Pela manhã Jenery acordou com febre alta. Quando Mallya se levantou ela encontrou Micael caminhando de um lado para outro, preocupado e indeciso sobre pedir ou não ajuda aos donos da casa. Mallya tivera formação médica na escola superior embora nunca tenha exercido a profissão. Ainda como estudante ela se envolvera com a pesquisa em neurociência e hoje não se considerava uma médica. Mas, como neurocientista ela conhecia bem o efeito que a mera atenção de um profissional de saúde podia produzir sobre um paciente em qualquer nível de sofrimento. Por isto fez uma visita até o alojamento de hóspedes que permanecia montado como dois quartos de solteiros. Ela fez as perguntas de praxe para excluir a eventualidade de uma doença mais grave e apresentou um diagnóstico provisório:
— Você foi exposta a variações de temperatura, cansaço e estresse psicológico e, provavelmente, está apenas resfriada. Faremos uma coleta de sangue para uma análise mais detalhada, apenas por precaução. Audrei ou Micael podem levar a amostra até um laboratório na vila Svenbourgh que fica a poucos quilômetros de nossa casa. Descanse, tome líquidos e uma dose deste medicamento para baixar a febre – ela mostrou algumas pílulas com um gesto equivalente a um pedido de permissão para servir com água o medicamento.
Jenery aceitou de bom grado o remédio. Como esperado, talvez devido ao efeito do sol que entrava por uma janela larga de vidro, a garota logo se sentiu melhor. Giorge e Audrei tomavam café e discutiam sobre como preencheriam o fim de semana, apenas para concluir que deveriam verificar as previsões do tempo ao longo do dia antes de sair para qualquer aventura ao ar livre. Mesmo uma manhã bela e ensolarada e o céu claro não eram garantias de um dia tranquilo e com bom tempo após uma tormenta como a da noite passada.
Do lado de fora o mundo pareceria dormir em extensa brancura, em uma paz somente perturbada por pequenos roedores e pássaros que se aproveitavam do conteúdo revolvido pelo vento da noite passada. A cobertura de segurança da casa havia sido removida e agora se podia ver que estavam em meio a uma vila formada por muitas casas, afastadas umas das outras por aproximadamente 300 metros de jardins, campos esportivos, fontes e passagens delimitadas por pedras artificiais, cortadas e montadas como se fossem partes integrantes da natureza local. Gradualmente as crianças da vizinhança começaram a sair de suas casas, todas vestidas com rigor para enfrentar a temperatura em torno de 5 graus Celsius negativos preenchendo o ambiente com risos e gritos animados. A brincadeira, no entanto, não durou muito. Em um intervalo de menos de duas horas a temperatura subiu até derreter as camadas externas de neve que cobria o chão e as árvores. Em seguida ocorreu um resfriamento rápido, a temperatura atingindo seu mínimo em torno das 11 horas da manhã. A água degelada se solidificou como gotas brilhantes de cristal dependuradas em todos os galhos e ramos. O piso das calçadas e ruas se tornaram lisos como mármore polido. A criançada correu de volta para casa com a exceção de alguns poucos corajosos que permaneceram ao ar livre fotografando o fenômeno raro das folhas dos arbustos transformadas em gotas de cristal brilhantes que tilintavam sob o efeito do vento que voltara a soprar.
Desapontado por não poder realizar o passeio combinado com seu pai, Giorge caminhou pela casa, agitado com a presença dos dois jovens estranhos. Ele não havia se esquecido da mensagem que recebera do mecko agonizante mas não tinha certeza de que teria a privacidade necessária com tanta gente em casa. Quando soube que Micael iria até a vila para levar o material colhido para exames de Jenery ele resolveu ir até o quarto da moça para saber mais sobre ela. Quando entrou no recinto ela se sentou sobre a cama, abatida mas aparentando estar satisfeita com a visita. Ele deduziu que ela estava entediada e que se esforçaria para manter por ali alguém com quem conversar. Apesar de ter os cabelos claros despenteados e da ausência de qualquer maquiagem a menina era linda! E ele ficou surpreso com a serenidade e sobriedade de suas opiniões logo que começaram o diálogo.
— Você não acha arriscado reinserir animais extintos na natureza? — ele perguntou, logo depois de se cansarem das palavras amáveis e sem sentido que o convívio social impunha. — Receio que com esta prática estejamos afetando gravemente o curso da evolução natural e podemos perturbar os propósitos da própria natureza.
