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Devemos acreditar na ciência?

12/12/2011

Guilherme Santos Silva

armstrong

“If you have to ask what jazz is, you'll never know.”

Louis Armstrong

O que é ciência? A palavra ciência é derivada de scientia, uma tradução latina para o grego episteme, ambas significando conhecimento. A ciência é um empreendimento e um esforço coletivo humano para compreender o universo, a natureza e o próprio ser humano.

Qual é o objeto da ciência? Qualquer coisa que possa ser verificada em repetidos experimentos ou observações é um objeto da ciência. Objetos além da possibilidade de observação e experimentação estão fora do escopo científico, existam ou não. Por este motivo o objeto da ciência não é fixo mas se expande na medida em que a própria ciência se expande. Uma discussão sobre a existência de protons, eletrons e neutrons seria metafísica e não científica na época de Galileu ou Newton pois nenhum experimento ou observação acessível aos pesquisadores da época permitiria chegar a uma conclusão a favor ou contra a existência destas partículas. Além da observabilidade o tratamento de um objeto científico deve estar embasado em uma formulação teórica ou modelo que permita sua compreensão, mesmo que parcial ou fragmentada. A mera realização de um fenômeno em laboratório não torna imediatamente aquele fenômeno um objeto de estudo científico se não existem modelos ou teorias que possibilitem sua compreensão. Historicamente isto foi ilustrado inúmeras vezes por meio de resultados totalmente inesperados que acabaram sendo ignorados ou vistos como meros erros experimentais para ser, mais tarde, reconhecidos como descobertas novas e importantes. Portanto a ciência não evolui nem por meios empíricos nem formulações racionais isoladamente mas consiste em uma interação permanente entre modelos teóricos e feitos experimentais (ou observacionais).

daVinci

Leonardo da Vinci foi um representante importante do renascimento, uma era onde arte e ciência não estavam necessariamente dissociadas. Ele tentava compreender um fenômeno descrevendo-o em detalhes, muitas vezes por meio de suas gravuras espetaculares, e não tinha grande preocupação com os aspectos teóricos.

Como progride a ciência? A ciência evolui através da observação de fenômenos, sempre que possível realizados em laboratório sob condições controladas. Muitas feitas um fenômeno não pode ser reproduzido em laboratório mas deve ser obervado diretamente na natureza. Isto ocorre na astrofísica, por exemplo, onde os objetos sob estudos em geral se encontram distantes e os eventos ocorrem em escalas gigantescas. Também existem situações onde o custo do experimento é proibitivo ou a ética impede sua realização, tal como estudos sobre a psicologia ou a saúde humana. Modelos são criados para explicar o que se observa e estes modelos são verificados por meio de novos experimentos. Por isto todo modelo científico deve propor consequências possíveis de serem verificadas. Experimentos com resultados positivos levam à uma confirmação parcial do modelo enquanto um único resultado negativo, se devidamente verificado, deve levar ao abandono completo daquela formulação.

CERN

Neutrinos mais rápidos que a luz?

Recentemente, em Outubro de 2011, foi anunciada a realização de um experimento onde neutrinos parecem ter viajado com velocidade superior à velocidade da luz, o que contradiz as conclusões da teoria da relatividade. A comunidade científica reagiu, como sempre faz, com ceticismo a esta notícia que implicaria em uma revisão profunda de princípios bem estabelecidos da física. Embora esta pareça ser uma atitude conservadora ela é necessária: o anúncio de qualquer descoberta deve ser verificado em outros laboratórios, por cientistas de todas as partes do mundo. Desta forma erros, e às vezes enganos propositais, são eliminados e não se perde tempo reformulando teorias bem verificadas. Teremos em breve um artigos neste site descrevendo esta experiência com neutrinos.

Na foto: anúncio do resultado do experimento com neutrinos supostamente mais rápidos que a luz no CERN, 23 de setembro de 2011.

Michelson e Morley

Resultados negativos mas importantes

Em algumas situações ao longo da história um experimento com resultados negativos foi ser extremamente importante. O caso mais citado e um exemplo extremo disso se deu com o experimento de Michelson e Morley, em 1887. Antes da formulação da Teoria de Relatividade, por Einstein, uma incompatibilidade entre as teorias do eletromagnetismo de Maxwell e a mecânica clássica de Newton vinha incomodando os físicos do final do século 19. Parte da questão poderia ser resolvida medindo-se a velocidade da luz para observadores com diferentes movimentos em relação à fonte emissora da luz. Segundo a teoria de Maxwell a luz é uma onda e, portanto, foi natural especular à respeito do meio por onde esta onda se propagava. Naquele época este meio foi denominado éter. Michelson e Morley construiram um instrumento composto por dois braços perpendiculares e um conjunto de espelhos destinados a medir a velocidade da luz (ou variações desta velocidade) quando viajando na direção do movimento da Terra e em uma direção perpendicular. Os dois repetiram a experiência em diversos momentos do dia e ao longo dos meses, buscando detectar o movimento da Terra em relação ao suposto éter. No entanto, apesar de terem construído um aparelho de altíssima sensibilidade, não detectaram nenhum movimento.

