havia algum tipo de tristeza ou indecisão naquela pausa, algo que Giorge não conseguiu captar.

— Mas ... podemos fazer um trato ...

Lui falava pausadamente como se estivesse próximo a assumir um compromisso incomum, grave ou  proibido. O rapaz se voltou para ele acreditando que, desta vez, conseguiria obter respostas diretas, honestas e tão completas quanto possível. No entanto, como se procurasse valorizar sua próxima frase, Lui olhou para o painel e digitou uma sequência de números no terminal composto de luzes azuis. As luzes se enfraqueceram por um breve instante, voltando à intensidade anterior enquanto uma voz clara, saída de algum ponto atrás do terminal, anunciou: “Estacionamento liberado. Despache seu veículo.” Lui tocou em uma marca vermelha, recém acesa no monitor. O veículo respondeu ao comando com um silvo curto e subiu rapidamente até o ponto sobre o solo onde deveria ficar estacionado. A escuridão da noite fez com que as lâmpadas artificiais se acendessem gradualmente, revelando que havia ali uma enorme aglomeração de pessoas, humanos e não-humanos, em circulação incessante entre as diversas entradas de acesso aos corredores subterrâneos que se cruzavam por toda a parte. Poucas pessoas se demoravam mais que um breve instante no solo e ao ar livre. As construções em formato de ruínas eram, quase todas, lojas e restaurantes, acessados por baixo por meio de elevadores e escadas rolantes que formavam um grande emaranhado de vias. Muitos veículos flutuavam em silêncio sobre o parque em altitudes diferentes e bem calculadas e Giorge não pode evitar a lembrança de que, sem computadores, um estacionamento como aquele não seria possível. Os veículos subiam e desciam velozes, cruzando o tráfego intenso de  outros aparelhos que sobrevoavam o mesmo espaço aéreo sem sequer diminuir a velocidade para os pilotos que manobravam para estacionar. Uma engenharia de tráfego de grande porte e alto nível de inteligência artificial era usada e apenas as operações de ponta, decisões finais e a adoção de atitudes em situações críticas eram realizadas por humanos ou meckos.

Neste momento Giorge percebeu a aproximação de um grupo formado exclusivamente por humanos, muitos deles, caminhando por fora do setor de estacionamento. Ainda de longe se podia ver que haviam deixado seus carros fora da área reservada para isto, longe do setor controlado e das vias de  alta velocidade. Alguns deles buscavam simplesmente evitar o pagamento da taxa de uso do serviço de estacionamento. A maioria, no entanto, era composta de humanos que não acreditavam na eficiência das máquinas e meckos para conduzirem uma operação delicada como a de controle de voo. Eles eram radicais na expressão de sua descrença e, naquela tarde, haviam planejado uma aglomeração para uma manifestação anti-meckos. Giorge observava  curioso o modo como caminhavam, resolutos na demostração de sua revolta.

A divisão entre apoiadores dos meckos e seus inimigos era tão feroz quanto irrelevante no nível prático. Tudo se resumia a uma grande discussão teórica sem efeitos na vida cotidiana.  Mesmo os mais duros inimigos dos habitantes não humanos — ou pelo menos não completamente humanos —  se beneficiavam amplamente desta cooperação. A sociedade certamente colapsaria rapidamente sem a participação de seres híbridos, semi mecânicos, dotados de pequenas porções de partes orgânicas. Historicamente a inimizade e a desconfiança dirigidas aos seres artificiais havia provocado efeitos colaterais importantes na sociedade: a total superação das divisões internas entre humanos, o fim da segregação entre raças ou cor da pele, da divisão entre grupos com crenças religiosas  distintas. A divisão por nacionalidade estava, a muito, extinta. A distinção de gênero, no entanto, se mostrou uma pouco mais resiliente e apenas nas últimas décadas apresentava sinais de enfraquecimento e decadência. Os meckos se tornaram o foco de irritação para uma raça que tem dificuldade em assimilar sua própria limitação. Eles eram acusados de ocupar postos de trabalho que deveriam estar tomados por humanos,  especialmente aqueles que requeriam baixa escolaridade e menor nível de treinamento. Também causava comoção e revolta o predomínio de meckos em posições de alto nível de formação, tais como a de controladores de voo onde uma resposta rápida e de fácil integração com os computadores se fazia necessária, ou a direção dos principais centros de pesquisas científicas e tecnológicas. Para completar a desconfiança, meckos ocupavam diversos postos chaves, importantes para o governo, de uma forma pouco clara para a maioria das pessoas. Não era raro encontrar aqueles que defendiam teorias conspiratórias, sustentando que os andróides eram os verdadeiros governantes e que dissimulavam, sob uma aparência servil e amável, algum plano mirabolante de tomada social e possível banimento das espécies completamente biológicas.

