Você está aqui: Matemática > Equações Diferenciais Ordinárias > Apêndice 1: Revisão de Tópicos Úteis.
Formato Livro
08/04/2011
Equações Diferenciais Ordinárias
8: Apêndice 1: Revisão de Tópicos Úteis

A.1: Logaritmo e Exponencial

As funções exponencial e logaritmo são utilizadas com frequência na solução de equações diferenciais. Elas podem ser definidas de várias formas. Por exemplo, o logaritmo neperiano (de base e) é a área sob o gráfico da função 1/x de x' = 1 até x, ou seja

lnx=1x dx'x'.

Observamos desta definição que ln 1 = 0, que o logaritmo é uma função estritamente crescente e não está definida em x = 0. A função exponencial, exp(x) = ex, é a inversa do logaritmo, ou seja,

lnx=yey=x.

Podemos usar as propriedades da exponencial para nos lembrar de algumas propriedades do logaritmo: observando que as seguintes igualdades são equivalentes

y=lnxney=xn,

tomamos a raiz enésima dos dois lados x=ey/nyn=lnx   ou ainda,   y=nlnx. Portanto

lnxn=nlnx.

Além disto, se

lnx+lny=z

então

ez=elnx+lny=elnxelny=xyz=ln (xy)

e, portanto

ln (xy)=lnx+lny.

Observe ainda que

lnx-lny=lnx+lny-1=ln (xy).

A partir da exponencial definimos as funções seno hiperbólico e cosseno hiperbólico da seguinte forma

senhx=12 (ex-e-x ), coshx=12 (ex+e-x ), tanhx=senhxcoshx.

Observe que senhx é uma função ímpar enquanto coshx é par.

Exercício: Mostre que valem as seguintes relações:

ddxsenhx=coshx, ddxcoshx=senhx, cosh2x-senh2x=1.

A fórmula de Euler, que usaremos com frequência ao longo do texto, pode ser justificada da seguinte maneira: partimos da expansão de Taylor para as funções exponencial, seno e cosseno, válidas para todo x real:

ex= n=0xnn!=1+x+x22!+x33!+ cosx= n=0 (-1)nx2n (2n)!=1-x22!+x44!+ senx= n=0 (-1)nx2n+1 (2n+1)!=x-x33!+x55!+.

Em seguida fazemos x = iθ na expansão da exponencial, para obter

eiθ= 1+iθ+ (iθ)22!+ (iθ)33!+ (iθ)44!+ (iθ)55!+ (iθ)66!+ =1+iθ-θ22!-iθ33!+θ44!+iθ55!-θ66!+.

onde usamos o fato de que i2=-1, i3=-i, etc. Agrupando os termos reais e imaginários temos

eiθ=1-θ22!+θ44!-iθ66!++i (θ-θ33!+θ55!+ ),

ou seja,

eiθ=cosθ+isenθ.

Desta forma podemos definir a função exponencial de um número complexo qualquer, z = x + iy φ como

ez=ex+iy =exeiy =ex(cosy +iseny ).

A.2: Técnicas de Integração

Dizemos que F(x) é uma primitiva de f(x) se

dF (x)dx=f(x).

A diferencial da função F é definida como

dF (x)=f(x)dx.

Se F é primitiva de f definimos a integral de f(x) como

f(x)dx=F (x)+c

onde c é uma constante qualquer. Esta constante, a chamada constante de integração, é essencial na solução de equações diferenciais. Observe que, se F(x) é uma primitiva, F(x) + c também é. Algumas integrais mais simples podem ser calculadas por simples inspecção, se conhecemos uma primitiva do integrando.

Por exemplo

cosxdx=senx+c porqueddxsenx=cosx.

Outros exemplos

dxx=lnx+c, exdx=ex+c, xndx=xn+1n+1+c .

Mudança de Variáveis: Algumas vezes uma integral pode ser colocada sob a forma de uma integral conhecida ou tabelada através de uma substituição de variáveis. Por exemplo, para calcular a integral

I1=sen (2x+1)dx

fazemos a substituição u=2x+1. A diferencial de u é du=2dx. Resolvemos a integral em termos da variável u e, em seguida, reinserimos a variável inicial x,

I1=12senudu=-12cosu+c=-12cos (2x+1)+c.