Não demoraria muito para que ele percebesse que poderia, em conversar futuras com Jenery, pular as introduções sociais e abandonar o teatro formal dos costumes. Ela era a pessoa menos convencional que ele havia encontrado até o momento e isto o fascinava. Mas, naquele momento, ela apenas optou por ser gentil:
— Talvez você tenha razão. Mas temos modificado a natureza desde o instante em que aprendemos a cozinhar ou assar nossa alimentação. Com isto comemos coisas que nos seriam naturalmente vedadas. Além disto transformamos lobos em cachorros, peixes desbotados em carpas exuberantes, flores singelas em rosas maravilhosas ...
— Já se conhece em que época estas transformações foram feitas? — ele interrompeu, curioso.
— Isto você deveria perguntar a seu pai. Ele é o arqueólogo! — ela disse sorrindo. — Até onde sei não existe resposta para esta pergunta. A análise genética não deixa dúvida: um dia, no passado, cachorros foram moldados à partir de lobos por meio de cruzamentos seletivos, provavelmente a partir de indivíduos mais amistosos que já estavam tendentes a conviver com humanos. Existem registros fósseis muito antigos de cachorros dentro de comunidades humanas. Infelizmente, como você deve saber, há grandes descontinuidades ou saltos na datação dos registros das comunidades humanas. Para mim este é o grande problema da ciência atual: porque não aparecem fósseis humanos em todas as épocas?
— Então você defende que não há risco para a natureza ... — ele disse, interrompido por Jenery de modo entusiasmado mas educado.
— Claro que há risco. Sempre existem riscos. Mas você está usando implicitamente o conceito de que há uma meta ... e isto é metafísica, não é algo que conheçamos. Uma pergunta mais sensata seria: temos alguma outra opção? Podemos interromper o fluxo da manipulação tecnológica e diminuir nossa intervenção nos processos naturais? Você acha que um casal deixaria de recorrer à manipulação genética para ter os filhos que não poderia ter de outra forma? Você espera que as pessoas não se utilizem de recursos tecnológicos para prolongar a vida e aceitem viver os míseros 90 ou 100 anos como ocorria antes que a interrupção do envelhecimento celular fosse desenvolvida?
Giorge ponderou sobre todas aquelas palavras com atenção. Eles continuaram o diálogo por algum tempo, especulando, se divertindo. Ambos apreciavam qualquer chance de partilhar ideias, de verificar o estado de seu próprio pensamento através da confrontação com o pensamento de outra pessoa. Ambos percebiam, pelo menos implicitamente, o grande jogo que era a elaboração, manutenção e aperfeiçoamento dos memes através de diálogos como aquele. Eles discutiram sobre as relações entre meckos e humanos, sobre a questão das origens, sobre diversos outros temas. E ainda se comprometeram a retomar o debate para cobrir assuntos esquecidos naquela primeira conversa. Apesar de estranhar algumas posições levemente conservadoras da moça, ele a considerou fascinante. E, apesar de seu interesse nos temas, era difícil para Giorge esconder a admiração pela beleza harmoniosa do rosto de Jenery, pela suavidade de sua voz e firmeza de sua expressão. Em certo momento ele experimentou manter o olhar posto sobre os olhos dela por alguns instantes, um pouco mais do que faria com outra pessoa qualquer que houvesse conhecido a tão pouco tempo. Para a sua surpresa ela simplesmente aceitou o gesto e o acolheu sem desconforto. Ele não poderia dizer se o instante demorou segundos ou minutos, apesar de parecer durar uma eternidade. O momento foi rompido com a chegada de Micael que fez barulho entrando pela porta da casa. Ela abaixou os olhos e ele se levantou da poltrona colocada ao lado da cama sob o pretexto de que gostaria de se informar sobre os resultados do exame.
Micael entrou totalmente encharcado, tirando o casaco aquecido e se enxugando com pode com a própria camisa. Aparentemente ele não soubera usar o sistema de aquecimento e vedação e a neve acumulada nos breves trechos percorridos a pé havia se derretido diretamente sobre seu corpo. Ele relatou para Mallya, que logo chegou com uma toalha, os resultados dos exames de Jenery que, como previsto, estava de fato infectada por alguma variante histórica do vírus da gripe. Na condição de um arqueólogo Audrey, juntamente com sua família, estava vacinado contra aquela cepa de vírus e nada tinha a temer. Micael se vacinara na clínica e deveria aguardar alguns dias até entrar de novo em contato com a moça doente.