Evidentemente nada disto impedia que a maioria dos humanos se utilizasse de meckos para diversos fins. A maioria dos que viviam em contato direto com os humanos, misturados a sua vida familiar, eram professores, tutores de crianças ou envolvidos de outros modos com a formação intelectual. Fora desta convivência ficavam apenas os radicais, postulantes da preservação de tudo o que consideravam “natural” e opositores da integração entre humanos e meckos.  Eram uma minoria numericamente insignificante mas muito hábil em tornar público seu ponto de vista, geralmente através de manifestações violentas e pequenos atos ocasionais de terrorismo.

Também existiam os amigos dos andróides, defensores de sua participação ampla na sociedade. E, de um ponto de vista equilibrado, exceto pela falta de imaginação criativa, pela dificuldade em tomar iniciativa em assuntos e problemas novos,  eles não eram tão diferentes de homens e mulheres com quem dividiam o espaço, de forma cooperativa, nas cidades e no campo. Meckos podiam representar uma peça de teatro com muita excelência e graça, mas não podiam criar o texto. Eles desenvolviam rapidamente aspectos tecnológicos intrincados, mostrando grande domínio sobre as ciências e a tecnologia, mas não podiam propor uma nova teoria ou rever um paradigma  desgastado em qualquer área do conhecimento. Eles podiam exibir uma boa simulação de humor mas a maioria das pessoas não perderia tempo contando piadas para meckos, sabendo de antemão que ouviriam gargalhadas gentis, mas falsas.

Giorge se deteve por um instante admirando aquelas pessoas mal vestidas, asilados voluntários da modernidade de desciam das encostas que rodeavam o parque de estacionamento. Por trás da pista por onde caminhavam ele viu uma propaganda que exibia um casal de meckos belíssimos e bem trajados. Eles realizavam múltiplas tarefas, primeiro sozinhos, depois em grupos que envolviam humanos. Ao sinal surgiam as frases: “Eles fazem quase tudo o que você faz! Seja criativo!”. Sua atenção foi arrebatada bruscamente quando ele ouviu um silvo longo, um alarme de risco de acidentes. Uma nave parecida com uma folha enorme e fina de metal apareceu reluzindo no horizonte e se aproximou do estacionamento. As pessoas que se encontravam no nível do solo pararam preocupadas, procurando em todas as direções por algum problema aéreo. E não demorou para que o localizassem. Um dos veículos recém-chegados ao pátio se encontrava em rápida ascensão e entrou em rota de colisão com uma nave de passeio, onde certamente estariam várias pessoas. Giorge se abaixou instintivamente cobrindo a cabeça com as mãos. Lui se debruçou sobre ele em atitude protetora, ignorando completamente o risco que ele mesmo enfrentava no momento.

