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George Price e o Altruísmo Biológico

20/01/2012

Guilherme Santos Silva

O que você faria se, como pesquisador, concluísse que o altruísmo puro e desinteressado não existe embora, por motivo de fé acreditasse e defendesse que ele existe? Até que ponto você levaria seu esforço para ser generoso, mesmo que isto significasse a sua própria derrocada?

Muitas vezes na história da ciência um colaborador não recebe o crédito e o reconhecimento merecido. Foi o que ocorreu com o cientista americano George Price. Price foi uma pessoa interessante e controversa, até hoje pouco conhecida do público em geral. Nascido em 6 de outubro de 1922, se formou em química e trabalhou em áreas diversas, passando pelo Projeto Manhattan, depois pela Bell Labs. Mais tarde trabalhou na IBM onde foi um dos precursores no desenvolvimento de sistemas CAD (computer aided design). Price também contribuiu para o jornalismo científico escrevendo diversos artigos, entre os quais alguns em que atacava a pesquisa em paranormalidade, em voga na época, com sendo pseudocientífica. Em torno de 1966 ele foi diagnosticado com câncer na tireoide e passou por uma cirurgia que o deixou com o ombro esquerdo parcialmente paralisado e dependente de medicamentos. Price então se mudou para Londres e se envolveu no estudo da genética tentando resolver um problema importante da biologia evolucionária, com consequências importantes para a compreensão do comportamento dos animais e do ser humano. Por que organismos se sacrificam para o benefício de outros organismos?

Anteriormente à descoberta do câncer e a consequente cirurgia Price sempre fora uma pessoa cética, ateu convicto e pouco sensível para com familiares, abandonando esposa e filhas e sua mãe já idosa. Mais tarde, principalmente afetado pela doença e a depressão causada pela tireoide debilitada, ele se converteu ao cristianismo e se dedicou inteiramente a demostrar, por meio do exemplo pessoal, que o altruísmo é possível. De completo cético ele assumiu uma atitude radical fazendo aquilo que acreditava ser a vontade de Deus e supondo que este o proveria com os hormônios necessários. Sua postura de altruísmo radical o levou à pobreza completa com o recrudescimento de sua doença. Price se suicidou em 6 de janeiro de 1975, totalmente pobre e tomado pela depressão.

Altruísmo biológico

Para compreender o problema que atormentava George Price é necessário saber o que se entende por altruísmo em biologia. O altruísmo ocorre quando qualquer organismo atua de forma a beneficiar outro organismo no que diz respeito à sua saúde ou possibilidade de sobrevivência, em prejuízo para seu próprio bem-estar. Não é necessário que exista intenção, consciente ou não. O altruísmo psicológico, por sua vez, é algo bastante diferente, sendo uma ação que necessariamente envolve intenção. Apesar de serem conceitos diversos é cabível discutir se existe conexão entre as duas formas de desprendimento. O cérebro humano, assim como todo o resto de nosso corpo, é o resultado da evolução e da seleção natural. Grande parte de nosso comportamento, atitudes e reações, mesmo aquelas que julgamos serem puramente culturais, são na verdade derivadas de propriedades adquiridas e inseridas ao longo de eras evolutivas em nossas características genéticas.

Pelo processo da seleção natural, organismos com maior habilidade de sobrevivência, por serem mais eficientes na obtenção dos recursos de que necessita, são os mais aptos a sobreviverem. Características biológicas eficientes para a preservação da espécie são exatamente as que tornam um indivíduo saudável e apto para a reprodução. Estas propriedades são passadas adiante para a prole do indivíduo bem sucedido, enquanto características debilitantes acabam por produzir a morte do indivíduo ou diminuição de sua capacidade reprodutora. Isto não só seleciona indivíduos dentre os de uma mesma espécie com também estabelece níveis hierárquicos entre espécies diversas. O mecanismo básico de seleção se dá por meio da lei da "sobrevivência do mais apto", uma competição muitas vezes feroz que separa a eficiência da ineficiência.

