Devemos Acreditar na Ciência?


If you have to ask
what jazz is,
you’ll never know.
Louis Armstrong

 

O que é ciência?

A palavra ciência é derivada de scientia, uma tradução latina para o grego episteme, ambas significando conhecimento. A ciência é um empreendimento, um esforço coletivo humano para compreender o universo, a natureza e o próprio ser humano.

Qual é o objeto da ciência?

Qualquer coisa que possa ser verificada em repetidos experimentos ou observações é um objeto da ciência. Objetos além da possibilidade de observação e experimentação estão fora do escopo científico, existam ou não. Por este motivo a ciência não trata de um objeto fixo mas se expande na medida em que a própria ciência se expande. Uma discussão sobre a existência de prótons, elétrons e neutrons seria metafísica e não científica na época de Galileu ou Newton pois nenhum experimento ou observação acessível aos pesquisadores da época permitiria chegar a uma conclusão a favor ou contra a existência destas partículas.


Leonardo da Vinci foi um representante importante do renascimento, uma era onde arte e ciência não estavam dissociadas. Ele tentava compreender um fenômeno descrevendo-o em detalhes, muitas vezes por meio de suas gravuras espetaculares, e não tinha grande preocupação com aspectos teóricos.

Além da observabilidade o tratamento de um objeto científico deve estar embasado em uma formulação teórica ou modelo que permita sua compreensão, mesmo que parcial ou fragmentada. A mera realização de um fenômeno em laboratório não torna imediatamente aquele fenômeno um objeto de estudo científico se não existem modelos ou teorias que possibilitem sua compreensão. Historicamente isto foi ilustrado inúmeras vezes por meio de resultados totalmente inesperados que acabaram sendo ignorados ou vistos como meros erros experimentais para ser, mais tarde, reconhecidos como descobertas novas e importantes. Portanto a ciência não evolui nem por meios empíricos nem formulações racionais isoladamente mas consiste em uma interação permanente entre modelos teóricos e feitos experimentais (ou observacionais).

Como progride a ciência?

A ciência evolui através da observação de fenômenos, sempre que possível realizados em laboratório sob condições controladas. Muitas vezes um fenômeno não pode ser reproduzido em laboratório mas deve ser observado diretamente na natureza. Isto ocorre na astrofísica, por exemplo, onde os objetos sob estudos em geral se encontram distantes e os eventos ocorrem em escalas gigantescas. Também existem situações onde o custo do experimento é proibitivo ou a ética impede sua realização, tal como estudos sobre a psicologia ou genética humana. Modelos são criados para explicar o que se observa e são verificados por meio de novos experimentos. Por isto todo modelo científico deve prever novos fatos, observados ou extraídos da experimentação, possíveis de serem verificadas. Experimentos com resultados positivos levam à uma confirmação parcial do modelo enquanto um único resultado negativo, se devidamente verificado, deve levar ao abandono completo daquela formulação. Nenhum modelo é considerado uma verdade final e definitiva mas uma aproximação recursiva, uma boa descrição de parte da natureza.

Neutrinos mais rápidos que a luz?

Na foto: anúncio do resultado do experimento com neutrinos supostamente mais rápidos que a luz no CERN, 23 de setembro de 2011.

Em Outubro de 2011 um grupo de pesquisadores do projeto Opera estavam realizando medidas do tempo necessário para que neutrinos emitidos no CERN, na Suíça, fossem detectados na Itália. Estes neutrinos eram emitidos no CERN, viajavam 730 km por baixo da crosta terrestre e, aparentemente, foram detectados na Itália em tempo inferior ao que seria gasto por um feixe de luz viajando pela mesma distância. O grupo anunciou que tinham encontrado neutrinos com velocidade superior à velocidade da luz.