O estrondo foi assustador, seguido de um brilho intenso e multicolorido. Cada um dos elementos queimados e expostos à alta temperatura brilhou com sua cor específica como se as naves fossem um fogo de artifício gigantesco. O barulho agitou a folhagem no chão do estacionamento ferindo os ouvidos de quem estava mais próximo do ponto de colisão e a alta temperatura consumiu a maior parte do material estilhaçado que, por isto, não alcançou o solo. De dentro da luz saiu um objeto ainda em chamas, uma estrutura de forma esférica com cinco metros de diâmetro. A nave em forma de folha que já se aproximava do local do acidente  fez uma manobra muito rápida, difícil de ser seguida pelos olhos curiosos e aterrorizados que a acompanhavam. Em seguida se postou abaixo da esfera flamejante, uma célula de sobrevivência, e acompanhou seu movimento até que a acoplagem suave fosse possível. Lui falou em tom de voz consternado, como se sentisse pena dos acidentados:

— Aquele nave de formato estranho é uma ambulância, desenhada para resgatar células de sobrevivência. Aposto que, se houver humanos envolvidos, eles serão salvos.

O acidente fora previsto com segundos de antecedência pelos controladores de voo que acionaram um chamado de socorro para uma ambulância em órbita, próxima do local. Depois da colisão muitos visitantes e funcionários do parque saíram das lojas e dos corredores subterrâneos para assistir ao resgate. Muitos pareciam preocupados enquanto a área era completamente fechada para pousos ou decolagens. Apesar de sua ação rápida e eficiente dos controladores Lui sabia que eles haveriam agora de enfrentar uma longa e árdua batalha judicial contra a família dos acidentados, aqueles mesmos que haviam sido salvos. Um acidente deste porte sempre era fruto de muitos erros: alguma máquina não teria passado por manutenção apropriada, algum circuito eletrônico falhara na hora de maior requisição, um mecko não teria reagido com a velocidade ou compreensão exata e necessária para evitar o acidente. As pessoas se agrupavam trocando impressões e se solidarizando em face do acidente desagradável e o jardim, antes quase vazio, se tornou repleto de movimentação. Muitos procuravam por informações através de seus implantes comunicadores e iam relatando para os demais as notícias ouvidas. A nave em formato de folha envolveu a célula de sobrevivência e desapareceu no horizonte, certamente em busca do hospital mais próximo.

As notícias foram surgindo aos montes e um veículo recém chegado, ainda no solo,  ajustou seu receptor de forma que outras pessoas ao redor pudessem ouvir:

— (ruídos) ... na última hora (ruídos). Um veículo de passeio em órbita baixa sobre o pátio do estacionamento no Parque Arqueológico em Sud-Parris foi atingido a poucos instantes por outro veículo em processo de taxiamento. Nicholas Alvendri é o nosso repórter posicionado próximo ao local, e envia as primeiras notícias direto do satélite de imprensa cobrindo a região sul. Como foi este acidente, Alvendri?

— Boa noite, Fersal.  Uma colisão na área de taxiamento causou grandes danos e possíveis vítimas. As duas naves envolvidas explodiram, tendo seu revestimento completamente destruído pelo fogo. A célula de sobrevivência do veículo tripulado resistiu ao impacto e foi resgatada por uma ambulância autômata. As causas do acidente estão sendo apuradas e serão divulgadas quando apropriado. Sabe-se, no entanto, que as explosões solares previstas para este fim de tarde obliteraram o sistema sensor de posicionamento e pode ter ocorrido que um controlador mecko teve sua ação retardada pelo PEM.

“Um pulso eletromagnético solar”, pensou Lui, “e no entanto todos partirão para cima do controlador responsável por uma ação atrasada em frações de segundo!” Apesar das inúmeras advertências por parte de astrônomos de que o sol estaria em alta atividade durante algumas semanas, o Conselho optou por não adotar medidas sofisticadas e caras na prevenção de acidentes.