Como outro exemplo, calculamos a integral

I2=xe-x2dx,

através da troca de variável, u=-x2, portanto du=-2xdx. Escrevendo a integral em termos da nova variável temos

I2=-12eudu=-12eu+c=-12e-x2+c.

Outro exemplo:

I3=1x-1dx.

Faça u=x-1,du=dx. A integral é

I3=1udu=lnu+c=ln (x-1)+c.

Integração por partes: Se u(x) e v(x) são funções deriváveis então vale a relação

udv=uv-vdu.

Para compreender esta expressão basta integrar a diferencial de

d(uv)=udv+vdu.

Vamos usar esta relação para calcular a seguinte integral

I4=xe-2xdx.

Identificando u e v da seguinte forma,

u=xdu =dx;dv= e-2xdxv=e-2xdx=-e-2x2,

temos

I4=-12xe-2x+12e-2xdx=-12 (x+12 )e-2x+c.

Outro exemplo: para calcular

I5=e2xsenxdx.

identificamos agora as funções

u=e2x du=2e2xdx, dv=senxdx v=-cosx.

Usando a fórmula para a integração por partes temos

I5=-e2xcosx+2e2xcosxdx,

onde trataremos a integral, mais uma vez, por partes, fazendo

u=e2x du=2e2xdx, dv=cosxdx v=senx.

Agora temos

I5=-e2x cosx+2e2x senx-4e2x senxdx ,

ou, observando que a última integral é exatamente a integral que procuramos resolver,

I5=-e2xcosx+2e2xsenx-4I5.

Isto nos permite concluir que

I5=15 (2senx-cosx )e2x+c.

Frações Parciais: A técnica de frações parciais pode ser bastante útil em várias situações. Ela consiste em modificar o integrando, quando possível, para reescrevê-lo sob a forma de uma soma de frações mais simples de serem integradas. Por exemplo, vamos calcular a integral

I6=dxx2-1.

Reescrevemos o integrando como a soma de duas frações

1x2-1=1 (x+1) (x-1)=A (x+1)+B (x-1),

onde A e B são constantes a serem determinadas. Para encontrar estas constantes somamos os dois últimos termos e comparamos o resultado com a fração original

A (x-1)+B (x+1) (x+1) (x-1)= (A+B)x+B-Ax2-1=1x2-1,

igualdade que só pode ser obtida se

{ A+B =0 B-A =1 A=-12,B=12.

Portanto o integrando é

1x2-1=-121 (x+1)+121 (x-1)

e a integral procurada é

I6=-12dx (x+1)+12dx (x-1)=-12ln (x+1)+12ln (x-1)+c,

ou, usando as propriedades do logaritmo,

I6=12ln (x-1x+1 )+c.

A integral definida: se F(x) é uma primitiva qualquer de f(x) então a integral definida de f no intervalo [a , b]   é

abf(x)dx= F(x) |ab=F(b)-F(a).

Mostraremos um exemplo de integral definida realizada por substituição de variável,

I7=12xe1-x2dx.

A substituição de variável agora envolve também a alteração dos limites de integração:

u=1-x2, du=-2xdx x=1u=0, x=2u=-3.

A integral então se torna

I7=-120-3eudu=12-30eudu=12 eu|-30=12 (1-1e3 ).

A.3: Sequências e Séries Infinitas

A.3.1: Sequências Infinitas

Definiremos uma sequência infinita como um conjunto infinito de números que podem ser colocados em uma relação biunívoca com o conjunto dos números inteiros positivos. Denotaremos por {an } a uma sequência, sendo que an, com n=1,2,... são os elementos individuais desta sequência.

Exemplo 1. {an } é a sequência com termo genérico an=1/n. Neste caso

{an }={1,12,13, }.

Definição: Dizemos que a sequência converge para um número L, ou tem limite L, se, dado qualquer número ε>0 existe um número N tal que

n>N |an-L |<ε.

Usaremos como notação

L=limnan ,ouanL.

Observe que, se |an-L |<ε então

-ε<an-L<εL-ε<an<L+ε.

Portanto, dizer que uma sequência converge para L significa dizer que an fica arbitrariamente próximo de L tomando-se n suficientemente grande. Se uma sequência não converge para nenhum número dizemos que ela diverge.

Exemplo 2. A sequência do exemplo 1, an=1/n converge para L=0.

Exemplo 3. A seguinte sequência converge para L=2/3

an=2n2+n-13n2-n.