Como esta afirmação contradiz um postulado importante da teoria da relatividade a comunidade científica reagiu, como sempre faz, com ceticismo. Se correta a notícia implicaria em uma revisão profunda de princípios bem estabelecidos da física, entre eles a própria teoria da relatividade especial, TRE. A TRE é construída sobre o postulado de que a luz viaja com velocidade limítrofe, que não pode ser alcançada por nenhum corpo com massa não nula. Embora essa pareça ser uma atitude conservadora ela é necessária: o anúncio de qualquer nova descoberta deve ser verificado em outros laboratórios, o que é feito em geral por cientistas de todas as partes do mundo. Afirmações extrordinárias como esta exigem comprovações igualmente extraordinárias antes de serem aceitas. Desta forma erros ou enganos propositais são eliminados e não se perde tempo reformulando teorias bem verificadas.

Diversos grupos repetiram o experimento e encontraram uma velocidade compatível com as teorias aceitas: neutrinos, como partículas de massa de repouso nula, viajam com a velocidade da luz. Mais tarde o próprio grupo Opera anunciou a descoberta de um cabo ótico mal afixado provocou um atraso em suas medições que explicaria a medida incorreta.

Também pode ocorrer que um experimento resulte em verificações totalmente diferentes daquelas esperadas, forçando uma revisão profunda na ciência da época e proporcionando um grande progresso.

Resultados negativos importantes

Em algumas situações ao longo da história da ciência experimentos com resultados negativos foram extremamente importante para a compreensão da natureza. Na física um dos casos mais conhecidos se deu com o experimento de Michelson e Morley, em 1887. Antes da formulação da Teoria de Relatividade, por Einstein, uma incompatibilidade entre as teorias do eletromagnetismo de Maxwell e a mecânica clássica de Newton vinha incomodando físicos e matemáticos do final do século 19. Nada na teoria de Newton restringe a velocidade de propagação da luz enquanto a teoria eletromagnética prevê uma velocidade fixa e constante, além de independente do observador. Segundo a teoria de Maxwell a luz é uma onda e, portanto, era natural especular à respeito do meio por onde esta onda se propagava. Naquele época este meio hipotético foi denominado éter. Parte da questão poderia ser resolvida medindo-se a velocidade da luz para observadores com diferentes movimentos em relação à fonte emissora da luz. Michelson e Morley construiram um instrumento composto por dois braços perpendiculares e um conjunto de espelhos destinados a medir variações da velocidade da luz quando viajando em direções parealela ou perpendicular ao movimento da Terra pelo espaço. Os dois repetiram a experiência em diversos momentos do dia e ao longo dos meses, buscando detectar o movimento da Terra em relação ao suposto éter. No entanto, apesar de terem construído um aparelho de altíssima sensibilidade, não detectaram nenhuma variação.

Este resultado negativo mostrou que a luz não necessita de um meio para se propagar e que sua velocidade é a mesma para qualquer observador em movimento em relação à fonte. Esta é um dos postulados básicos da Teoria da Relatividade Especial.

A Relatividade de Einstein, tanto a especial como a geral, é um bom exemplo de como uma teoria revolucionária é sempre recebida com ceticismo e desconfiança mesmo que apresentem boa consistência teórica ou sejam verificadas experimentalmente. Ambas as formulações conduzem a conclusões importantes que podem ser verificadas em laboratório ou observações astronômicas, estando todas elas em excelente conformidade com as teorias. Apesar do sucesso, hoje amplamente reconhecido, se uma única observação for feita contrária às teorias elas terão que ser refeitas e substituídas por novos modelos. No caso da relatividade, na medida em que o tempo passa e as observações se tornam cada vez mais precisas, cresce a confiança de que este é um modelo correto para os domínios testados.

Mecânica Clássica, Quântica e Relativística

Nenhuma experimentação pode levar à conclusão de que o modelo testado esteja correto em todos os domínios de verificação. Pelo contrário, é crença comum no meio científico que, para domínios de altíssimas energias (o que significa altas temperaturas ou altas velocidades), a teoria da relatividade deve ser modificada. A teoria da relatividade geral, curiosamente, prevê seu próprio fracasso para regiões do espaço onde as densidades de matéria-energia sejam muito altas.