A multidão dos anti-meckos, que antes pronunciava palavras de ordem padrões, agora gritava ofensas e brandia seus cartazes como se fossem armas. Um único mecko postado no controle de entrada do parque tentou reestabelecer a ordem o providenciar um entrada ordenada. No entanto ele só conseguiu acirrar os ânimos e, após uma discussão repleta de afrontas e palavrões alguém na multidão atirou uma cadeira pesada sobre o funcionário que caiu imobilizado. O grupo então percorreu um pequeno trecho que os separava do pátio em correria desordenada, se lançando sobre todos os andróides que podiam como tal serem identificados. Giorge olhou horrorizado a forma como os demais humanos se afastavam,  permitindo a agressão a seus companheiros meckos. E, para sua surpresa ainda maior, cada mecko se submetia pacificamente sem esboçar defesa de si próprio nem de seus companheiros enquanto a selvageria se tornava cada vez mais cruel. Aqueles que sofriam ferimentos leves procuravam se ocultar atrás de alguma folhagem ou de um banco de jardim enquanto os gravemente feridos ficavam imóveis, iniciando uma rápida transmissão de dados para outros meckos na vizinhança. Giorge sabia que estavam transferindo suas memórias, suas experiências científicas e pessoais acumuladas que, mais tarde, seriam integradas em um grande banco de dados mantido em segurança em algum local desconhecido do público. Ele se sentiu nauseado com tamanha violência e com o cheiro desagradável da combustão de tecido orgânico, misturado a plásticos e cabos metálicos. A violência produzia nele uma desconfortável sensação de mal-estar e, ao mesmo tempo, uma grande vontade de partir para a luta. Desta vez, no entanto, era evidente que era inútil lutar.

— Porque eles não se defendem? — perguntou olhando preocupado para Lui, bem a tempo de ver um homem que se preparava para atingir com um bastão o seu amigo mecko na cabeça. Giorge juntou todas as suas forças e saltou jogando todo o seu peso contra o agressor que caiu para trás vociferando algo incompreensível. Depois procurou cair afastado do homem, rolando na direção de uma planta de folhas largas. Ele sabia que não teria forças para manter uma luta corporal mais extensa. Embaixo das folhas largas ele viu outro mecko aparentando estar bastante danificado. Talvez por ter visto a atitude incomum do rapaz ele o olhou com ternura, estendeu uma mão na sua direção e entregou a ele um pequeno bastão de vidro com um núcleo metálico prateado e brilhante que girava incessantemente. Ele pronunciou ainda algumas poucas palavras incompreensíveis, ofegante e em tom de voz quase inaudível. George fez um sinal circular com as mãos, pedindo - “repita isto ...” e ligou sua câmera. O mecko repetiu as mesmas palavras e emitiu um ruído parecido com o som de motor em alta velocidade sendo desligado. Depois ficou totalmente imóvel e silencioso.

Giorge decidiu deixar a câmera ligada, acreditando que poderia documentar outros eventos interessantes. Ao se levantar, um tanto dolorido, percebeu que Lui já havia desarmado e imobilizado  seu atacante. Ele segurou o rapaz pelas mãos e ambos abandonaram às pressas o local até alcançar uma área de trânsito livre fora do estacionamento e longe da brutalidade daquela manifestação de radicalismo. Lui e Giorge compreenderam que os participantes da reunião haviam ouvido notícias, julgaram rapidamente os suspeitos e os condenaram à morte. Era difícil admitir que pessoas comuns, quando reunidas em grupos, adotavam um comportamento primitivo de matilha e perdiam rapidamente sua racionalidade. Eles se insuflavam mutuamente decretando, em acordo tácito e silencioso, uma punição severa para seus opositores. Cada indivíduo se espelhava na atitude dos companheiros para justificar sua própria selvageria, para liberar um animal sedento de violência que, de outro modo, teriam que suprimir.

Giorge sentiu vergonha mas não conseguiu explicitar para si mesmo o que aprendera com aquele evento. Ele sabia que, mais tarde, Lui haveria de perguntar sobres suas impressões, seu posicionamento sobre o ocorrido. Ao alcançar uma área onde se sentiram seguros eles caminharam cabisbaixos até alcançar um ponto de onde poderiam requisitar um transporte. O estacionamento deveria permanecer em quarentena por algumas horas e eles voltariam mais tarde para recuperar seu veículo. Giorge não desistira ainda da visita já programada. Ao longe puderam ouvir as sirenes das ambulâncias e veículos policiais que acorreram

— Porque  não se defendem? — ele voltou a perguntar.