Apesar da competição predominante na natureza também são observados atos de altruísmo, de auto-sacrifício de indivíduos ou grupos em relação a outros. Muitos exemplos de altruísmo podem ser observados na natureza: alguns pássaros aceitam chocar ovos que não os seus próprios e indivíduos estéreis ajudam na criação dos filhotes (como ocorre entre abelhas e formigas), abelhas se matam ao ferroar um inimigo para proteger a colônia e pássaros ariscam a própria vida para avisar o bando da aproximação de um falcão. Um caso extremo ocorre com a aranha Stegodyphus cujos filhotes recém nascidos devoram a mãe como estratégia de sobrevivência.

Os atos mais comuns e extremos de altruísmo animal são realizados pelos pais, especialmente mães, para com os filhos. Pais e mães criam os filhos em seus ninhos, às vezes em seu próprio corpo, os alimentam com grande custo para si mesmos e se arriscam ao protegê-los dos predadores. Um exemplo disto são as aves que simulam fraqueza para atrair para longe do ninho um predador. Uma ave manca na frente de uma raposa, estendendo uma asa como se estivesse quebrada para atraí-la para longe de seus filhotes, colocando sua própria vida em risco.

Isto levanta uma questão importante: como o altruísmo pode ter evoluído. Por que alguns organismos se sacrificam em benefício de outros, às vezes até mesmo não-parentes?

Para explorar mais extensamente a natureza do problema de altruísmo considere uma comunidade onde existem indivíduos altruístas e outros egoístas. Os indivíduos egoístas podem ter sua vida facilitada pelo altruísmo dos demais e ser mais bem sucedidos em sua sobrevivência e reprodução. Com o passar dos tempos a comunidade estará formada principalmente por uma maioria egoísta. Por outro lado, entre dois grupos diferentes, um grupo de altruístas pode ser mais eficiente na estratégia de sobrevivência por estarem em cooperação mútua, enquanto o grupo de egoístas pode dificultar sua própria sobrevivência por meio da competição exacerbada. Este é um caso de conflito em diferentes hierarquias biológicas, coberto pela equação proposta por Price.

Do ponto de vista do gene, de acordo com Haldane, compreender o altruísmo não é tão complicado. Um indivíduo pode perfeitamente sacrificar sua vida para salvar um filho ou um parente, de forma a que este sacrifício represente a perpetuação dos genes que ambos partilham. Neste caso houve um sacrifício para que o gene se beneficiasse.

Nos humanos o altruísmo tem suas raízes no sentimento de empatia que surge quando observamos pessoas em situações de angústia ou emergência. Esta capacidade nos humanos (e mamíferos em geral) está relacionada ao aleitamento pelas mulheres de sua prole. Isso explica porque as mulheres mostram ser, em geral, mais empáticas que os homens. A empatia é estimulada pela oxitocina, um hormônio envolvido no parto e aleitamento. Em experimentos de laboratório humanos de ambos os sexos exibem um aumento em suas respostas empáticas quando se aplica a oxitocina em suas narinas.

A oxitocina é produzida pelo hipotálamo e tem a função de promover as contrações musculares uterinas durante o parto e a ejeção do leite na amamentação. Ela é responsável por um aumento no sentimento de empatia, de reconhecimento social, na ligação entre casais, supressão da ansiedade e ampliação do sentimento de uma mãe para com seu filho. Ela também causa a sensação de prazer que uma mãe tem ao dar a luz o seu bebê, quando um pai segura o filho nos braços ou simplesmente quando as pessoas ligadas por afeto se abraçam. Como ocorre com a prolactina, a concentração de oxitocina aumenta depois de uma relação sexual. Por outro lado a carência da oxitocina no organismo está associada à sociopatias e psicopatias.

Após descobrir sua doença e ser operado sem grande sucesso G. Price se mudou para Londres e enviou uma carta para William Hamilton, pedindo uma cópia de um artigo. Na carta ele informava que estava interessado na questão do altruísmo e que resolveria o problema em aberto. Hamilton, que estava de saída para uma expedição de estudos no Brasil, enviou o artigo requisitado sem dar maior atenção ao pedido uma vez que Price não tinha nenhuma formação em biologia e era um desconhecido na área. No entanto, ao voltar alguns meses depois ele encontrou um texto de Price onde estava apresentada a equação, hoje conhecida como Equação de Price. Esta equação descreve a dinâmica da seleção natural, útil para a compreensão de sistemas de organismos onde existem conflitos entre interesses do gene e do indivíduo ou entre interesses do indivíduo e do grupo. O altruísmo consiste em um exemplo clássico deste conflito.