Giorge ficou surpreso com a não contaminação de Micael, que viajara em um pequeno veículo por muitas horas junto a uma pessoa infectada. Mas preferiu não dizer nada e subiu para o segundo piso onde ficava seu quarto. Ele ligou seu computador e transferiu para ele o arquivo de áudio contendo as palavras ditas pelo mecko destruído na batalha do parque histórico. Depois reproduziu o áudio, apenas para confirmar que não poderia compreender nenhuma das palavras pronunciadas. "Parece ser um tipo de linguagem arcaica, algo como o idioma de Britha ou de Cermain, usados em um passado remoto", ele pensou. Além das palavras o mecko havia também emitido ruídos, algo que ele não percebera no momento do conflito. Giorge procurou por traduções automáticas, sem sucesso. O tradutor exibiu uma única notificação: "linguagem extinta, 80% brithanês." Giorge buscou na rede dicionários brithaneses de épocas diversas e refez a tentativa de tradução. Desta vez alguns trechos foram decodificados. O tradutor demorava longos segundos processando os ruídos entremesclados à fala e depois deles demorava outro tanto para retomar o reconhecimento das palavras ditas. Giorge resolveu então separar o áudio em dois arquivos, um contendo palavras e o segundo com ruído apenas. Para sua surpresa o arquivo com palavras foi imediatamente reconhecido e traduzido sem falhas. Receando chamar a atenção dos demais presentes na casa ele optou por produzir um arquivo de texto, e não de áudio, como resultado da operação, e leu:
— "Garoto ... este frasco é um reservatório de memórias. Por favor, mantenha-o em segurança. De preferência entregue-o para um mecko de sua confiança. Informe que eu, e-Hecko M-45, não pude entregá-lo pessoalmente por ter sido danificado na colisão sobre o Parque Arqueológico em Sud-Parris. Minha integração bio-eletrônica foi afetada e a transmissão de meus próprios memes para outro mecko não foi concluída."
Giorge se lembrou da situação tensa ocorrida no parque quando ele recebeu aquele frasco. O cheiro de carne queimada, misturado ao da combustão de componentes plásticos e fios ficou bem retido em sua memória. Ele quase pode ver Hecko M-45 se contorcendo, perdendo a coordenação e balbuciando palavras desconexas. O trecho final só foi decifrado, embora parcialmente, após diversas passagens pelo programa tradutor e diferentes tentativas para os parâmetros de entrada. Giorge leu o texto extraído das palavras finais que foram quase sussurradas pelo mecko antes que ele exalasse um último suspiro profundo e sofrido:
— "É apavorante encontrar o seu final antes que se tenha transmitido as informações que conduzem à continuidade. É assustador imaginar que parte dos Arquivos pode ser perdida. O mergulho no nada é profundamente incômodo ..."
O trecho era, na verdade, uma citação extraída de um romance que ele conhecia quase de cabeça, uma tentativa humana de compreender a mentalidade dos meckos. Giorge parou um pouco tentando assimilar melhor aquele momento. Depois voltou sua atenção para o outro arquivo que continha os ruídos previamente separados das palavras. Como o tradutor demorasse muito tempo procurando interpretar os sons ele suspeitou de que ali também havia conteúdo inteligível, de que não fossem apenas ruídos. Por isso fez tentativas diversas, submetendo o arquivo a filtros de várias naturezas, selecionando frequências e experimentando com diversas modulações. Depois de algum tempo, finalmente, teve a ideia simples de tratá-lo não como áudio mas como um arquivo multimídia onde estavam reunidos textos e imagens. Aquilo era, na verdade, um livro ou um relatório gigantesco, algo bem menos compreensível e que, claramente, não fora endereçada a ele.