Para ver isto dividimos o numerador e o denominador por n2,

L=limn2n2+n-13n2-n=limn2+1/n-1/n23-1/n=23,

onde usamos o fato de que 1/n0 e 1/n20.

A.3.2: Séries Infinitas

Definiremos uma série infinita como a soma dos elementos de uma sequência {an }. Denotaremos esta série por

S=n=1an=a1+a2+a3+.

A soma de infinitos termos não tem um significado óbvio e imediato. Para atribuir a ela um sentido inequívoco definiremos antes a soma dos N primeiros termos da série, denominada a soma reduzida,

SN=n=1Nan.

Observe agora que o conjunto destas somas reduzidas forma uma sequência {Sn }

S1,S2,S3,,

que pode convergir ou não. Dizemos que a série infinita converge para um número L se a sequência {Sn } converge para L, ou seja

SnLn=1an=L.

Caso contrário a série diverge e denotamos

n=1an= oun=1an=-,

conforme o caso.

Exemplo 4. Um exemplo interesssante de uma série convergente é o seguinte:

n=01n!=1+1+12!+13!+=e,

onde, por convenção, fazemos 0!=1. Este é um caso particular da série mais geral

n=0xnn!=1+x+x22!+x33!+=ex.

No último exemplo a função exponencial foi escrita como uma soma infinita de termos em potências de x. As séries de potências são particularmente importantes no estudo das equações diferenciais e são o motivo pelo qual revisamos aqui este tema. Voltaremos a elas em breve.

A.3.3: Testes de convergência

Os seguintes testes são os mais utilizados para a verificação de convergencia de uma série.

Teste da Comparação: Se duas séries Σan e Σbn são séries de termos não negativos (i.e. an0 e bn0 para todo n) e an bn para todo n, então

(i) seΣbnconverge Σanconverge
(ii) seΣandiverge Σbndiverge.

Teste da Razão: Se Σan é uma séries de termos positivos, definimos o limite

R=limnan+1an.

Então, se

R<1 Σan converge R>1 Σan diverge R=1, o teste é inconclusivo.

Teste da Integral: Se f(x) é uma função positiva não crescente para x>0, então a série Σf(n) converge se, e somente se, a integral imprópria 1f(x)dx converge. Além disto vale a desigualdade

n=2Nf(n)1Nf(x)dxn=1N-1f(n).

Exemplo 5. Usamos o teste da razão para testar a convergência da série

n=1n2n!.

Temos, neste caso,

an=n2n!,an+1= (n+1)2(n+1)!

Calculamos o limite

R=limn (n+1)2(n+1)!n!n2=limn1n+1 (n+1n )2=limnn+1n2=0.

Como R<1 concluimos que a série converge.

A.3.4: Séries de Maclaurin e de Taylor

Uma função que pode ser expressa em termos de uma série infinita de potências em torno do ponto x=x0,

f(x)=a0+a1 (x-x0 )+a2 (x-x0 )2+=n=0an (x-x0 )n (1)

é dita uma função analítica (neste ponto). Os coeficientes an podem ser obtidos do seguinte modo. Calcule o valor de f e suas derivadas no ponto x0.

f(x0)=a0,
f'(x)=a1+2a2 (x-x0 )+3(x-x0 )2+=n=1nan (x-x0 )n-1,
f'(x0)=a1,
f''(x)=2a2+2.3a3 (x-x0 )+=n=2n (n-1)an (x-x0 )n-2,
f''(x0)=2a2a2=12f''(x0),
f(3)(x)=2.3a3 (x-x0 )+=n=3n (n-1) (n-2)an (x-x0 )n-3,
f(3)(x)=2.3a3a3=16f(3)(x0).

Continuando este procedimento podemos calcular qualquer um dos coeficientes da série 1, obtendo

an=1n!f(n)(x0).

Com estes coeficientes a série é a chamada série de Taylor,

f(x)=n=01n!f(n)(x0) (x-x0 )n (2)

onde f(n)(x0) indica a derivada n-ésima calculada no ponto x = x0. Uma série de Maclaurin é uma série de Taylor que descreve o comportamento de uma função em torno do ponto x0=0.

Resumindo: Sobre a série de potências

S=n=0an (x-x0 )n

podemos coletar as seguintes propriedades:

(i) S converge (escolhido um valor para x) se existe o limite

limNn=0Nan (x-x0 )n.

