Um Laço no Tempo


“Tempo e espaço são modos pelos quais pensamos e não condições nas quais vivemos.
A distinção entre passado, presente e futuro é só uma ilusão, ainda que muito persistente.”

Albert Einstein.

Existe no universo uma linha de eventos incomum, no sentido de extraordinária ou rara. Em algum lugar no tempo e do espaço alguém conseguiu emitir partículas que atingiam um detector microsegundos antes de sua emissão. Muitos não acreditaram, como ainda não acreditam, na possibilidade desses saltos temporais, e argumentaram que simplesmente “não se vê todo dia a chegada de viajantes do futuro”.

No entanto, e apesar do descrédito entre seus pares, a pessoa conseguiu aperfeiçoar seu experimento transferindo por intervalos de tempo mais separados objetos cada vez maiores. Incapaz de detectar esses objetos nas regiões intermediárias entre a emissão e a detecção ela criou a hipótese de que eles estavam viajando por regiões “interstícias” do espaço, fora ou além das quatro dimensões tradicionais. Pelo menos foi esse o nome e o conceito que ela usou.

Pouco tempo se passou, de acordo com sua própria contagem, até que ela conseguiu transferir microorganismos, depois pequenos animais. É claro que alguém com tamanha curiosidade e engenho, como poderíamos esperar, não demoraria muito até preparar todo um aparato para mandar a si mesma para o passado.

Por convenção e facilidade de relato a chamaremos de P. Pois P chegou ao mundo, na mesma linha de eventos, mas 40 anos antes da partida. Sem mencionar sua origem ela encontrou e fez amizade com os pais que, como logo percebeu, se conheciam mas se odiavam. Ela foi tomada pela ansiedade: talvez não devesse interferir com o fluxo dos eventos mas a cada dia, quando se aproximava a data provável de sua concepção e nenhum dos dois dava qualquer sinal de interesse pelo outro, mais crescia sua angústia.

P tentou se aproximar dos jovens enaltecendo, um para o outro, as figuras daqueles que teriam que gerá-la. Por infortúnio ela usou termos impróprios para aquele tempo, provocando maior antipatia e rejeição entre os dois. A situação se tornou irremediável. Não havia tempo para reconstruir um estado de coisas favorável pois, mesmo que os pais se relacionassem e tivessem um filho, este filho não seria P. Portanto, na narrativa dessa linha, P não nasceu. O mundo e sua história se bifurcaram. Desesperada ela tentou retomar sua vida na mesma linha de mundo de onde havia saído. Desapontada descobriu que não conseguiria, naquela época, equipamentos com tecnologia adequada. Sua tentativa foi um fracasso e P desapareceu em algum lugar e algum momento.

Portanto existe na história um laço de um único indivíduo que nasceu, cresceu e deixou de existir após voltar até os momentos anteriores à sua infância. O primeiro universo, onde deveriam existir pessoas que conheceram e sentiam saudades de P, existiu durante o laço, o intervalo entre seu nascimento e fim. Um novo universo, que ela apenas visitou, surgiu em consequência.

Não é improvável que o mesmo tipo de coisa tenha ocorrido novamente, algumas ou muitas vezes. Também não é difícil imaginar que visitantes do futuro destruam o seu passado, por um ou outro motivo. Talvez será esse mesmo o motivo para não recebermos com frequência “visitantes chegando do futuro”.

Há quem diga que, em outra linha de mundo, P nunca viajou para o passado. Ela teria, eles defendem, se enviado para o futuro. Nesse caso não haveria quem relatasse o ocorrido e, sendo isso verdade, esse conto pode ser seguramente ignorado.


7 comentários sobre “Um Laço no Tempo

    • Rs… Até pode ser uma explicação. Se viagens no tempo desviam o universo de sua linha-mundo original então nunca veremos um viajante temporal.

  1. Muito bem, Guilherme, fiz uma citação no meu trabalho acadêmico de sua autoria (“a matemática serve para descrever o mundo de uma forma rigorosa e precisa. Ela é uma linguagem, uma parte essencial na formação de modelos.”), tô aqui atrás do seu nome completo para referenciar, mas não tô encontrando. Me ajude, please!

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