Newton, Einstein e Planck

Um exemplo histórico interessante de como uma teoria aceita e bem estabelecida não se sustenta em todos os domínios de aplicação se deu com a mecânica newtoniana. Newton apresentou sua formulação da mecânica clássica através de um formalismo matemático elegante que ele mesmo desenvolveu (simultânea e independentemente com Leibniz), o Cálculo Diferencial e Integral. Este modelo foi testado em diversas situações tendo se mostrado eficiente para descrever o movimento de partículas e corpos com altíssima precisão. Estes testes, no entanto, foram sempre realizados com velocidades pequenas se comparadas à velocidade da luz, como era possível com a tecnologia existente até o final do século 19. Para velocidades altas, tais como as observadas no interior de aceleradores de partículas, em raios cósmicos ou alguns objetos astronômicos, a mecânica clássica não fornece resultados compatíveis com os observados. Neste caso torna-se necessário usar a teoria da relatividade. Ocorre ainda que, se as energias envolvidas forem muito pequenas, comparadas à uma certa quantidade minúscula de energia, o quantum descoberto por Planck, torna-se necessário usar a mecânica quântica. Estas duas teorias se reduzem à mecânica newtoniana quando as escalas de velocidade e energia se reduzem à escala newtoniana (basicamente aquela observada no cotidiano!) Não é correto, portanto, se afirmar que Einstein e os formuladores da mecânica quântica mostraram que Newton estava errado, mas sim que ampliaram os limites de aplicabilidade de sua teoria.

É bem conhecido hoje que os efeitos observados nos novos domínios explicados pelas teorias mecânicas modernas são não intuitivos e violam nosso senso comum, desenvolvido ao longo de longas eras pela evolução e moldados pela experimentação sensorial ordinária.

Que benefício tiramos do desenvolvimento científico?

Em uma primeira abordagem esta pergunta admite uma resposta muito simples. A descoberta de microorganismos tais como fungos, bactérias, protozoários ou vírus, e os métodos de impedir alguns de seus efeitos nocivos sobre a saúde humana por meio de antibióticos, por exemplo, tem melhorado a qualidade de vida das pessoas no planeta e extendido em muito a longevidade. As técnicas avançadas de produção de vacinas, algumas delas envolvendo a manipulação sofisticada de genes, têm salvado muitas crianças da morte prematura ou de doenças fortemente debilitantes. O uso da eletricidade para impulsionar máquinas ou para acionar equipamentos eletrônicos é outro exemplo imediato. A civilização atual colapsaria quase instantaneamente se, por qualquer motivo, não pudéssemos mais usar a eletricidade. Surpreendentemente, colapsaria também sem o uso de satélites transmissores de informações, alguns deles em órbitas geoestacionárias tão baixas que necessitam de correções feitas com a teoria geral da relatividade. Você pode, se quiser, se recusar a usar efeitos quânticos mas, para isso, teria que abandonar seu telefone celular, seus computadores, sua tv inteligente, todas as suas operações bancárias.

Em outro nível, no entanto, esta pergunta se torna mais difícil de ser respondida. A tecnologia tem tornado a vida humana de melhor qualidade, no sentido do bem estar, da felicidade e da realização pessoal? E o que pensar sobre os desafios e ameaças provocados pela própria tecnologia, tais como o aquecimento global, a poluição ou o risco do desenvolvimento de microorganismos artificiais e perigosos para a vida humana e do planeta?

Por um lado não é possível separar a história humana do desenvolvimento da tecnologia. Desde a pre-história usamos tecnologia nos alimentar, para tecer, para modificar espécies vegetais e animais, para nos locomover e, principalmente, para conhecer o mundo e desenvolver a própria ciência. Existem pesquisas que mostram que o desenvolvimento das camadas superiores e mais sofisticadas do cérebro humano se tornou possível devido à tecnica de cozinhar o alimento, o que permite que consumamos uma variedade muito maior e mais farta de produtos.

Por outro lado, não se pode negar que a tecnologia introduziu problemas novos, alguns muito sérios. Seriam possíveis outros caminhos? O desafio moderno é gigantesco e a própria sobrevivência da espécie depende dos rumos que a sociedade decidir tomar neste momento. Infelizmente existe uma inércia muito grande imbutida na natureza humana, que é ainda maior nos organismos e instituições. Decisões que implicam em severa redução de lucros para as empresas, por exemplo, são difíceis e improváveis até que o prejuízo ambiental seja avassalador. A não linearidade da resposta da natureza pode fazer com que o desgaste só seja reconhecido quando for tarde demais. Em outras palavras pode muito bem ocorrer que o estrago neste momento já tenha ultrapassado o ponto onde um retorno seja possível.