Neste momento Mallya bateu em sua porta e o convidou a se juntar à família para o almoço. Giorge disfarçou o susto, gravou o arquivo em uma pasta criptografada e desceu as escadas em direção à sala principal. Jenery já estava sentada à mesa e aparentava perfeita saúde. Ela usava um pouco de maquiagem, um vestido leve e estava deslumbrante. Seus olhos brilhavam intensamente e, durante a refeição, ela olhou e falou muito mais com Giorge de que com seu colega, Micael. Este, por sua vez, não pareceu se incomodar, discutindo animado com os donos da casa seus planos de trabalho e de pesquisa. Também Micael, em um momento ou outro, deixou transparecer posições conservadores em relação aos meckos. Embora procurasse disfarçar era difícil não perceber sua antipatia pela adoção relativamente moderna do modelo de relacionamento familiar entre humanos e meckos. Ele se referia com nostalgia ao passado, à época em que os contatos entre as duas espécies era apenas formal e restrito apenas a ambientes de trabalho e pesquisa. Giorge não conseguiu evitar considerá-lo uma pessoa grosseira e excessivamente presa a tradições. Apesar disto participou da conversa que se estendeu animada entre os cinco que permaneceram sentados à mesa até muito depois de terminado o almoço.
Bem longe dali Lui olhava contemplativo as montanhas de pico nevado que se tornavam cada vez mais brancas e reluzentes à medida em que ele se aproximava de seu destino, ao norte do continente. Lui gostava de pilotar manualmente sua nave sempre que isto era permitido mas, naquele momento ele havia ligado os controles automáticos para se dedicar simplesmente à admiração daquela natureza deslumbrante. Naquela latitude, nas regiões afastadas da influência da civilização, as coisas pareciam tão simples e belas! Muito pouca coisa havia mudado dentro do período de memória que ele guardava ativado na consciência — aproximadamente quinhentos anos. Ele poderia se ajustar para lembrar de períodos muito mais antigos, se quisesse, mas evitou fazê-lo. As lembranças muito remotas causavam nostalgia e ele não podia se lembrar seletivamente de montes e mares, ou de eventos políticos importantes, sem se lembrar também de seus amigos humanos falecidos a muito, nem todos sob circunstâncias agradáveis de se rememorar. "A memória é uma benção e uma maldição!" — pensou. Sua contemplação foi interrompida por um chamado eletrônico, que ele atendeu sem fazer qualquer movimento muscular mas apenas direcionando sua atenção sobre o ícone de mensagem que piscava na sua frente. A mensagem, transmitida sob forma compactada e ininteligível para um humano, para ele foi imediatamente clara. No entanto ele preferiu descompactá-la e ouvi-la novamente através do áudio de seu veículo, planejando sua reação enquanto o som era reproduzido:
— e-Luige M47, falhamos na tentativa de resgatar o conteúdo de memória de nosso observador externo. Também o vaso de registros que ele portava não foi encontrado. Lamentamos que você não tenha feito contato com o observador antes de seu desligamento e acreditamos que seu pupilo humano, Giorge inThulu, possa ter feito contato com o observador.
"Desligamento ...", ele pensou. Informalmente qualquer mecko usaria a palavra "morte", principalmente se suas memórias foram perdidas. "Quantas lembranças de laços afetivos, quantas lições acumuladas teriam sido perdidas?" Lui já havia sido informado, em mensagem prévia, de que o incidente sobre o parque arqueológico fora um atentado. Sua participação involuntária no ocorrido após a colisão fez dele o mecko mais apropriado para lidar com aquela situação de crise. "Principalmente devido à possibilidade de Giorge estar envolvido" ele pensou. Em seguida ele manipulou o veículo para alcançar maior velocidade e se recostou na poltrona para decidir como abordar o assunto com seu companheiro humano. Abaixo dele as montanhas foram gradualmente se transformando em geleiras com sombras azuladas e a claridade deu lugar aos tons vermelhos da tarde que terminava. Lui comunicou sua chegada e estacionou na área externa, tão próximo quanto pode da entrada da casa.
Quando Lui entrou na residência dos inThulu Giorge estava trancado em seu quarto e lá permaneceu, completamente envolvido e surpreso com o conteúdo que estava conseguindo extrair da memória. Lui foi apresentado a Micael, que o tratou com frieza e desconfiança, trocou algumas palavras com Mallya e Audrey e perguntou por seu aluno. Ao perceber que o mecko subia em direção a seu quarto Giorge foi obrigado a reunir toda a sua concentração para escolher rapidamente que atitude adotar. E decidiu que seria mais sábio entregar o artefato de memória sem relutância, preservando a confiança do amigo. De qualquer modo era muito provável que ele já soubesse de sua existência. Ele destrancou a porta e deixou aberta em seu monitor a imagem que exibia gráficos de monitoramento da atividade solar. Lui se sentou ao lado do garoto sem fazer nenhum gesto que se assemelhasse a uma tentativa de tomar para si o artefato ou de impedir que ele continuasse sua investigação entre aquelas inúmeras páginas repletas de dados. Giorge foi o primeiro a falar:
— Tenho muito a te contar. E muitas perguntas a fazer ...
— Vamos fazer valer nosso trato. Respondo a tudo na maior extensão possível. Depois você me entrega o frasco. Está bem assim?
Giorge apenas acenou com a cabeça e se desculpou por interpretar uma mensagem que não era a ele destinada — coisa que Lui respondeu apenas com um sorriso e as palavras "você é um humano jovem e inteligente!" Depois procurou por algumas páginas contendo informações sobre o recente pico na atividade solar enquanto relatava sobre seu encontro com Hecko, a entrega do frasco de memória, sua interpretação das palavras incompreensíveis que ele pronunciara antes do desligamento e sua surpresa ao ver o conteúdo daquele documento. Finalmente perguntou:
— Vejo aqui que a atividade solar está passando por um pico. Existe perigo para a vida na Terra?
— Sim. Mas não eminente. O Sol exibe um ciclo de onze anos entre seus picos de maior atividade. Passamos intactos várias vezes picos de intensidade incomum. Por isto estamos monitorando o Sol. Hecko fazia parte de um grupo de monitoramento postado em um satélite fora da atmosfera. Este grupo acompanha diversos fatores que podem representar riscos à vida biológica. Os demais capítulos deste documento tratam de outros fatores que podem causar problemas para a vida ou para o funcionamento regular da sociedade. Analisamos, por exemplo, a constituição dos gases em camadas elevadas, a incidência de partículas subatômicas provenientes de fontes cósmicas na atmosfera ou a probabilidade de que planetas desgarrados ou grandes meteoritos se aproximem demais da Terra.
— Porque o observador vinha pessoalmente trazendo o frasco? Porque ele não transmitiu seus dados?
— O frasco foi enviado exatamente devido ao aumento da atividade eletromagnética. Os dados transmitidos estão chegando na superfície corrompidos e os observadores julgaram conveniente enviar uma mídia física. Aparentemente alguma pessoas julgaram conveniente impedir que a mensagem fosse entregue...
Giorge deu um salto:
— Houve sabotagem?
— Sim. Um grupo de humanos se aproveitou da grande incidência de radiação solar para provocar a colisão. A nave-ambulância foi acionada por eles para salvar os humanos envolvidos, pessoas que, até onde sei, não faziam parte do plano e nem tinham conhecimento dele.
Giorge ficou pensativo e Lui se aproveitou para pedir que o frasco lhe fosse entregue. O garoto o entregou sem titubear. Afinal todos os arquivos já estavam copiados em seu computador. "Humanos não se importam em ferir outras pessoas para atingir seus objetivos" — disse Giorge em voz baixa. Este último pensamento alavancou em sua mente uma outra pergunta, para a qual não conseguira ainda uma boa resposta:
— Os meckos podem ferir os humanos? Porque não se defendem quando atacados?
Lui respirou algumas vezes pausadamente, procurando avaliar o quanto poderia revelar para seu amigo. Em seguida pediu a ele que conseguisse o melhor microscópio disponível na casa. Depois tirou uma amostra de material coletado de dentro de sua boca como se estivesse fazendo um exame de DNA. Colocou o material sob o microscópio e mostrou uma imagem fascinante para seu aluno:
— Este é o equivalente mecko do material genético puramente biológico, o repositório de nossa informação ancestral. Ele funciona de modo análogo aos genes humanos, uma espécie de esquema diretor sobre o qual nosso corpo é construído. Temos embutido nele as guias básicas de nosso comportamento, assim como a espécie humana reproduz comportamentos ancestrais acumulados ao longo da evolução. Estes comportamentos não são adquiridos pela educação. Uma criança chora mesmo que nunca tenha visto outra pessoa chorar. Um adulto foge amedrontado se acredita que sua integridade está ameaçada. Tabus são propagados de uma geração para a outra: aversão ao incesto, rituais funerários, a recusa em causar dano gratuito em seu semelhante.
Giorge olhou para a imagem sem muito espanto, uma vez que aquilo não era nenhuma novidade para ele: nanotecnologia misturada à genes orgânicos, muito similares aos genes humanos.
— Mas a tirania da programação evolucionária pode ser vencida ... — disse Giorge.
— Pode, em alguns casos. Você confia em mim? Acredita que eu possa feri-lo?
— Confio. Além de ser um mecko você é meu amigo. Estou certo de que não poderá me causar dano.
O mecko tirou do bolso uma ferramenta laser e acionou seu feixe de luz. Em seguida ajustou o alcance de corte do laser para aproximadamente um metro e meio, cuidando para que o feixe de luz não atingisse nenhum objeto no quarto. Giorge olhou para aquela luz verde, acompanhada de um ruido característico e que servia apenas como um guia para que o operador soubesse onde estava atuando o laser invisível. Lui movimentou o feixe de um lado para outro aparentando não ter qualquer objetivo para seu gesto. Subitamente porém ele ergueu os dois braços, segurando a ferramenta com ambas as mãos, fez uma careta contorcida e violenta e desceu o feixe sobre o corpo descuidado de Giorge. O menino deu um salto da cadeira e com os pés empurrou Lui para trás fazendo com que ele caísse ruidosamente. Depois se colocou em posição de defesa, protegendo o rosto e as partes superiores de seu abdômen. Lui se levantou sorrindo, fazendo um gesto pacificador com as mãos e mostrando que o laser não estava ligado mas apenas o feixe de luz verde:
— Calma ... só queria te mostrar ... sua programação de autodefesa é muito antiga e está inserida profundamente em seu ser. Já a amizade e a confiança são características muito mais recentes em termos evolutivos e reside em camadas muito mais superficiais de seu cérebro.
Enquanto Giorge se recuperava do susto Lui voltou para o microscópio de digitou no corpo do aparelho alguns números sob forma de coordenadas de posição. Depois ajustou para o nível máximo sua ampliação. Uma plaquinha pequena aparentando ter letras impressas se tornou visível.
— Parecem letras, mas não consigo lê-las.
— São letras. É um símbolo muito arcaico, colocado ai para nos lembrar de algo que está profundamento arraigado na própria existência dos meckos. Vou traduzir para você:
1. Um mecko não poderá jamais causar danos a um ser humano e nem, por meio de sua inação, permitir que um humano seja ferido.
2. Um mecko deverá sempre obedecer ordens diretas de um humano, exceto nos casos em que estas ordens conflituem com a Primeira Lei.
3. Um mecko deverá sempre proteger outros meckos exceto nos casos em que esta proteção conflitue com a Primeira Lei ou a Segunda Lei."
Isaak Yudovich Ozimov
Lui esperou por algum tempo até que Giorge assimilasse aquela informação. Depois pediu a ele que não comentasse abertamente com outras pessoas tudo o que havia descoberto com a partir daquele frasco de memória e com a conversa dai resultante. Em seguida olhou o rapaz nos olhos, reafirmou a sua amizade, seu compromisso continuar a dar respostas claras para suas indagações e pediu que ele apagasse o arquivo do mecko observador de seu computador.
— Isto é perigoso para você e sua família — ele disse. — Existem pessoas que fariam qualquer coisa para botar as mãos neste arquivo. Além disto você tem estranhos em casa.
Giorge demorou para responder. Depois se afastou permitindo que Lui se aproximasse de seu computador. O mecko abriu um terminal e digitou algumas linhas de comando que, como Giorge sabia bem, apagaram o arquivo e sobrescreveram a memória com outro conteúdo, de forma que o texto original não pudesse ser recuperado.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo até que o sossego foi rompido por uma sequência de bipes seguida por uma música no estilo de vinheta destinada a informar que notícias importantes estavam sendo transmitidas pela rede. O alarme era quase sempre um sinal de alerta e despertou em Giorge uma ansiedade imediata. Os dois decidiram descer as escadas para assistir com a família ao noticiário. Em baixo, na sala de estar, já estavam todos reunidos em frente ao monitor, com exceção de Jenery, e Audrey selecionava um canal em que imagens claras eram transmitidas em tempo real. A imagem no monitor principal exibia uma multidão reunida na praça central de Astanha, um bela cidade no noroeste do continente central. A praça, famosa por estar sempre repleta de turistas, parecia agora um palco de guerra com pessoas atacando e destruindo monumentos e fachadas de lojas que se encontravam nas bordas do grande ambiente circular aberto. Astanha era uma cidade famosa por ter uma população quase inteiramente constituída de meckos e se tornara ponto turístico obrigatório devido a seus prédios modernos, a eficiência de seu transporte público, a limpeza de suas ruas e os inúmeros museus espalhados em torno da praça principal, agora sob ataque. No monitor lateral o texto informava sobre um ataque eminente à cidade e pedia aos residentes para permanecerem em casa e aos turistas que abandonassem o local. De fato, agora se podia ver que nem todos participavam da algazarra violenta. Misturadas a multidão famílias inteiras corriam de um lado para outro, pais procurando filhos, crianças aterrorizadas e muitas pessoas simplesmente fugindo da confusão. O repórter que cobria o evento tentava se manter calmo:
— ... todos devem abandonar o local. Temos informações de que um ataque em grandes proporções está em andamento.
Depois, para a surpresa de espectadores espalhados pelo mundo inteiro, três naves se aproximaram do centro da praça, voando a poucos metros acima do solo. Devido à baixa altitude elas estavam forçadas a manter uma velocidade muito baixa enquanto um corredor de pessoas se postava organizadamente ao longo das trajetórias de cada uma, algo que Giorge compreendeu logo como uma tática para impedir que a polícia da cidade abatesse os veículos. Eles se aproximaram do centro da praça, produziram um ruído fazendo com que os manifestantes se afastassem do ponto central e dispararam três feixes de laser simultâneos sobre uma pequena porta quase invisível, desenhada sobre o chão. Em poucos segundos se deu uma explosão seguida de muito fogo. Uma das naves foi envolta no incêndio e caiu ruidosamente sobre o solo. A explosão deixou a mostra um complexo de salas subterrâneas, algo que a maioria das pessoas não sabia estar ali. As duas naves restantes foram facilmente alcançadas por naves tratores e obrigadas a aterrizar. Uma frota policial cercou a praça forçando uma saída organizada dos civis onde todos eram identificadas e alguns retidos. Outras naves chegaram em seguida para apagar o fogo e limpar os destroços e, em pouco tempo, a praça estava deserta e limpa como se nada anormal tivesse acontecido, exceto pelo testemunho da cratera negra aberta em seu centro. No entanto a visitação não foi restabelecida.
A família inThulu deixou o monitor ligado com o volume baixo por mais algum tempo, apreensivos a respeito de uma possível continuidade no conflito. Mas, além das incessantes repetições das cenas e dos comentários dos analistas que nem sempre pareciam saber do que estavam falando, nada mais ocorreu. Jenery se levantou e veio se informar do ocorrido. A atenção de todos estava sobre Lui na posição de único mecko presente e alguém que conhecia bem a cidade de Astanha. Ele explicou que aquela era a entrada para um abrigo subterrâneo, o que explicava o incêndio. Depois procurou se esquivar com gentileza das perguntas que surgiram: "Não há muito o que eu possa dizer sobre a finalidade deste abrigo e nem sobre o motivo dos agressores", ele disse. "Em breve saberemos quem são estas pessoas...". Desnecessário era dizer que eram humanos e que o alvo eram os de sua espécie. Sobre isto a família preferiu se calar. O diálogo se estendeu por mais algum tempo, sobre assuntos diversos. Micael quase não se dirigia ao mecko e respondia com brevidade as suas perguntas. Jenery foi se soltando aos poucos e logo parecia ser uma amiga antiga de todos os presentes.
Do lado de fora, apesar de mal ter iniciado a noite, a escuridão ocupava todos os recantos da terra, começando por valas e rebaixamentos e se expandindo até as pontas mais altas das construções e dos morros. O vento e o frio imperavam soberanos. O ar seco deixou a mostra um céu estrelado de beleza surpreendente para quem não conhecia as regiões do planeta em latitudes mais elevadas. Antes de pegar no sono Giorge rolou de um lado para outro em sua cama seca, quente e confortável. Ele gostava de pensar em como a tecnologia tornava possível uma vida tão aprazível dentro de um ambiente fechado, circundado por condições tão inóspitas e selvagens. Apesar do conforto ele não conseguiu deixar de pensar por um bom tempo na violência que presenciara e em que medida aqueles eventos poderiam ameaçar o seu bem estar, o bem estar da sociedade inteira.
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