Este resultado negativo mostrou que a luz não necessita de um meio de propagação e que sua velocidade é a mesma para qualquer observador em movimento em relação à fonte. Esta é a base da Teoria da Relatividade.

A teoria da relatividade de Einstein, tanto a especial como a geral, é um bom exemplo de como uma teoria revolucionária é sempre recebida com ceticismo e desconfiança mesmo que apresentem boa consistência teórica. Ambas as formulações conduzem a conclusões importantes que podem ser verificadas em laboratório ou observações astronômicas, estando todas elas em conformidade com as teorias. No entanto, se uma única observação contrária às teorias for observada, elas terão que ser refeitas e substituídas por novos modelos. Como tem acontecido com a relatividade, na medida em que o tempo passa e as observações, cada vez mais precisas, são acumuladas em acordo com o modelo, cresce a confiança de que este é um modelo correto.

Newton Einstein Planck

Newton, Einstein e Planck

Isto não significa, no entanto, que se espera que um modelo aceito esteja correto para todos os domínios de verificação. Pelo contrário, é crença comum no meio científico que, para domínios de altíssimas energias (o que significa altas temperaturas ou altas velocidades), a teoria da relatividade deve ser modificada. Um exemplo histórico interessante de como uma teoria aceita e bem estabelecida não se sustenta em todos os níveis se deu com a mecânica newtoniana. Newton apresentou sua formulação da mecânica clássica através de um formalismo matemático elegante, desenvolvido por ele mesmo (simultânea e independentemente com Leibniz). Este modelo se mostrou eficiente para descrever o movimento de partículas e corpos com altíssima precisão. Seu domínio de aplicação, no entanto, é o do regime de velocidades baixas quando comparadas à velocidade da luz e energias maiores que uma certa quantidade minúscula de energia, o quantum descoberto por Planck. Quando a velocidade dos corpos envolvidos se aproximam da velocidade da luz é necessário usar a relatividade especial e quando as trocas de energias são muito pequenas se deve usar a mecânica quântica. Estas duas teorias se reduzem à mecânica newtoniana quando as escalas de velocidade e energia se reduzem à escala newtoniana (basicamente aquela observada no mundo cotidiano!).

Que benefício tiramos do desenvolvimento científico? Em uma primeira abordagem esta pergunta admite uma resposta muito simples. A descoberta de microorganismos tais como fungos, bactérias, protozoários ou vírus, e os métodos de impedir alguns de seus efeitos nocivos sobre a saúde humana por meio de antibióticos, por exemplo, tem melhorado a qualidade de vida das pessoas no planeta e extendido em muito a longevidade. As técnicas avançadas de produção de vacinas, algumas delas envolvendo a manipulação sofisticada de genes, têm salvado muitas crianças da morte prematura ou de doenças fortemente debilitantes. O uso da eletricidade para impulsionar máquinas ou para acionar equipamentos eletrônicos é outro exemplo imediato. A civilização atual colapsaria quase instantaneamente se, por qualquer motivo, não pudéssemos mais usar a eletricidade.

CERN

Em outro nível, no entanto, esta pergunta se torna mais difícil de ser respondida. A tecnologia tem tornado a vida humana de melhor qualidade, no sentido do bem estar, da felicidade e da realização pessoal? E o que pensar sobre os desafios e ameaças provocados pela própria tecnologia, tais como o aquecimento global, a poluição ou o risco do desenvolvimento de microorganismos artificiais e perigosos para a vida humana e do planeta?

Em primeiro lugar, não é possível separar a história humana do desenvolvimento da tecnologia. Desde a prehistória usamos tecnologia para cozinhar e transformar coisas não comestíveis em alimento através do fogo, para tecer, para modificar espécies vegetais e animais, para nos locomover e, principalmente, para conhecer o mundo e desenvolver a própria ciência.

Também não se pode negar que a tecnologia introduziu problemas novos, alguns muito sérios. Mas, outros caminhos seriam possíveis? O desafio moderno é gigantesco e a própria sobrevivência da espécie depende dos rumos que a sociedade decidir tomar neste momento. Infelizmente existe uma inércia muito grande imbutida na natureza humana e uma ainda maior nos organismos e instituições. Decisões que implicam em severa redução de lucros para as empresas, por exemplo, são difíceis e improváveis até que o prejuízo ambiental seja avassalador. A não linearidade da resposta da natureza pode fazer com que o desgaste só seja reconhecido quando for tarde demais. Em outras palavras pode muito bem ocorrer que o estrago neste momento já seja grande demais para que se construa um retorno indolor. Junte-se a isto o problema da enorme dificuldade que a comunidade técnico-científica tem para reconhecer que simplesmente desconhece os mecanismos de funcionamento completo de determinado sistema. Só para dar um exemplo, considere a questão climática. É amplamente reconhecido que o aquecimento global está produzindo um aumento acelerado nas diferenças entre climas quentes e frios. E, embora seja reconhecido que gradientes de temperatura (a variação entre diferentes regiões) causam os ventos é muito difícil encontrar alguém que atribua ao aquecimento o aumento dos ventos.