Considere, por um exemplo, a questão climática. É amplamente reconhecido que estamos passando por um processo que aquece o planeta e que este fenômeno está em aceleração. O aquecimento global, entre outras coisas, produz diferenças acentuadas entre climas quentes e frios. No hemisfério norte ocorrem invernos muito rigorosos porque correntes de ar frio do pólo norte consegue quebrar a barreira que antes impedia seu progresso até áreas ao sul. Este resfriamento local causa ceticismo entre as pessoas leigas sobre se de fato há um aquecimento.

A noção de que podemos combater os problemas gerados simplesmente abandonando a tecnologia é, no mínimo, ingênua. Certamente necessitaremos de mais ciência e de mais tecnologia (e muita boa vontade) para vencer o problema do aquecimento global, da poluição, da escassez de água potável, do aumento de agrotóxicos na produção de alimentos, do perigo das armas químicas, biológicas ou nucleares, do crescimento da população de bactérias super resistentes, e dai por diante.

Muitas ameaças atribuídas à tecnologia não são, de fato, devidas a ela. Por exemplo, a internet é um fantástico veículo de informação, um apoio às liberdades democráticas e uma ferramenta poderosa de combate aos regimes totalitários e, eventualmente, ao fanatismo, intolerância e fundamentalismo supersticioso. No entanto ela aumenta dramaticamente a exposição das crianças e jovens à pornografia, a conteúdos impregnados de ódio e discriminação e intolerância política e religiosa. Todos estes elementos obscuros são partes comuns de nossa história e não surgiram com a internet. Não cabe, portanto, atribuir a ela uma culpa direta por sua existência mas apenas pela facilidade de sua difusão. Quando a expressão individual é livre e as opiniões podem circular livremente deve-se esperar também a circulação de conteúdo de valor duvidoso. Esta dificuldade não pode ser resolvida através do cerceamento da liberdade de expressão ou da circulação das ideias. Pelo contrário, a ampliação da informação, o esforço pela melhoria de sua qualidade e do alcance da informação são as formas cabíveis de se atacar o problema. Dando um exemplo, com a liberdade de postagem de temas diversos na internet os pais não podem impedir que seus filhos tenham acesso à pornografia (se é que puderam algum dia!) Uma informação correta sobre a sexualidade, sobre as perversões e sobre os perigos envolvidos deve ser suprida, de preferência pelos pais e cuidadores mas também pela escola e por sites dedicados à difusão do estudo e do conhecimento.

Devemos acreditar na ciência?

Esta pergunta não é de todo apropriada (daí a citação inicial da célebre frase de Louis Armstrong, sobre o jazz). A ciência não envolve fé ou crença mas entendimento de suas teorias, quando possível, ou a compreensão de como ela funciona. Está claro que na atualidade nenhuma pessoa consegue dominar os diversos ramos do conhecimento, como ocorria no passado. Então ela deve ter o entendimento de como o conhecimento é obtido, do porque um cientista afirma ou nega um fato, de como a comunidade testa, valida ou exclui uma proposição. Para isso precisamos ter uma população instruída.

Infelizmente, vivemos hoje uma crise que atinge quase todos os paises, na qualidade da educação. No geral o problema é mais grave nos países com menor desenvolvimento sócio-econômico. A desigualdade na da educação científica e tecnológica entre as nações funciona como fomentador da dependência dos mais pobres e da exploração econômica por parte dos detentores do conhecimento.

A má formação no entendimento das pessoas produz também dificuldades internas. Como podemos esperar que um cidadão faça uma escolha esclarecida sobre tomar ou não uma vacina – ou aplicá-la em seus filhos – se ele não possui um mínimo de conhecimento sobre o tema?

Aceita uma dose de vacina?

