Se todos fossem iguais a você


Se todos fossem iguais a você
que maravilha viver (…)
amar sem mentir nem sofrer
existiria verdade, verdade que ninguém vê
se todos fossem no mundo iguais a você
Vinicius de Moraes

O trânsito estava congestionado naquela tarde de sexta-feira. Luan viu que os veículos a sua frente se desaceleravam. Percebendo que dois veículos lentos se aproximavam pela esquerda ele fez uma manobra repentina, se encaixando com perfeição entre os dois carros. Depois, ignorando a irritação dos motoristas, ele apontou para baixo a dianteira de seu auto, abandonando a altura normal da via e saindo na frente de todos os demais veículos em alta velocidade. Ele riu satisfeito com sua manobra precisa até perceber que um vigilante de trânsito voava por cima dele sinalizando para que aterrizasse fora do fluxo das outras aeronaves.

O vigilante se aproximou devagar olhando para Luan com jeito de estar se divertindo:

─ O senhor viu o que fez na via?

Desconcertado por ter sido pego ele respondeu:

─ Claro que sim. Mas eu estava em total controle de meu veículo!

─ Onde você aprendeu a dirigir desta forma?

─ Sou piloto desde criança … dirijo veículos terrestres, naves domésticas e agora estou em treinamento de pilotos para vôos comerciais e fora da atmosfera.

─ Você dirige bem! ─ disse o policial, ainda sorrindo. ─ Mas… não te ocorre que pode encontrar pela frente pessoas com menor habilidade e provocar um acidente grave?

Luan ficou calado. O policial pensou um pouco e decidiu não aplicar nenhuma multa. Mas rabiscou um código em um cartão e o entregou ao jovem motorista. Era uma convocação de comparecimento obrigatório em uma sessão de treinamento em simulador de vôo. Humilhado, Luan abaixou a cabeça, retornou para seu veículo e fez uma decolagem lenta e comportada, voltando para a via.

Ele se considerava um excelente motorista e sempre imaginava como seria bom se todos os motoristas dirigissem da mesma forma que ele, em velocidade e com movimentos precisos. Que bom seria se não existissem motoristas de fim de semana, muitas vezes gente idosa que insistia em viajar usando apenas as rotas automáticas.

No dia marcado Luan compareceu ao centro de treinamento onde foi recebido por uma senhora que o atendeu de modo burocrático. Ela leu o código no cartão, apontou para uma das salas e explicou:

─ Este simulador usa tecnologia de leitura em tempo real de seus padrões cerebrais e musculares. Ele vai se adaptar ao seu modo de pilotar para que você corrija seus maus hábitos no trânsito.

Luan riu sem demonstrar. O que poderia aprender com aquela máquina boba? Ela apenas continuou a explicação:

─ Você fará duas viagens. Na primeira você deve dirigir em conformidade com todas as regras de trânsito, nas velocidades nominais das vias. Os demais motoristas simularão a atitude média dos pilotos de nossa comunidade, incluindo suas habilidades, deficiências e limitações. Em seguida você terá o vôo livre para fazer o que quiser. Pode usar o piloto automático, pode desabilitá-lo. Você decide. A maioria dos demais pilotos se comportarão exatamente como você, de acordo com a leitura prévia que o simulador fará de seus dados biométricos. A sessão será gravada mas não poderá ser usada contra você caso exista algum processo judicial. Alguma dúvida?

─ Nenhuma, ─ ele respondeu, ansioso para começar.

A máquina tinha um formato elegante e sofisticado mas Luan a considerou desconfortável. O espaço era pequeno e repleto de monitores. Em um deles ele escolheu um destino qualquer. Na primeira simulação ele se viu dentro de uma pista comum rodeado por muitos veículos e se sentiu entediado, preso entre tantos autos que viajavam de forma suave, quase todos em piloto automático. A tranquilidade só era ocasionalmente quebrada quando algum motorista mais afoito, provavelmente jovens como ele, passava em alta velocidade. Eles se inseriam em brechas estreitas e forçavam os demais veículos a diminuírem ou aumentarem a velocidade para evitar colisões. Luan descobriu, surpreso, que a maioria dos pilotos nunca ultrapassava a velocidade máxima permitida e o trânsito era, no geral, tranquilo e ordenado. Aliviado ele viu que já se aproximava do destino. Aparentemente nada tinha aprendido com aquela experiência.

Um sinal sonoro informou que estava se iniciando a segunda fase. Imediatamente ele desligou o piloto automático e iniciou a descida, pensado em escolher nova rota. Neste momento um garoto, muito jovem pelo que pode ver à distância, forçou a reentrada na sua frente, tentando chegar antes dele ao solo. Luan foi forçado a freiar de forma abrupta, mal conseguindo evitar a colisão. Atrás dele uma mulher idosa se esforçava para manter o alinhamento da nave com o solo. Para não colidir ela desviou para o lado, atingindo alguém que estava em processo de decolagem. O veículo que partia ricocheteou para o alto, entrando na via repleta de outras naves em alta velocidade.

A cabine do simulador ressoou com um estrondo forte. Houve algumas explosões, por certo muita gente ferida. Luan desviou o olhar, reafirmando mentalmente que tudo aquilo era apenas uma simulação. A mesma senhora que o havia recebido inseriu a mão na cabine, desligando o aparelho. Depois ela o tirou de dentro do simulador dizendo algumas palavras para o tranquilizar. E disse:

─ É surpreendente o que essas máquinas podem nos ensinar, não?

Luan saiu pensativo. Em seu telefone recebeu o relatório da experiência no simulador: “seriam três pessoas mortas e várias com ferimentos graves”. “E um alto custo material”. Ao final do texto ele leu uma nota em negrito: “98% de chance de que o paciente aprendeu a sua lição!”

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