A noção de que podemos combater os problemas gerados simplesmente abandonando a tecnologia é, no mínimo, ingênua. Certamente necessitaremos de mais ciência e de mais tecnologia para vencer o problema da poluição, da escassez de água potável, do aumento de agrotóxicos na produção de alimentos, do perigo das armas químicas, biológicas ou nucleares, e dai por diante.

Muitas ameaças atribuídas à tecnologia não são, de fato, devidas a ela. Por exemplo, a internet é um fantástico veículo de informação, um apoio às liberdades democráticas e uma ferramenta poderosa de combate aos regimes totalitários e, eventualmente, ao fanatismo, intolerância e fundamentalismo supersticioso. No entanto ela aumenta dramaticamente a exposição das crianças e jovens à pornografia, a conteúdos impregnados de ódio e discriminação e intolerância política e religiosa. Uma vez que todos estes elementos obscuros são inerentes ao ser humano e não surgiram junto com a internet, não cabe atribuir a ela uma culpa direta por sua existência mas apenas pela facilidade de sua difusão. Quando a expressão individual é livre e as opiniões podem circular livremente deve-se esperar também a circulação de conteúdo de valor duvidoso. Esta dificuldade não pode ser resolvida através do cerceamento da liberdade de expressão ou da circulação das ideias. Pelo contrário, a ampliação da informação, o esforço pela melhoria de sua qualidade e do alcance da informação são as formas cabíveis de se atacar o problema. Por exemplo, com a liberdade de postagem de temas diversos na internet os pais não podem impedir que seus filhos tenham acesso à pornografia (se é que puderam algum dia!). Uma informação correta sobre a sexualidade, sobre as perversões e sobre os perigos envolvidos deve ser suprida, de preferência pelos pais e cuidadores mas também pela escola e por sites dedicados à difusão do estudo e do conhecimento.

Devemos acreditar na ciência? Esta pergunta não é de todo apropriada (dai a minha citação à célebre frase de L. Armstrong no início do texto). A ciência não envolve fé ou crença, exceto e possivelmente, em seus fundamentos, como discutimos abaixo. Padecemos hoje de um problema muito mais profundo, anterior e primário, principalmente em países com menor desenvolvimento sócio-econômico e este problema é a educação. O crescimento desigual do conhecimento científico e tecnológico entre as nações funciona como mero fomentador da dependência e da exploração econômica por parte dos detentores do conhecimento.

Como podemos exigir que um cidadão faça uma escolha esclarecida sobre tomar ou não uma vacina - ou aplicá-la em seus filhos - se ele não possui um mínimo de conhecimento sobre o tema?

CERN

Aceita uma dose de vacina?

O que te parece perguntar ao cidadão brasileiro médio: “Você aceita tomar uma vacina feita com material geneticamente modificado à partir de um vírus, onde a habilidade do vírus em afetar a saúde humana está desabilitada ou enfraquecida?” E ainda acrescentamos: “Não se preocupe, a vacina passou por teste de duplo cego randomizado, 350 pessoas sofreram de efeitos colaterias adversos e somente duas mortes foram verificadas em uma amostra de 5 milhões de vacinados.”

Enquanto a educação não puder dotar os cidadãos com o mínimo aceitável de conhecimento científico permanecerá a exploração e a exclusão de uma vasta maioria por alguns poucos manipuladores. A escola, é claro, deve ser a primeira frente de batalha. Este processo é lento mas é o único com solidez e sustentabilidade. Ele é lento porque a escola é uma instituição extremamente inerte e letárgica, demonstrando extrema dificuldade em assimilar as novas tecnologias. É muito difícil promover aperfeiçoamentos nas escolas principalmente porque a formação de um bom quadro de professores é demorada e cara e nunca foi uma prioridade na Brasil.

A divulgação científica, promovida por jornais, rádios e revistas e, mais recentemente, pela internet via blogs, podcasts, etc, é muito deficiente em nosso país. Dificilmente uma notícia importante em ciência de ponta pode ser compreendida, mesmo por especialistas da área, apenas com base no que divulgam os jornais. Aparentemente os setores voltados para esta atividade na mídia recebem apoio e recursos muito (mas muito) inferiores àqueles destinados ao esporte, por exemplo.

Ciência é o oposto de religião? Ciência é conhecimento e seus métodos foram desenvolvidos em acordo com uma extensa tradição de busca e investigação. Qualquer forma de se levantar o véu sobre a ignorância, desde que válida e comprovada, pode e deve ser incorporada ao método científico. Neste sentido o oposto à ciência é a ignorância. A religião apresenta inúmeras afirmações que não podem ser comprovadas cientificamente. Ela se baseia na revelação e na fé, geralmente em torno da experiência de um indivíduo que supostamente teria alcançado percepção acima daquela que a maioria das pessoas pode comprovar, ou em torno de tradições muito antigas e de origem remota ou esquecida. Estas afirmações terminam por se concretizar em livros sagrados e mitos que se transforma com o tempo em tradições. Se as afirmações deste indivíduo ou da literatura do culto não podem ser verificadas por qualquer pessoa então elas não se configuram como científicas. Observe que uma afirmação que não pode ser comprovada, nem ser provada como falsa, não tem qualquer relevância na vida das pessoas nem no entendimento que fazemos do mundo.