O que te parece perguntar ao cidadão brasileiro médio: “Você aceita tomar uma vacina feita com partes do microorganismo a ser combatido, ou com o próprio microorganismo, ainda vivo mas enfraquecido, com partes do DNA de um vírus, onde a habilidade do vírus em afetar a saúde humana está desabilitada ou enfraquecida?” E ainda acrescentamos: “Não se preocupe, a vacina passou por teste de duplo cego randomizado, 350 pessoas sofreram de efeitos colaterias adversos e somente duas mortes foram verificadas em uma amostra de 5 milhões de vacinados.”

Enquanto a educação não puder dotar os cidadãos com o mínimo aceitável de conhecimento científico permanecerá a exploração e a exclusão de uma vasta maioria por alguns poucos manipuladores. A escola, é claro, deve ser a primeira frente de batalha. Este processo é lento mas é o único com solidez e sustentabilidade. Ele é lento porque a escola é uma instituição extremamente inerte e letárgica, demonstrando extrema dificuldade em assimilar novas tecnologias. É muito difícil promover aperfeiçoamentos nas escolas principalmente porque a formação de um bom quadro de professores é demorada e cara e nunca foi uma prioridade em nosso país.

A divulgação científica, promovida por jornais, rádios e revistas não especializadas é muito deficiente em nosso país. Dificilmente uma notícia importante em ciência de ponta pode ser compreendida, mesmo por especialistas da área, apenas com base no que é divulgado pelos principais jornais. Aparentemente os setores voltados para esta atividade na mídia recebem apoio e recursos muito (mas muito) inferiores àqueles destinados ao esporte, por exemplo. Mais recentemente têm surgido uma boa divulgação pela internet via blogs, podcasts, etc. O alcance destas mídias ainda é insuficiente.

Ciência é o oposto de religião?

Ciência, por definição, é uma busca sólida pelo conhecimento que busca confirmação teórica e empírica para seus achados. O método científico é relativamente novo, tendo se iniciado em torno da época em que viveu Galileu Galilei (1564-1642). Qualquer forma de se avançar sobre a ignorância, desde feita de forma sistemática, reprodutível e comprovada por qualquer pessoa que se disponha a fazê-lo, pode e deve ser incorporada ao método científico. A religião apresenta inúmeras afirmações que não podem ser comprovadas cientificamente. Ela se baseia na revelação e na fé, geralmente em torno da experiência de um indivíduo supostamente mais hábil ou com faculdades ou percepções superiores à da maioria das pessoa, ou em torno de tradições antigas e de origem remota ou esquecida. Estas afirmações terminam por se concretizar em livros sagrados e mitos que se transformam com o tempo em tradições que não podem ser questionadas. Se as afirmações do indivíduo “iluminado” ou da literatura sagrada não podem ser verificadas por qualquer pessoa então elas não podem ser chamadas de científicas. Uma afirmação sobre um fato que não pode ser reproduzido, confirmada ou descartada como falsa, não tem qualquer relevância na vida das pessoas nem no entendimento que fazemos do mundo.

Existe um Bule Voador entre a Terra e Marte?

Seguindo o argumento do matemático Bertrand Russel, imagine que eu afirme existir um bule celestial voador circulando em órbita elíptica entre as órbitas da Terra e de Marte. Ninguém poderá verificar sua existência pois ele é pequeno e não pode ser visto mesmo com o uso de telescópios poderosos. Evidentemente que ninguém de bom senso se empenhará na descoberta de tal objeto estranho. Russel usou este argumento para mostrar que o ônus da prova recai sempre sobre aquele que afirma alguma coisa.

Uma afirmação sobre algo intangível, não demonstrável nem percebido de modo inequívoco não é sequer uma hipótese científica e postular simplesmente a existência de tal coisa é, portanto, desnecessário e irracional. É uma forma de violação da navalha de Occam.

Se uma pessoa em estado meditativo vê algo extraordinário ela pode passar a defender ardentemente a existência daquilo que viu. Mas, como podemos saber se ela viu algo de fato, se sonhou, se alucinou ou simplesmente se iludiu? Ou, o que é pior, se está tentando deliberadamente enganar as pessoas para tirar de algum tipo de vantagem? A história das religiões exibe todos estes tipos de engano!