Lui, que nunca esquecia o ponto onde uma discussão terminara quando interrompida, propôs uma linha de abordagem para responder a esta pergunta:

— Façamos um trato: você ainda se lembra sobre o que falávamos antes do acidente com o veículo no estacionamento?

Giorge não se lembrava, mas o mecko continuou sem esperar uma resposta.

— Acho que você me pediu para responder suas indagações de modo mais completo. Creio que suspeita de que estou ocultando informações ...

Giorge achou engraçado a expressão “acho que”. Claro que Lui sabia a verdade e usava este tipo de frase apenas para simular comportamento humano, para deixá-lo à vontade. Mas também sentiu vergonha. Não era fácil admitir para seu amigo que ele guardava uma suspeita daquela ordem. Ele gaguejou um pouco mas foi salvo por Lui, que continuou a falar de modo corriqueiro, como se nada grave estivesse em jogo.

—  Suas suspeitas não são infundadas! Os meckos não se defenderam porque possuem como maior objetivo a preservação dos humanos. Nossa primeira lei fundamental, a lei zero dos mecânicos, é: “Um mecko nunca atentará contra a vida, a saúde ou o bem estar de um humano, exceto em condições que possam prosperar para a extinção completa de qualquer uma das duas espécies, ou de ambas"”.

— Exceto … ? — repetiu Giorge.

— Tenha um pouco de paciência. Primeiro, meus companheiros não se defenderam porque não podem ferir os humanos. Além disto a destruição de um mecko é irrelevante, exceto se ele não puder transmitir suas memórias. Uma vez transmitidas estas memórias outra unidade pode ser construída repondo quase que imperceptivelmente a que foi destruída. Talvez por esta razão, pois acredito que alguns humanos conhecem este processo, os manifestantes usavam de tamanha violência procurando agir com rapidez para extinguir por completo sua fonte de energia antes que a transferência estivesse completa.

O rapaz fez um sinal ansioso, mostrando que pretendia fazer novas perguntas mas foi interrompido por um gesto simples de mãos. Lui pediu ao taxista que os deixasse à beira do lago Parnui, pedido imediatamente seguido por uma manobra do veículo que executou um voo em semicírculo descendente e parou sem qualquer arranco nas margens do lago. Giorge apalpou o bolso para conferir se ainda estava lá  o dispositivo a ele entregue pelo mecko. Até aquele memento ele não havia decidido sobre o que faria com o frasco e se contaria ou não sobre o ocorrido para Lui.

O lago Parnui era um local de recreio, um ponto de encontro entre amigos, festas com os colegas de escola ou do trabalho, um pedaço de natureza viva cuidadosamente mantida para assegurar a preservação da aparência selvagem e, ao mesmo tempo, oferecer segurança aos que ali circulavam. Naquela hora da noite não se podia ver nada  que estivesse além de dez passos de distância, exceto quando encontravam um turista carregando lâmpadas. Algumas pessoas sentadas na areia conversavam e comiam sanduíches, quase sempre portando um pequeno sinalizador luminoso cuja finalidade era apenas a de anunciar a sua presença. Mesmo na falta de uma paisagem mais extensa e ampla Giorge gostava da sensação de caminhar sobre a areia macia, ouvindo o ruído suave das ondas, consciente de que aquele era um lugar belíssimo. Eles olharam para o céu muito estrelado, sentiram a brisa morna e úmida que vinha da direção das águas e decidiram não usar lâmpada. Caminharam no escuro por um tempo em silêncio até que Lui retomou o assunto:

— A pergunta mais interessante, no momento é: porque você veio em minha defesa? Porque não agiu como os outros humanos permitindo que eu fosse atacado?