Quando Price encontrou sua equação ele foi imediatamente se consultar com os biólogos da UCL perguntando se aquilo era uma novidade ou algo já conhecido. E lá descobriu que a equação representava uma novidade e um grande avanço na área. Por isto foi quase imediatamente admitido como professor naquela Universidade, obtendo um local de trabalho e uma bolsa de pesquisa. Ele passou a trabalhar em cooperação com William Hamilton e John Maynard Smith, dois dos maiores teóricos ingleses da biologia evolucionária naquele tempo.

Durante o período em que colaborou com os pesquisadores em biologia ele fez três contribuições importantes: encontrou novo desenvolvimento para o trabalho de W. Hamilton sobre a seleção de parentesco, o que resultou em sua Equação de Price, introduziu com John Maynard Smith o conceito de estratégia evolucionária estável (um conceito central para a teoria dos jogos) e formalizou o Teorema Fundamental de Fischer para a Seleção Natural.

Embora bem sucedido em sua busca e tendo seus artigos mais importantes publicados Price se afastou do pensamento científico e assumiu uma vida de ascetismo cristão. Obcecado por coincidências numéricas, ele fazia operações matemáticas usando dados de sua própria vida, como datas e números de documentos pessoais, e concluiu dos resultados obtidos que não poderia haver coincidência naqueles números. Em sua visão ele estava recebendo de Deus a ordem de realizar alguma tarefa. Muitos de seus colegas relatam percebe nele, neste período um comportamento autista e antissocial.

Ao explorar as consequências da própria equação Price ficou profundamente impressionado com o fato de que o altruísmo sempre envolvia alguma espécie de ganho para o indivíduo ou para a espécie. Parecia não existir altruísmo puro e incondicional. Desapontado ele resolver mostrar, por meio do exemplo pessoal, que a teoria poderia ser suplantada pelo esforço e boa vontade humana. Ele saiu percorrendo as ruas de Londres procurando por pessoas desvalidas, alcoólatras, moradores de rua ou qualquer um que precisasse de apoio, decidido a iniciar um programa radical de interferência altruísta na vida destas pessoas. Ele cedia seu dinheiro, comprava comida e oferecia ajuda para qualquer tipo de problema que aquelas pessoas pudessem ter, ajudando-as inclusive com seus problemas legais ou com a polícia. Com o passar do tempo Price passou a abrigar os sem-teto em casa sendo obrigado a dormir no laboratório quando sua casa se tornou cheia demais. Esta situação perdurou até que seus próprios recursos foram esgotados e ele se tornou mais um dos destituídos, tendo que morar nas ruas junto com as mesmas pessoas que pretendeu ajudar. Aos poucos ele entrou em um processo de degeneração desenvolvendo novamente uma forte depressão, em parte causada pela impossibilidade de adquirir seus medicamentos. Sua degeneração foi atribuída à interrupção no uso dos medicamentos e à sua decepção frente à incapacidade de transcender as forças biológicas a atingir o auto-sacrifício e o altruísmo.

George Price morreu completamente pobre e abandonado. Poucas pessoas compareceram a seu enterro, dentre elas alguns companheiros de vida nas ruas, gente que o adorava por ter recebido dele ajuda em momentos de dificuldades. Em meio ao grupo estavam JM Smith e Maynard, em reconhecimento pela sua genialidade. Seu corpo foi enterrado em um túmulo não identificado no cemitério de St. Pancras, em Londres, onde permanece até o presente.

Referências:

Oren Harman. The Price of Altruism: George Price, New York, W. W. Norton & Company, 2010.

Oren Harman. The Price of Altruism, Youtube

Franz de Wall. For Goodness' Sake, The New York times: 9 jun 2010.

Biological Altruism The Stanford Encyclopedia of Philosophy, 3 de junho de 2003; revisado em outubro de 2008

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