Deve-e ainda lembrar que afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias. Por exemplo, se um físico afirmar que existe uma quinta força, além das quatro conhecidas, ele terá que apresentar uma prova contundente, seja por meio de um experimento ou um fortíssimo argumento teórico que justifique pelo menos a consideração de sua argumentação.

E os universos paralelos?

Suponha ainda que alguém postule a existência de um universo paralelo que não interage de modo algum com o nosso. Se ele não nos afeta não pode ser encontrado e sua existência não pode ser comprovada, nem descartada. Este universo, mesmo se existir, não é objeto de investigação científica e … você não deve ser preocupar com ele. Mas, se alguém encontrar uma forma qualquer de interação entre os universos então ele passa a ser objeto de nossa atenção. Este é o caso de uma teoria especulativa proposta por Neil Turok e outros.

Vamos tomar a seguir dois exemplos de teorias científicas, o modelo cosmológico padrão, usualmente chamado de Big Bang, e a Teoria da Evolução das Espécies.



5 Replies to “Devemos Acreditar na Ciência?”

  1. Prezado,

    Crença não pode ser sinônimo de ignorância. Se for, a própria ciência se funda em ignorância, porque sempre existem, como fundamentos da ciência, crenças diversas.

    Por exemplo, a ciência pressupõe a validade da lógica, mas a lógica (como enunciado sintético) não pode ser provada cientificamente. Categorias metafísicas – como as noções de “matéria” ou “onda” – embora essenciais como pontos de partida para a pesquisa científica, não são, elas mesmas, prováveis cientificamente.

    Em suma, a ciência funda-se sobre suposições que são, em si mesmas, improváveis ou inverificáveis pelo método científico. Resta à comunidade científica CRER em sua validade.

    Falando em crença, David Hume já tinha mostrado, no séc. XVIII, que quem usa o método indutivo – largamente usado por cientistas em campos diversos – apenas está disfarçando uma crença sob o manto da racionalidade científica. Vem do hábito, por exemplo, o conhecimento de que o sol nasce sempre a leste. O hábito de ver inúmeras vezes o sol nascer a leste sugere ao observador que amanhã o sol também nascerá a leste. Mas esta observação não pode ser cientificamente comprovada (Karl Popper inclusive pegou este gancho de Hume para desconstruir a suposta cientificidade existente no método indutivo).

    Enfim, meu caro, sugiro que estude mais a fundo o campo da filosofia da ciência e da epistemologia, antes de fazer afirmações tão taxativas – como a de que a ciência se opõe à fé ou à crença – quanto equivocadas (a questão do conhecimento é muito mais complexa do que sugerem tais oposições simplistas).

    Saudações
    Sidarta

    1. Sidarta

      Da forma como eu vejo a questão, crença é sinônimo de ignorância. Não faz sentido acreditar em algo que saibamos ser verdadeiro. Talvez tenhamos que tomar a ignorância como algo construtivo, um impulso em direção ao conhecimento. Também acho muito provável que não existe uma forma garantida de nos livrarmos de toda a crença. Acreditar faz parte do psiquismo humano. Ruim é pensar que sabemos por certo aquilo em que apenas acreditamos.

      As conquistas da ciência são facilmente constadas. No no nível do entendimento de como as coisas funcionam no universo temos boas explicações para a origem dos elementos químicos, de como as estrelas se formaram e mais tarde os sistemas solares, como as características de um indivíduo são passadas para sua prole através de informações codificadas em seus genes, de como muitas doenças têm origem em erros nesta informação, enquanto outras são provocadas por organismos estranhos a nosso corpo, e muitas outras. No nível tecnológico esse entendimento é transformado em aparelhos, métodos de cura na medicina, construção de máquinas sofisticadas que permitem, por exemplo, a transmissão de dados quase instantaneamente para quaisquer partes do planeta, através da Internet, algo que certamente transformará o ser humano profundamente. Apesar dos inúmeros problemas criados pela tecnologia hoje vivemos mais, temos maior fartura e facilidade de obtenção de alimentos (infelizmente uma conquista que não chega todos, é verdade!), temos acesso a tratamentos médicos nunca antes sequer sonhados. Em outras palavras, a ciência mostra em termos práticos que sua abordagem para descobrir e entender funciona.