— Você é meu amigo …

— Uma máquina, um robô, um andróide … não um amigo. Eu estou programado para te defender, para te ensinar, para agir como seu tutor …

Giorge sentiu a garganta seca. Ele mesmo se fizera aquela pergunta muitas vezes no passado e não tinha conseguido uma boa resposta. O que poderia dizer agora? Mas, mesmo sem ter uma solução satisfatória para si mesmo, respondeu:

— Você possui partes orgânicas. E o meu cérebro é um computador, como o seu. Meu corpo é uma máquina sofisticada, mas uma máquina. Fui programado primeiro pelo processo evolutivo, depois pela educação dada a esta unidade humana, a reagir com uma ou outra emoção, com este ou aquele pensamento. Que diferença há entre nós? Eu vi você se preocupar com humanos e meckos, vi a sua tristeza ao contemplar a destruição de outros andróides. O que torna os humanos melhores que os de sua espécie?

Neste ponto já estava entusiasmado com a resposta que ele mesmo, momentos antes, nem sabia que havia encontrado. E continuou com uma eloquência juvenil mas sincera:

— Pouco me importo com o debate acadêmico, com a posição dos doutores, humanos ou meckos. Eu digo que, se uma máquina simula pensamentos e reações, se exibe emoções a ponto de me confundir sobre ser ela uma máquina ou um humano, então ou digo que ali existe consciência! Ou você pode me fornecer uma definição melhor?

O mecko suspirou, exclamando apenas:  — “não posso, não ... é um longo debate!” Caminharam então em volta do lago até que Giorge sentiu seus pés doloridos. “Isto deve bastar para que você consiga dormir” — concluiu Lui. E, para finalizar, completou:

— Aceito fazer um acordo, se você também aceitar. É verdade que eu não tenho permissão para responder a todas as suas perguntas. Também é verdade que não tenho todas as respostas, assim como existem perguntas para as quais ninguém, no presente estágio de civilização, tem resposta. No entanto tenho razões muitos sólidas para evitar alguns temas. Mas não posso te dar pistas sobre quais são as informações omitidas. Responderei as suas perguntas com a toda a profundidade e extensão possível. No entanto, não te direi, em nenhum momento, se os limites de minha resposta ocorrem sobre pontos proibidos ou pontos que desconheço. Está bem desta forma?

— Não tenho certeza de que compreendi a lógica ou a motivação para o seu sigilo. Tenho alguma outra opção?

— Não — respondeu Lui sorrindo.

— Então temos um trato …

Instintivamente, sem compreender o porque de tamanho subterfúgio, Giorge sentiu que acabara de estabelecer uma conexão maior com Lui, e que aquele deveria ser lembrado como um momento importante. Ele queria partir já para mais uma série de indagações mas, como se respeitasse o estabelecimento daquela conexão, decidiu permanecer em silêncio. Sem realizar nenhum movimento externo observável Lui telefonou para o Sr. Audrei inThulu, informando que seu filho estava pronto para ser recolhido e levado para casa. Ele transmitiu as coordenadas do local onde estavam e, em voz alta, para que Giorge o ouvisse, informou que permaneceria por mais algum tempo por ali, antes de retornar para o centro da cidade.  Giorge sentiu uma ponta de decepção pelo passeio frustrado ao parque arqueológico mas sabia que havia conquistado algo mais importante. Daquele momento em diante ele nunca mais percebeu qualquer traço de artificialidade em seu amigo, Lui.

O veículo de Audrei inThulu não demorou a pousar na praia. Giorge entrou nele quase ofegante, ansioso para contar ao pai tudo o que presenciara. Ele se voltou para Lui que permanecera do lado de fora e fez um sinal discreto, batendo de leve o dedo sobre o próprio pulso, indicando o envio de uma mensagem. Ele esperou enquanto seu pai estabelecia a trajetória da nave e depois consultou suas mensagens recebidas. “Não mencione o nosso acordo”, escreveu Lui. Claro, ele já havia pensado nisto e se decidira a não contar. “Então tenho dois segredos”, pensou, passando os dedos sobre a cápsula fria de vidro recebida do mecko agonizante, guardada em seu bolso.

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