(ii) Se a série converge absolutamente, ou seja, existe o limite

limNn=0N |an(x-x0 )n|,

então ela converge.

(iii) Teste da razão: Definindo

R=limn |an+1 (x-x0 )n+1an (x-x0 )n|= |x-x0 |limn |an+1an |

então a série é absolutamente convergente no ponto x se R < 1 e é divergente se R > 1. O teste é inconclusivo se R = 1.

(iv) Se a série S converge em x = a então ela converge absolutamente para x no intervalo [x - a, x+a]. Se a série S diverge em x = a então ela diverge para x fora deste intervalo.

(v) O intervalo máximo de valores de x para os quais a série converge absolutamente é chamado o intervalo de convergência. O raio de convergência é ρ é definido de forma que [x0− ρ , x0] é este intervalo.

Algumas considerações finais sobre o uso do sinal de somatório podem ser úteis. O índice usado pode ser substituído de acordo com as conveniências

i=1Nai=j=1Naj,

e as parcelas da soma podem ser agrupadas ou isoladas, como no exemplo a seguir:

i=1Nai=i=1N-1ai+aN=a1+i=2Nai,
i=1Nai=i=1Pai+i=P+1Nai,1<P<N.

Pode ser mostrado por indução que

i=1N (ai+bi )=i=1Nai+i=1Nbi,
i=1Nkai=ki=1Nai,kR.

Se ai=a, uma constante, então

i=1Nai=i=1Na=Na.

Uma série de potências, se convergente, pode ser derivada termo a termo e a derivada obtida desta forma será uma representação fiel da derivada da função que ela representa:

y(x )=n=0anxn=a0+a1x+a2x2++arxr+,
y' (x)=n=1nanxn-1=a1+2a2x++rarxr-1+,
y'' (x)=n=2n (n-1)anxn-2=2a2x++r (r-1)arxr-2+.

Na solução de equações diferenciais usando o método de séries de potências será útil alterar o índice para iniciar o somatório em valores diversos de n. Por exemplo, podemos querer escrever a última série começando em n=0. Para fazer isto redefinimos o índice

m=n-2n=m+2.

A derivada segunda será escrita como

y'' (x)=m=0 (m+2) (m+1)am+2xm=n=0 (n+2) (n+1)an+2xn,

onde, no último sinal de soma restauramos o índice mudo n.

A.4: Algumas Fórmulas úteis

(1) Veja, por exemplo, Spiegel, Murray R.: Fórmulas Matemáticas, Coleção Schaum.

Para o estudo e trabalho com a matemática, ou outra ciência exata qualquer, sempre é útil ter à disposição um bom resumo de fórmulas e propriedades matemáticas(1).

As seguintes fórmulas de uso mais frequente neste texto estão listadas abaixo para facilitar uma consulta rápida.

Asenλx+Bcosλx=Csen (λx+δ) onde C=A2+B2 e δ=arctan (BA)
sen(x±y )=senxcosy±cosxseny cos2x=cos2x-sen2x
cos(x±y)=cosxcoxy±senxseny sen2x=12(1-cos2x)
sen2x=2senxcosx cos2x=12(1+cos2x)
senx+seny=2sen (x+y2 )cos (x-y2 ) senxseny=12{cos(x-y)-cos(x+y)}
senx-seny=2cos (x+y2 )sen (x-y2 ) cosxcosy=12{cos(x-y)+cos(x+y)}
cosx+cosy=2cos (x+y2 )cos (x-y2 ) senxcosy=12{sen(x-y)+sen(x+y)}
cosx-cosy=2sen (x+y2 )sen (x-y2 )
ex=yx=lny lnxy=lnx+lny
ax=exlna ln(xy )=lnx-lny
eiθ=cosθ+isenθ lnxr=rlnx
senhx=12(ex-e-x) ddxsenhx=coshx
senhx=12(ex-e-x) ddxcoshx=senhx
cosh2x-senh2x=1

Alguns desenvolvimentos de Taylor:

(1+x)-1=1-x+x2-x3+x4- =n=0(-1)nxn,-1<x<1.
(1-x)-1=1+x+x2+x3+x4+ =n=0xn, -1<x<1.
ex=1+x+x22!+x33!+x44!+ =n=0xnn!,-<x<.

Leia no site: | Devemos Acreditar na Ciência? | Hipótese, Modelo e Teoria em Física | Cosmologia - Estrutura do Universo | História da Pessoa com Deficiência |