      Ciência se sustenta sobre a lógica, a matemática, a verificação empírica ou observacional. Pode ser que, em um nível mais profundo, venhamos a descobrir que a natureza não se comporta de modo lógico, não se ajusta a nenhum modelo teórico ou não possa ser descrita matematicamente. Mas este momento ainda não chegou (se é que chegará!) Até o presente o método científico tem mostrado ser bem sucedido em levantar o véu da ignorância sobre muitos temas práticos e teóricos.

      A “essência da matéria” é uma noção metafísica (um onda, não!) Talvez não faça sequer sentido buscar qual é esta “essência”. Mas não resta dúvida empírica de que a matéria e seus campos de interação existem. Os modelos atuais (coisa que nenhum cientista ousaria afirmar que são finais) funcionam para explicar a gama de observações e experimentos a que temos acesso. Quando novas evidências surgirem estas teorias terão que ser revistas e expandidas.

      Teorias científicas têm poder de previsão. Por ex., você pode considerar os planetas e suas massas e prever onde estará o planeta Netuno daqui a um século. Sabemos que o Sol nascerá a lesta amanhã (se nenhum cometa ou outro pedregulho colidir com ele ou com a Terra) não apenas porque ele tem sempre nascido ali, mas porque temos um modelo funcional das órbitas planetárias.

      Tenho interese relativo em filosofia da ciência. Pensar sobre um fenômeno não é o suficiente para esclarecê-lo. Qause sempre, a meu ver, falta à iniciatica filosófica a preocupação em testar suas conclusões. E se fizer isso ela passa a ser simplesmente Ciência.

      Além disso não concordo com que as idéias aqui sugeridas sejam simplistas (ou não as teria colocado por escrito). Agradeço por seu comentário. Sinta-se à vontade para opinar, discordando ou não. Considero que o debate, desde que sem paixões e apegos, sempre traz mais luz sobre qualquer tema.

      Guilherme

  2. Guilherme,

    O que você “sabe” ser verdadeiro é apenas uma questão para a Epistemologia, não é algo definitivo. “Como” se conhece é tão importante quanto “o que” se conhece. Por isso afirmei que considero simplista a associação necessária entre crença e ignorância.

    Pense no seguinte: se voltarmos, como faz Thomas Kuhn, à história da ciência, então será impossível para você conseguir diferenciar ciência de crença/ignorância. Você não conseguirá provar que a astronomia ptolomaica, a química flogística etc., não eram concepções da natureza não-científicas, ou baseadas em crenças, superstições etc. Também você não pode considerá-las “erros” dos quais surgiram acertos. Não. Elas eram concepções científicas consagradas em suas épocas.

    Um outro exemplo: você não conseguirá, com esta concepção de ciência – que se constrói como acúmulo contínuo de teorias, hipóteses, experimentações, erros e revisões de hipóteses -, explicar quando foi descoberto o oxigênio. O primeiro cientista a quem se atribui a preparação de uma amostra relativamente pura do gás foi o sueco Scheele. Mas você sabia que ele morreu, quinze anos depois, sem saber o que tinha encontrado (o que chamou de “gás da vida”)? Poucos anos depois, ou quase na mesma época, Priestley recolheu o gás em laboratório, mas achou que era óxido nitroso – e um ano depois, chamou de “ar desflogistizado”. Foi Lavoisier quem, finalmente, conseguiu uma interpretação que nos levou à concepção do oxigênio. Atente para esta palavra-chave, “interpretação”.

    Mas perceba o seguinte. A teoria do flogisto não era errada ou falsa – e nem Lavoisier, ao propor uma hipótese fora da teoria do flogisto, era “certa” ou “verdadeira”. Elas apenas diziam respeito a distintos paradigmas científicos.