Michelangelo

Suponha, por exemplo, que uma determinada seita proponha a existência de um enorme bule voador sagrado que circula em torno do planeta. A primeira atitude científica a respeito seria a de tentar ver este bule, talvez com o uso de telescópios. Evidentemente este bule nunca foi observado. Segundo os seguidores da seita ele não pode ser visto porque é feito de matéria muito sutil que não reflete a luz. O segundo passo seria a tentativa de captar a influência gravitacional que ele exerce sobre outros corpos, ou o de tentar alcançá-lo com uma sonda, algo que falharia também pois, segundo a crença, o bule é intangível e não interage gravitacionalmente. Se o bule não pode ser captado de nenhuma forma então ele não representa nada para o ser humano. Postular simplesmente a existência de tal coisa é, portanto, algo desnecessário e irracional.

Se uma pessoa em estado meditativo vê o Bule Voador então ela passa a defender ardentemente a sua existência. Mas, como você pode saber se ela viu de fato o bule, se sonhou, se alucinou ou simplesmente se iludiu? Ou, o que é pior, se está tentando deliberadamente te iludir para com isto tirar vantagens de algum tipo? A história das religiões exibe todos estes tipos de engano!

Bule Voador

Existem Bules Voadores entre a Terra e Marte?

O Bule de Chá de Russell, ou Bule Celestial, foi uma criação do matemático e filósofo Bertrand Russell para exemplificar o fato de que uma hipótese não passa a ser verdadeira somente porque é difícil de ser refutada. Além disto ele enfatizou que cabe ao proponente da hipótese o ônus de prová-la. Mais tarde Richard Dawkins usou a mesma alegoria do bule celestial com o mesmo fim.

Deve-se ainda lembrar que afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias. Por exemplo, para afirmar que mecânica quântica está incorreta eu teria que apresentar uma prova contundente, por meio de um experimento ou um fortíssimo argumento teórico que justifique pelo menos a consideração de minha argumentação.

E os universos paralelos?

Suponha ainda que alguém postule a existência de um universo paralelo que não interage de modo algum com o nosso. Se ele não nos afeta não pode ser encontrado e sua existência não pode ser comprovada, nem descartada. Este universo, mesmo se existir, não é objeto de investigação científica e ... você não deve ser preocupar com ele. Mas, se alguém encontrar uma forma qualquer de interação entre os universos então ele passa a ser objeto de nossa atenção. Este é o caso de uma teoria especulativa proposta por Neil Turok.

Vamos tomar a seguir dois exemplos de teorias científicas, o modelo cosmológico padrão, usualmente chamado de Big Bang, e a Teoria da Evolução das Espécies.

Você acredita que o universo surgiu em uma grande explosão? O modelo do Big Bang, ou a Grande Explosão, é uma consequência da Teoria da Relatividade Geral de Einstein com o acréscimo de algumas pressuposições extras, como a homogeneidade e isotropia do conteúdo material do espaço. A teoria da relatividade, como já mencionamos, tem passado em todos os testes da verificação enquanto a homogeneidade e isotropia tem sido verificada com níveis crescentes de precisão. Até os pequenos desvios da homogeneidade, necessários para que as grandes estruturas universais tais como galáxias e grupos de galáxias se formassem, é observado de modo consistente com a teoria. As consequências da explosão são igualmente detectados, tais como um calor remanescente espalhado pelo céu na forma da chamada radiação de microonda de fundo.

Diversos problemas estão em aberto e sob o estudo de cientistas em todo mundo, problemas que provavelmente trarão refinamentos e acréscimos ao modelo já delineado. Embora seja possível, não se espera que este modelo seja completamente descartado e substituído por outro radicalmente diferente. Por outro lado é muito provável que o modelo seja bastante expandido com a compreensão da gravitação em níveis microscópicos e com o aprofundamento da compreensão sobre a física das partículas elementares.


Evolução

Você acredita na teoria da evolução? A teoria da evolução é o conceito de que os organismos vivos se modificaram gradualmente e que estas modificações deram origem à multiplicidade dos seres hoje existentes. As modificações ocorrem por meio de mutações genéticas e através da deriva genética, um processo de embaralhamento de genes em suas respectivas posições. Tanto as mutações quanto a deriva ocorrem de modo aleatório. Modificações bem sucedidas, que geram indivíduos mais aptos á sobrevivência, são propagadas para gerações posteriores, enquanto todas as demais alterações produzem indivíduos menos aptos que tendem a não gerar descendentes. Por meio deste mecanismo de seleção natural as espécies se modificam e se tornam mais adaptadas ao ambiente onde vivem.

A teoria da evolução não é uma hipótese desprovida de provas, como sustentam alguns. Ela é uma teoria científica comprovada por uma grande série de registros fósseis que contam a história de como a vida evoluiu desde formas primitivas e simples até a multidão de seres hoje existentes. Esta teoria, proposta por Darwin, encontra grande oposição nos meios religiosos que pretendem afirmar que o ser humano foi feito por um ato único de um ser criador. A observação dos fósseis relata uma história diferente, mostrando as etapas por quais as espécies passaram até atingir o estado presente. Não se pretende dizer que a teoria é completa ou final. Assim como ocorre na física, em todas as demais áreas da ciência o conhecimento progride de forma recorrente, aperfeiçoando e expandindo sua compreensão dos modelos.

A afirmação, mais emocional que objetiva, de que o ser humano não pode descender do macaco é descabida. De acordo com a teoria da evolução homem e macaco descendem de um ancestral comum. Aliás, uma observação muito interessante da biologia atual é a de que, dados dois seres quaisquer hoje existentes, se procurarmos em um passado suficientemente remoto encontraremos seu ancestral comum. Uma consequência evidente desta afirmação é a de que todos os seres humanos, brancos ou negros, europeus, africanos ou asiáticos, todos possuem um ancestral comum. Existem registros de diversos grupos de hominídeos espalhados pela Europa e África antigas mas apenas um pequeno grupo sobreviveu. Todos os humanos hoje existentes descendem de uma tribo surgida na África em torno de 150 a 200 mil anos atrás, o Homo Sapiens, com leves traços genéticos importados dos Neandertais através de cruzamentos entre estes dois grupos.

Devemos temer o avanço da ciência? O desenvolvimento científico e tecnológico, como é bem comprovado pela história, sempre é acompanhado por perigos e ameaças. Uma mesma tecnologia pode ser usada para o benefício social e comunitário e simultaneamente para algum fim pouco construtivo e menos nobre. Conta-se, por exemplo, que Alberto Santos Dummont teria entrado em depressão ao ver o avião ser usado para a guerra. Por este motivo é necessário que a sociedade se mantenha vigilante sempre. Existem diversos mecanismos de controle, tais como os conselhos de ética para experimentos biológicos e envolvendo o ser humano. Algumas experiências em psicologia realizadas no passado, tais como a exposição de pessoas a níveis extremos de tensão e violência, não seriam permitidas hoje. Com o avanço de novas técnicas em todas as áreas da ciência é provável que novos mecanismos de controle sejam criados. Estes mecanismos sempre devem envolver pessoas de várias áreas do conhecimento. Não se pode perguntar apenas aos biólogos se eles podem ou não clonar um ser humano, por exemplo. O interesse e a curiosidade científica, se desempedidos de compromissos sociais, certamente tenderiam a provocar absurdos como experimentações cruéis e revoltantes para com outros seres vivos ou perigosas para a comunidade. É necessário lembrar que na maioria dos casos a pesquisa é financiada com meios públicos e, mesmo que não seja este o caso, a comunidade inteira (e não apenas cientistas) deve se manisfestar.

No entanto é necessário que esta comunidade possua esclarecimento suficiente para construir suas decisões. A ignorância pode - e tem levado - ao atraso e excesso de apreensão. Um exemplo disto é o medo de que um acelerador de partículas provoque uma explosão de nível planetário durante uma de suas experiências. Outro exemplo importante é a objeção sistemática à vacinação e a pesquisa com células tronco. Este é mais um motivo importante para o aprimoramento da educação.

Quimica

Existe uma crença difusa e muito arraigada, causadora de pânico, de que o ser humano não deveria alterar “o estado natural das coisas”. A expressão “produtos químicos” está vinculada à sensação de perigo, em um flagrante esquecimento de que tudo o que nos rodeia é composto por produtos químicos e a química é a base de nossa própria vida. Nos tempos modernos não poderíamos viver sem manipulações químicas artificiais (que não ocorrem espontaneamente na natureza). Na área da biologia lidamos diariamente com organismos modificados, tais como as rosas de muitas pétalas, os cachorros especializados em raças criadas artificialmente, gado resultante de inseminação artificial, vacinas produzidas pela manipulação genética do vírus que se quer combater, e muitos outros. Na física usamos nos bolsos telefones e outras maravilhas eletrônicas dentro das quais os eletrons atravessam barreiras proibidas pela mecânica clássica (o chamado tunelamento quântico), onde fotos são obtidas através do efeito fotoelétrico e armazenadas magneticamente em componentes miniaturizados, nenhum deles existentes “in natura”.

Esta defesa da técnica não implica em relaxamento da vigilância. Existe hoje um grande receio de que as ondas eletromagnéticas geradas por antenas e aparelhos celulares possam produzir danos à saúde. Até hoje não foi possível demostrar uma correlação direta entre o uso destes aparelhos e qualquer problema de saúde mas isto não exclui a possibilidade de que estes problemas existam. É necessário, portanto, que se mantenha a pesquisa e a observação. Infelizmente, e me parece natural que isto ocorra, muitas vezes um efeito danoso só é descoberto após algum tempo de uso da tecnologia. Coisa parecida ocorreu no uso de chumbo em tintas aplicadas nas casas (que contamina principalmente as crianças) e nas primeiras manipulações com produtos radioativos. Muitos dos pesquisadores iniciais na área morreram devido à super exposição à radioatividade. O uso do gás CFC (clorofluorcarbono) em aparelhos refrigeradores mostrou, com o tempo, ser uma solução inviável devido à agressão à camada de ozônio na atmosfera terrestre. A solução para o problema é progredir com cautela e estar atento aos efeitos colaterias envolvidos em novas técnicas.

O uso da ciência, particularmente aplicado à área da saúde, tem facilitado a reprodução de casais com problemas de fertilidade, melhorado consideravelmente a qualidade de vida e aumentado a longevidade humana. Este é um aspecto relevante e difícil de ser rebatido. Talvez você não tenha tido a oportunidade de avaliar a importância da reprodução humana assistida mas certamente o fará se você mesmo ou pessoa próxima necessitar do uso desta tecnologia. E, quem se recusará a fazer uma radiografia, uma tomografia ou qualquer outro exame sofisticado se sua saúde assim o exigir? Quantas pessoas, desde que possuam acesso a um tratamento médico adequado, se recusam a receber medicamentos para a diabetes, hipertensão arterial, doenças infecciosas e tantas outras agressões externas ou inerentes ao corpo, na tentativa de prolongar ou simplesmente manter uma boa qualidade de vida?

A ciência pode nos explicar qual é o propósito da vida? Esta é uma pergunta delicada e envolve muitos aspectos interessantes. Provavelmente este tema não é, nos estágios em que a ciência se encontra hoje, um de seus objetos de estudo, no sentido já explicado. Talvez nunca venha a ser. A ciência é o estudo da natureza e seu funcionamento e o conceito de propósito ou meta para a vida é a formulação de um anseio humano, um desejo de continuidade e a busca de um sentido que pode não ser inerente à natureza.

Evolução ...

No entanto é possível propor, à partir do que temos observado na história da ciência, uma sugestão interessante. Jovens e adultos parecem padecer, nos dias atuais, de uma grande desmotivação, uma ausência de propósito em suas vidas pessoais, o que se reflete no coletivo sob a forma de alienação social e sentimento de inadaptação em frente à uma sociedade complexa. Por isso se apegam à ideologias pouco construtivas ou se agrupam em torno de temas irrelevantes. As causas deste problema são um debate em si, mas envolvem a situação político-econômica moderna, as deficiências na educação, entre outros fatores.

Enquanto gerações inteiras desperdiçam seu tempo e energia, vivemos um momento privilegiado na história do conhecimento. Podemos hoje oferecer uma história consistente da formação do universo, não mitológica mas baseada em verificação objetiva, da formação dos elementos químicos, das estruturas cósmicas como os aglomerados galáticos, as próprias galáxias e sistemas planetários. Podemos reconstruir a aventura do surgimento da vida e sua evolução até os estágios elaborados em que se acha no presente. Conhecemos hoje o funcionamento do cérebro, a forma como suas partes de especializam para tarefas específicas e eventualmente seremos capazes de apresentar uma descrição sólida do surgimento e funcionamento da consciência. Além dos aspectos teóricos a ciência aplicada á tecnologia tem tornado disponíveis aparelhos úteis ou simplesmente divertidos e o avanço desta sofisticação é vertiginoso. Acompanhar a evolução da ciência pode se tornar uma aventura interessante e proveitosa. É como se você tivesse à sua disposição um livro de aventuras, ou um filme, repleto de novidades e surpresas a cada instantes e que, para o seu deleite, não termina nunca!

É verdade que a ciência está baseada sobre pressupostos não verificados? Surpreendentemente a reposta para esta pergunta é afirmativa. Considerações sobre os fundamentos de qualquer ciência, ou da ciência como um todo, são sempre difíceis e delicados. Historicamente a ciência necessitou expurgar a crença de que entidades supernaturais — como deuses, por exemplo — possam interferir arbitrariamente no funcionamento das coisas. A lei da gravitação universal jamais seria descoberta se os astrônomos que mediam a posição dos planetas e os físicos e matemáticos que buscaram ajustar estes dados a uma formulação teórica levassem em conta a interferência arbitrária de deuses que estivessem movendo os planetas à vontade.

Universo

Buscando por Deus

A maioria dos pensadores que contribuiram para a descoberta da lei da gravitação universal, Kepler, Copérnico e Newton por exemplo, buscava encontrar leis e regularidades no universo exatamente para provar a existência da interferência divina. A princípio se acreditava que deus, ou anjos sob sua ordem, movimentasse os planetas ou alterasse suas órbitas. Aos poucos o mecanismo de funcionamento do movimento planetário foi sendo esclarecido e a explicação supernatural foi empurrada para níveis mais abstratos ou primários. O fato de que tal interferência nunca foi encontrada levou ao abandono desta crença. A nova atitude culminou com a resposta de Laplace quando Napoleão o questionou sobre não ter encontrado nenhuma referência a deus em seu livro sobre a formação do sistema solar. Laplace teria respondido: “Não precisei desta hipótese, senhor!”

A ciência, no entanto, repousa sobre a crença de que o universo pode ser compreendido pela mente humana, de que as leis da natureza são universais e funcionam em todas as partes do universo e em todos os tempos. A estabilidade e permanência da lei é um pressuposto básico: seria impossível fazer ciência em um mundo inconsistente onde fenômenos ocorressem de forma diferente e aleatória a cada instante em que se fizesse um experimento. Da mesma forma saberíamos muito pouco sobre o universo se as leis que funcionam na Terra não fossem as mesmas que atuam no Sol, nas estrelas ou em galáxias distantes. Não sabemos se existem regiões do universo onde leis diferentes se aplicam, nem se estas leis vão se alterar completamente quando a partir de determinado instante no tempo. E não podemos agir como se assim fosse até que alguma evidência muito séria mostre ser este o caso.

Universo

Uma física na terra, outra no céu?

No início da construção do pensamento científico, desde pensadores gregos até a Idade Média, se acreditava que as leis terrenas não se aplicavam aos objetos celestes, incorruptíveis e divinos. Este foi um dos motivos pelos quais Galileu teve dificuldades com a igreja quando revelou a existência de manchas no sol, vistas através do telescópio por ele construído. Um passo importante para a compreensão de que as leis meteorológicas (relativas aos objetos celestes) são as mesmas leis que regem objetos terrenos foi dado por Newton, ao anunciar a lei da gravitação universal. Embora isto esteja longe de ser óbvio, a atração que a Terra exerce sobre uma maçã que cai e sobre a Lua é a mesma força, embora seu efeito nos dois casos seja aparentemente diferente. Na visão moderna a mesma física que descreve fenômenos na terra descreve também o que ocorre dentro do Sol ou de duas galáxias distantes em colisão. Desta forma foi possível encontrar o elemento químico hélio, previsto teoricamente, no sol antes mesmo que fosse encontrado na Terra.

A noção de que a natureza pode ser compreendida racionalmente está de perto vinculada à de que é possível fazer uma descrição matemática do cosmos e de suas partes. Esta é uma das heranças da cultura da Grécia Clássica, particularmente do pensamento pitagórico. O número está por trás de todas as coisas e, se uma equação ou lei matemática falhar na explicação de um fato certamente deverá haverá outra mais exata para substituir a equação defeituosa! A experiência histórica tem mostrado, até agora, que este é um fundamento sólido. Com base nesta noção geral uma área qualquer da ciência, mesmo que fundada sobre o pensamento lógico e a experimentação, será considerada deficiente se não puder ser expressa matematicamente.

Occam

Finalmente devemos nos lembrar de um princípio conhecido como “a navalha de Occam” que, de certa forma, orienta o esforço científico. Segundo William de Occam, teólogo e lógico inglês do século 14, não se deve incluir um número maior que o necessário de hipóteses para a explicar um determinado fenômeno ou acontecimento. “Não se deve multiplicar o número de entidades além do necessário”, “pois coisa alguma deve ser proposta sem um motivo, exceto se for algo evidente ou conhecido pela experimentação...” Para Occam a única entidade realmente necessária seria Deus. No entanto o princípio teve um papel diferente na história do pensamento, exatamente no expurgo de entidades metafísicas. Uma leitura moderna da navalha de Occam seria a de que qualquer teoria deve ser composta pelo menor número possível de variáveis, causas ou fatores. De certa forma isto conduz à afirmação de que o Universo é simples, de preferência à complexo, e sua “simplicidade” é um dos embasamentos para a crença de podemos compreendê-lo com o nosso intelecto. A explicação religiosa para a origem do Universo e dos seres falha, segundo este crivo, porque para explicar o desconhecido insere uma entidade muito mais complexa e ainda mais desconhecida, representada pelo conceito de Deus. Este princípio do minimalismo e simplicidade é coerente com a expectativa de que as leis universais são regulares e sistemáticas, pois um universo caótico onde as leis podem se alterar no tempo e variar segundo a localização no espaço é, além de incompreensível, muito mais complexo.

Então, que atitude tomar em relação à ciência? O grande volume de conhecimento hoje acumulado e produzido constantemente torna impossível que uma pessoa seja um especialista em áreas diversas do conhecimento humano. Dai surge a necessidade de que os jovens passem uma parte cada vez maior de suas vidas no processo de aprendizagem, nos bancos das escolas, e que necessariamente se dediquem a uma especialização. O grande desafio da educação para o século 21, além de se encontrar políticas públicas adequadas, está em tornar a escola atrativa para a mente moderna das crianças (que é diferente da mentalidade do século passado!), estimular o estudante a se envolver em níveis além do básico e, possivelmente, em níveis avançados do conhecimento e da pesquisa. Além da formação de pessoas com alto nível de especialização também é necessário difundir em nível geral a ciência para o cidadão comum, não técnico. Uma pessoa altamente qualificada em determinada área não pode ignorar completamente as demais áreas além de sua especialidade, e isto se torna mais verdadeiro para os níveis fundamentais do conhecimento científico. Caso contrário o cidadão não especialista tenderá a usar a técnica como uma caixa preta ou um instrumento mágico, se tornando dependente daquele que domina a tecnologia. Além de não compreender minimamente o mundo onde vive ele não poderá tomar decisões nem contribuir para um apropriado progresso da sociedade.

Este esforço pode se concretizar através da educação continuada tanto de professores quanto de outros profissionais, cursos que poderão e deverão fazer uso da tecnologia para seu barateamento e generalização de seu alcance. Um esforço adicional deve ser realizado pelos orgãos de comunicação, provendo a informação sobre o conhecimento científico de bom nível para a sua clientela. O estabelecimento de uma imprensa de divulgação científica pode colaborar neste porcesso.

Porque a imprensa divulga tantas tolices e superstições? A imprensa brasileira (e em diversas outras partes do mundo), quando apresenta reportagens sobre avanços e novidades científicas, difunde conceitos científicos e matemáticos distorcidos e obscuros, quando não totalmente falsos. Provavelmente a causa primária deste comportamento se deve à mera intenção de vender jornal e revista, ou espaço em programas de rádio e televisão explorando, por exemplo, fenômenos paranormais, avistamentos de OVNIs, animais supernaturais, medicamentos mágicos e outras superstições. A ignorância do próprio jornalista sobre temas técnicos é também um motivo para esta prática. Esta mídia oportunista é a mesma que explora à exaustão eventos reais que causam grande comoção pública, dotando-os de uma importância manipulada e artificial, enquanto se calam sobre temas de importância muito superior mas com menor capacidade de repercussão. Esta é uma forma de desinformar ou de manter a ignorância.

Uma característica deste procedimento é a falta de acompanhamento de uma informação. Por exemplo, um jornal pode noticiar com grande ênfase o avistamento de um objeto voador não identificado e não noticiar, ou dar ênfase muito menor para, a informação de que o objeto se tratava de um balão meteorológico ou do reflexo luminoso de um planeta. No Brasil (e no mundo) se deu grande espaço para a divulgação do suposto paranormal Uri Geller mas pouquíssimo foi dito sobre ele ter sido desmascarado como um falsário. Não é surpresa que os mágicos profissionais, hábeis no ato de iludir, são os primeiros a compreender este tipo de farsa. É improvável que um jornal regular não especializado em ciência ou ceticismo divulgue a informação de que não existe nem um único fenômeno paranormal verificado, que tenha passado pelo crivo de examinadores independentes. Quantas pessoas sabem que a fundação James Randi, nos Estados Unidos, oferece a quantia de 1 milhão de dólares para a apresentação comprovada de um único efeito mágico ou paranormal e que, até agora, apesar de algumas tentativas, ninguém conseguiu reclamar o prêmio?

O conhecimento é necessário para uma correta tomada de decisões. Uma compreensão básica da matemática e da estatística podem evitar que você seja enganado na escolha de um plano de seguros ou em uma compra financiada com longo prazo de pagamento.

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Quer ganhar na loteria?

A Megasena é uma loteria brasileira que sorteia seis números, escolhidos no intervalo de 1 até 60. Você paga R$ 2,00 por um bilhete com a escolha mínima de seis números. Você compraria o bilhete com a seguinte escolha: 1, 2, 3, 4, 5 e 6? Se você disse NÃO, saiba que esta escolha é tão provável quanto qualquer outra. É por isto que quem conhece a teoria da probabilidade não joga na loteria (ou joga como uma brincadeira, sem esperanças de ser vencedor!) Curiosamente as pessoas reclamam por pagarem impostos altos mas cedem voluntariamente mais da metade da quantia obtida nas loterias para o governo.

Algumas pessoas argumentam que alguém tem que ganhar (e ganha de fato) no sorteio lotérico. O senso comum é notoriamente incapaz de lidar com problemas que envolvem estatística. Em outras palavras, o comportamento estatístico de qualquer sistema razoavelmente complicado é altamente não intuitivo. Considere o experimento: pesquise até encontrar uma pessoa que foi atingida por um raio e permaneceu viva e em bom estado de saúde. Pergunte a ela: “porque o raio foi cair logo em você?” Acredito que qualquer pessoa compreenderá o absurdo da pergunta. Talvez seja mais difícil para o próprio atingido avaliar com imparcialidade a situação. Dada a dificuldade de entender o problema é provável que o “felizardo” atribua a deus o fato de ter sido salvo (ignorando que deus escolheu antes a sua cabeça para jogar o raio!)

Portanto, o jeito garantido de ganhar na loteria é: não aposte, economize o seu dinheiro!


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Sobre o autor ...

Guilherme Santos Silva

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