    E os paradigmas científicos, meu caro, são frutos, sim, tanto de observações quanto de crenças. As crenças, ou concepções de mundo, valores etc., estão posicionadas antes dos olhos na observação de qualquer coisa. Isso é Kant: é impossível qualquer visão do mundo que não seja mediada por aquilo que informa o nosso olhar. É por isso que Scheele morreu sem ter “visto” o oxigênio – porque ele (e Priestley) “via” o mundo químico pelas lentes de um determinado paradigma teórico. Um paradigma teórico pode nos ensinar, por exemplo, que o Sol é uma bola homogênea de gás superquente etc. Se um cientista foi cultivado neste paradigma, e se consegue obter um telescópio capaz de observar as manchas solares, ele achará que as manchas são problema do telescópio.

    Em suma, estou apenas problematizando o que você acha que sabe ser verdadeiro. De fato, não há como saber que uma teoria é absolutamente verdadeira. Popper havia entendido isso quando propôs o falseacionismo como base epistemológica/metodológica da ciência. E o que nos diz o falseacionismo? Nos diz, primeiramente, que nenhuma teoria científica é absolutamente verdadeira. Nós só podemos afirmar que uma teoria vale enquanto não for refutada. Mas o fato de não ter sido refutada ainda não é igual a dizer que a teoria diz respeito a algo que “sabemos ser [absolutamente] verdadeiro”. Ora, um astrônomo ptolomaico “sabia” ser verdadeiro o paradigma geocêntrico. Até que Copérnico apresentou um paradigma que respondia melhor a algumas questões graves. Daí vieram outros, Galileu, Kepler, Newton, Einstein etc.

    E volto ao ponto de minha msg inicial (e que você não parece ter querido tocar): a ciência é cheia de crenças, se funda em várias delas. A ciência não pode provar, por exemplo, verdades lógicas e matemáticas (estas são pressupostas pela ciência). Falando em relatividade, você deve saber que toda a teoria da relatividade se baseia em uma suposição que não pode ser provada cientificamente (que a velocidade da luz é constante entre quaisquer pontos A e B). Sendo assim, mantenho o que afirmei anteriormente: a ciência não se opõe à crença, porque crença não é sinônimo de ignorância. Sugiro que você procure não reduzir a noção de crença a crenças tolas, pueris, infantis etc. Aí você poderá perceber que os cientistas lidam e trabalham com crenças o tempo todo.

    Vou a alguns pontos de sua mensagem, como este: ‘Mas não resta dúvida empírica de que a matéria e seus campos de interação existem.”

    Ora, como é que você pode afirmar que não há dúvida empírica de que a matéria existe, se “matéria” é uma categoria metafísica (e não física)? É o mesmo erro de quem vê na natureza uma certeza “empírica” de que existe Deus. Voltando: ninguém se preocupa em “provar empiricamente” que a matéria existe – porque a crença em sua existência os dispensa de um trabalho que, ademais, seria impossível (o de a ciência verificar “cientificamente” os seus próprios pressupostos – que não são científicos!).

    Outra passagem sua: “Pensar sobre um fenômeno não é o suficiente para esclarecê-lo. Qause sempre, a meu ver, falta à iniciatica filosófica a preocupação em testar suas conclusões. E se fizer isso ela passa a ser simplesmente Ciência.”

    A filosofia, no seu ramo epistemológico, reflete sobre como conhecemos, o que é conhecer etc. A ciência vem depois (e não deveria ignorar o que se faz no campo filosófico acerca do conhecimento). Não faz sentido a filosofia, que se situa em um campo especulativo e metafísico, pretender “testar” (empiricamente!?) suas construções intelectuais.

    Disso não decorre, por sua vez, que os cientistas devessem ser ignorantes em matéria de filosofia. Eu mesmo, por muitos anos, ignorei a importância da filosofia, enquanto acreditava (!) que a ciência era uma forma de conhecimento auto-suficiente, superior às demais etc. Estava redondamente enganado, e assim que passei a aprender um pouco mais de filosofia, percebi o caráter ilusório e ingênuo de minhas antigas crenças cientificistas.

    Finalizo lembrando que a lógica foi invenção de um filósofo. A Lógica não é ciência, e sim premissa (não científica) para o desempenho do trabalho científico. Pelo seu argumento anterior, deveríamos exigir da Lógica que “testasse suas conclusões”, o que não cabe.

    Saudações,

    Sidarta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *