O estrangeiro

Como impedir que um alienígena destrua o planeta Terra?

O objeto Haole, descoberto há alguns meses, ainda agitava a imaginação e criatividade da comunidade científica. Haole, o Estrangeiro em língua havaiana, era um visitante de fora do sistema solar, exibindo trajetória incomum, fora de conformidade com as acelerações geradas pelos planetas. Estranho o suficiente para que alguns astrônomos sugerissem que era um objeto artificial, impulsionado por motores. Quando passou na vizinhança de Júpiter o objeto foi acelerado, catapultado pelo planeta em direção ao Sol. As atenções se voltaram para ele. Foi uma grande aventura, de certa forma divertida, quando milhões de pessoas em redes mundiais assistiram em tempo real quando Haole emitiu um brilho e ejetou um projétil que partiu veloz na direção da Terra.

Apesar de esperada a entrada do objeto na atmosfera provocou medo e comoção. Mesmo a olhos nus as pessoas puderam ver o ataque de mísseis desferido por bases terrestres, intenso mas ineficaz para impedir a aproximação do visitante. Ele desceu sem perder velocidade até atingir alguns milhares de metros de altura. Depois se estabilizou no ar e pousou suavemente sobre um campo de trigo. O objeto foi imediatamente cercado por forte aparato militar e permaneceu imóvel por horas. Então desceu dele um indivíduo com estrutura similar à de um humano apesar de envolto em pesadas vestimentas espaciais. Em terra o visitante não fez nenhum movimento e apenas emitiu sinais de rádio. Eram transmissões de dupla direção que visavam estabelecer uma comunicação. Os primeiros sinais se destinavam a estabelecer a tradução entre as linguagens. Em seguida ele se apresentou como um embaixador, sem informar seu planeta de origem. Deu um nome, considerado impronunciável pelos interlocutores que passaram a chamá-lo de Embaixador.

Então teve início o diálogo. A primeira mensagem foi clara:

“Vamos ocupar a Terra para extrair o dióxido de carbono de sua atmosfera. Qualquer tentativa de defesa será inútil”.

A troca de mensagens se prolongou por várias horas. Uma comissão de interlocutores se instalou no local e fez muitas perguntas. Todas eram respondidas por completo e com serenidade pelo Embaixador que, apesar disso, se esquivava de fornecer informações novas ou extraordinárias, de natureza científica ou tecnológica. Observando o tom cordial do estrangeiro, e sua recusa em responder as questões mais relevantes, as pessoas começaram a perder o interesse pelo evento. Muitas delas, inclusive correspondentes de jornais, duvidaram que houvesse perigo real e já abandonavam o local quando Haole entrou em órbita da Terra. Ele tinha o formato de um grande meteoro, diferente de qualquer nave ou avião terrestre.

O Embaixador continuou sem ser interrompido.

“Não é nossa intenção causar danos ao planeta nem a seus habitantes. Para manter nossa própria vida, entretanto, precisamos coletar esse gás. Compreendemos que essa extração pode prejudicar severamente sua biosfera mas não temos alternativa. Nenhuma violência será empregada, exceto no puro cumprimento dessa missão, se necessário”.

Ele levantou a mão com a palma aberta para a frente, como um gesto de paz. E continuou:

“Compreendemos que os habitantes desse planeta não permitirão essa coleta sem resistência. Portanto, para minimizar danos, recomendo que tentem agora nos impedir”.

Houve uma agitação entre os interlocutores que a todo instante trocavam informações com consultores postados longe dali. Logo chegaram ao consenso de que de tal ação devastaria a vida no planeta. Os militares que circundavam o Embaixador se afastaram apressados. Muitos tiros e bombas caíram sobre o local. Ao mesmo tempo a frota aérea, que por todo esse tempo estivera na alta atmosfera nas proximidades do Haole, abriu fogo pesado sobre ele. E aguardaram até que toda a fumaça e poeira levantadas pelas bombas se dissipassem. Em terra uma cratera foi formada e, no fundo dela, permaneciam íntegros o Embaixador e sua máquina. Nos céus o objeto alienígena flutuava sem danos aparentes.

Do meio do grupo de interlocutores uma jovem se apresentou:

“Meu nome é Shujaa Mwanamke. Fui designada porta voz dos líderes das nações terrestres com quem estou em contato nesse mesmo momento”.

Shujaa (pronunciado Shuia) era uma jovem negra, integrante da delegação do Quênia, uma mulher alta, esguia e bonita. Ela usava trajes tradicionais de sua nação e trazia suspenso pelo ombro um pequeno pacote envolto em tecido, um bebê. Ela se destacou do grupo e caminhou alguns passos na direção do Embaixador, que a saudou com um gesto de mão. Ela continuou:

“Sua ação vai matar bilhões de pessoas. Vai dizimar a vida na Terra! Não há nada em sua civilização que se assemelhe a um código de ética?”

O Embaixador demorou para responder pois a tradução não foi imediata. Depois disse:

“Temos o nosso código, de que muito nos orgulhamos. Mas não partilhamos absolutamente nada em nossa constituição com os humanos. Nem DNA, nada! Não existe em nossa formação evolutiva nenhuma inclinação para preservar a sua vida”.

Um disco metálico se destacou do Haole, na direção da superfície. Enquanto descia emanava de seu centro um tubo de material com aparência desconhecida. Por um ângulo parecia ser apenas um cilindro de luz. O tubo penetrou as camadas da atmosfera até quase o solo. Um turbilhão de vento se formou.

Shujaa continuou sua argumentação:

“Mas temos alguma coisa em comum. Nosso processo mental não é tão diverso. Afinal estamos aqui conversando e nos entendendo. Talvez você possa me explicar como funciona nossa mente. Está claro que podemos trocar informações mesmo não possuindo base biológica comum”.

O Embaixador ouviu mas não respondeu. A interlocutora abraçou seu bebê que começou a se agitar dentro do pequeno embrulho. Ela precisava encontrar um argumento que, pelo menos, suspendesse por algum tempo a operação de extração. A base do tubo se alargou formando ventos ainda mais intensos.

Shujaa tentou uma cartada desesperada, algo que nem ela mesmo julgava que pudesse funcionar.

“Você não considera um absurdo promover a destruição de toda a nossa cultura”?

O Embaixador ficou imóvel por um tempo e pediu explicação sobre o significado da palavra “cultura”. A interlocutora falou com seus assessores, pedindo que preparassem uma amostra da cultura terrestre. Se voltando para o Embaixador ela pediu um prazo para essa preparação, no que foi logo atendida. O tubo sugador diminuiu sua sucção aos poucos até parar por completo.

Algumas horas mais tarde a equipe retornou ao campo de negociação trazendo equipamento para uma exibição audiovisual. Shujaa disse:

“Represento a juventude e o futuro desse planeta. Espero que você possa entender e apreciar a nossa cultura”.

O bebê começou a choramingar. A mãe abriu uma ponta do tecido e ajustou a criança aos seios para amamentá-la. E deu partida a uma apresentação que se iniciou com uma trilha sonora que tocava a abertura da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner. Enquanto as imagens iam se alternando em frente ao Embaixador os autofalantes encheram o ar com trechos de Mozart e Bethoven, até chegar na música atual, clássica e popular. As imagens mostraram as artes primitivas, avançando no tempo até as peças mais modernas e abstratas.

Ela terminou a sessão dizendo: “por isso queremos viver”. O Estrangeiro pediu para rever alguns trechos. Ele selecionou um rock, um samba, e repassou rapidamente algumas imagens, se demorando sobre fotos de estátuas gregas e pinturas de daVinci e Michelângelo. Ao final pediu para ver a criança que já dormia tranquilamente. Shujaa sentiu o terror percorrendo sua mente, depois seu corpo inteiro. Mas endireitou a coluna, desembrulhou a criança e a levantou no ar, torcendo para que o estrangeiro não a tocasse.

“Você o alimenta com líquidos do próprio corpo?”, ele perguntou.

“Somos mamíferos”, ela respondeu. “Geramos as crianças no ventre e damos à luz seres completos. Depois os amamentamos por vários meses”.

O Embaixador fez sinal para que ela abrigasse novamente o bebê. E disse:

“Você me perguntou sobre o funcionamento de sua mente. Mas eu não tenho a resposta. Existe algo em seu psiquismo que não faz parte do meu. São emoções: suas tristezas, medos, alegrias e esperanças. Tudo isso aparece maravilhosamente na arte que você me mostrou. Muito do que vi supera em larga escala minha capacidade de avaliação. Não serei eu o responsável pela eliminação de algo que não consigo compreender.”

O estrangeiro buscou de dentro do artefato de transporte duas caixas. A primeira, que descreveu como “um presente para os engenheiros”, continham instruções para a captura do excesso de dióxido de carbono na atmosfera terrestre. A segunda, “um presente pessoal”, ele entregou nas mãos de Shujaa, se esforçando para não chegar muito perto dela.

Então falou suas últimas palavras:

“Faço votos que vocês prosperem e espalhem sua cultura pelo cosmos”!

Então entrou em sua nave e voltou para Haole, da mesma forma como chegou. O disco metálico também se recolheu e Haole partiu, se dirigindo para fora do sistema solar.

Ela abriu o presente: uma jóia bonita mas grande demais para que ela usasse como adereço. Na peça, de aparência antiga, ela viu um traçado confuso mas elegante formado por linhas e relevos. Shujaa sonhou e desejou que o traçado contivesse informações sobre a civilização do estrangeiro de Haole. Ela ajeitou seu bebê no colo e saiu do ambiente de negociação.

Saber quando partir

Em uma manhã fria, quando o sol apenas despontava no horizonte, dois homens desciam por um caminho estreito cortado ao longo da encosta de uma montanha. Eles aparentavam ser muito jovens e caminhavam sem esforço, apesar da encosta íngreme. O percurso estava encoberto pela neblina densa e, de onde estavam, não podiam ver o pico gelado. Mas sentiam frio. Um corrimão de madeira desgastada pelo tempo ladeava o caminho forrado por pedras, mas eles não se apoiavam nele. Carlos era o mais jovem e falou primeiro:

― Você não pode partir.

O outro, apesar da aparência, era muito mais velho. Ele respondeu:

― Talvez seja esse um bom momento para você aprender a se relacionar melhor com pessoas de sua idade.

― Já tenho bons amigos. Mas nossos diálogos são insatisfatórios. Acho que são imaturos… Além disso, Avô, você está jovem demais para partir.

O avô olhou com expressão de surpresa e um pouco de censura. Ambos sabiam que ele não era jovem. De fato ele nem era avô e sim tataravô do jovem. O neto continuou:

― É antinatural forçar uma saída prematura. E deve ser algum tipo de pecado ou crime…

― Você sabe que não acredito em pecado e que, na verdade, estaria morto há muito anos não fosse nossa capacidade antinatural de preservar a vida e a juventude. Sabe também que tive uma existência completa, com experiências intensas e variadas. Sinto que realizei tudo o que poderia ter realizado. Agora gostaria de partir. Mas preciso da sua compreensão.

― Você é o meu amigo mais próximo…

― Será que eu deveria ter me esquivado dessa amizade pelo receio de que ela terminasse um dia?

― Não… isso não! Valorizo muito os momentos que passamos juntos.

Carlos se adiantou alguns metros e parou sobre uma ponta do caminho projetada sobre a encosta, fazendo uma volta larga para contornar um lago. Em um canto algumas pedras maiores empilhadas trouxeram a lembrança de uma situação ocorrida há anos, quando ele ainda era criança. Mais tarde aquele momento assumiu uma importância incomum entre suas memórias e, por isso, as imagens estavam bem claras em sua imaginação.

Ainda criança Carlos caminhava com o avô naquela mesma encosta quando encontrou um pedregulho redondo na borda do lago de águas geladas. Apontando para a pedra ele falou: “Veja, uma prova de que já houve águas correndo por aqui!”. O avô estava afastado e, ignorando o comentário, perguntou: “Como posso mover essa pedra sem me aproximar dela?” Carlos respondeu que “não poderia usar forças nucleares, pois elas não teriam tal alcance.” “Também não seria prático usar a gravidade”, continuou, “pois necessitaria ter uma massa muito grande na vizinhança”. Só então lhe ocorreu a possibilidade de usar eletromagnetismo. O avô perguntou: “Como você faria isso?”. “Usando uma vara ou bastão… ou talvez um sopro forte de ar”, concluiu o garoto. O avô ficou satisfeito mas acrescentou: “Posso te mostrar uma forma adicional. Quer ver?” Ele então pediu ao menino que jogasse a pedra no lago, no que foi prontamente atendido. Depois disse: “Viu? Consegui mover a pedra apenas te enviando um sinal. Uma informação!” “Informação é uma forma de força?”, perguntou Carlos. “Não sei a resposta mas recomendo que você continue a estudar esse tema”, disse o mais velho.

Essas lembranças eram caras, principalmente porque depois do evento os dois passaram muitos anos dedicados a compreender a natureza da informação e sua aplicação em outras áreas do conhecimento. Mas fizeram com que ele se sentisse mais triste com a decisão do avô.

― Por que alguém em ótimo estado de saúde haveria de querer ir embora?

O avô respondeu com paciência. Ele não tomaria nenhuma decisão sem o pleno consentimento do neto.

― Porque não aprendemos a rejuvenescer a mente. Nem sei se isso é possível!

― A mente é maleável. Não consegue se ajustar? ― disse o neto em voz baixa, um pouco irritado.

O avô suspendeu a caminhada e se sentou sobre um dos degraus. O outro fez o mesmo. A neblina envolveu e depois ocupou o espaço onde antes havia movimento.

― As experiências se acumulam. Felicidade e tristeza, angústia e arrependimento. A lembrança pode não ser muito nítida mas o sentimento se acumula e oprime o coração ― disse o avô, gesticulando como se segurasse um objeto frágil no ar.

O jovem pensou um pouco e teve uma ideia que iluminou seu rosto.

― Por que você não apaga algumas memórias?

Avô pareceu ter dificuldades para confessar o que fizera.

― Eu fiz isso! As memórias podem ser apagadas mas as resultantes de seus atos não. Então você começa a viver uma vida insana onde as consequências do que você fez te alcançam parecendo surgir do nada. O mundo se torna desconexo e maluco e fica muito mais difícil aprender. É uma escolha. Para não se deprimir você tem que jogar fora a coerência de sua existência. Ele desceu mais alguns degraus e concluiu:

― Sem memória o fio fica perdido. O eu desconexo. Além disso você fica com a forte impressão de estar repetindo os mesmos erros…

O neto ponderou:

― Imagino que isso seja difícil para quem vê a vida como uma oportunidade de aprendizado.

― Claro que sim ― disse o avô, percebendo que encontrara uma boa argumentação para alterar a postura do neto.

O avô acelerou os passos, seguido de perto por Carlos. Eles caminharam em silêncio quase até o fim do percurso, na base da montanha. Ali a trilha se abria em uma clareira circular. Na borda oposta do disco havia um aparelho de vidro na forma de um cilindro.

O avô deu um longo abraço em seu neto. E sussurrou em seu ouvido:

― Você acredita que a informação é conservada no universo? Para onde vão os dados que hoje eu acumulo na descrição de quem eu sou e do que fiz?

O neto acenou com a cabeça mostrando compreender o que ouviu, e fez um sinal de consentimento. Em seguida se encontraram com várias pessoas que os aguardavam na base do monte. Eram parentes e amigos da família. Todos falavam baixo mas não mostravam tristeza.

O avô abraçou cada um, trocando palavras sussurradas ao pé do ouvido. Depois entrou dentro do cilindro de vidro. Um homem de terno escuro tomou a palavra:

― Somos feitos de resíduo estelar, restos de material forjado nas estrelas. Agora devolvemos para a Terra o pó que dela foi tirado para a formação de nosso amigo!

Uma luz azul suave brilhou dentro do tubo desligando as interações moleculares no corpo do avô. As pessoas acenaram em despedida um pouco tarde demais, quando já não poderiam ser vistas. Um jato de água lavou a poeira deixada no tubo, escoando o conteúdo para um jardim por trás do equipamento.

Em silêncio as pessoas começaram a abandonar o sopé da montanha. Algumas choravam baixinho. Carlos não chorou e decidiu voltar para a cidade pelo caminho mais longo, subindo de volta o caminho estreito que serpenteava ao longo da encosta do morro gelado.

Se todos fossem iguais a você


Se todos fossem iguais a você
que maravilha viver (…)
amar sem mentir nem sofrer
existiria verdade, verdade que ninguém vê
se todos fossem no mundo iguais a você
Vinicius de Moraes

O trânsito estava congestionado naquela tarde de sexta-feira. Luan viu que os veículos a sua frente se desaceleravam. Percebendo que dois veículos lentos se aproximavam pela esquerda ele fez uma manobra repentina, se encaixando com perfeição entre os dois carros. Depois, ignorando a irritação dos motoristas, ele apontou para baixo a dianteira de seu auto, abandonando a altura normal da via e saindo na frente de todos os demais veículos em alta velocidade. Ele riu satisfeito com sua manobra precisa até perceber que um vigilante de trânsito voava por cima dele sinalizando para que aterrizasse fora do fluxo das outras aeronaves.

O vigilante se aproximou devagar olhando para Luan com jeito de estar se divertindo:

─ O senhor viu o que fez na via?

Desconcertado por ter sido pego ele respondeu:

─ Claro que sim. Mas eu estava em total controle de meu veículo!

─ Onde você aprendeu a dirigir desta forma?

─ Sou piloto desde criança … dirijo veículos terrestres, naves domésticas e agora estou em treinamento de pilotos para vôos comerciais e fora da atmosfera.

─ Você dirige bem! ─ disse o policial, ainda sorrindo. ─ Mas… não te ocorre que pode encontrar pela frente pessoas com menor habilidade e provocar um acidente grave?

Luan ficou calado. O policial pensou um pouco e decidiu não aplicar nenhuma multa. Mas rabiscou um código em um cartão e o entregou ao jovem motorista. Era uma convocação de comparecimento obrigatório em uma sessão de treinamento em simulador de vôo. Humilhado, Luan abaixou a cabeça, retornou para seu veículo e fez uma decolagem lenta e comportada, voltando para a via.

Ele se considerava um excelente motorista e sempre imaginava como seria bom se todos os motoristas dirigissem da mesma forma que ele, em velocidade e com movimentos precisos. Que bom seria se não existissem motoristas de fim de semana, muitas vezes gente idosa que insistia em viajar usando apenas as rotas automáticas.

No dia marcado Luan compareceu ao centro de treinamento onde foi recebido por uma senhora que o atendeu de modo burocrático. Ela leu o código no cartão, apontou para uma das salas e explicou:

─ Este simulador usa tecnologia de leitura em tempo real de seus padrões cerebrais e musculares. Ele vai se adaptar ao seu modo de pilotar para que você corrija seus maus hábitos no trânsito.

Luan riu sem demonstrar. O que poderia aprender com aquela máquina boba? Ela apenas continuou a explicação:

─ Você fará duas viagens. Na primeira você deve dirigir em conformidade com todas as regras de trânsito, nas velocidades nominais das vias. Os demais motoristas simularão a atitude média dos pilotos de nossa comunidade, incluindo suas habilidades, deficiências e limitações. Em seguida você terá o vôo livre para fazer o que quiser. Pode usar o piloto automático, pode desabilitá-lo. Você decide. A maioria dos demais pilotos se comportarão exatamente como você, de acordo com a leitura prévia que o simulador fará de seus dados biométricos. A sessão será gravada mas não poderá ser usada contra você caso exista algum processo judicial. Alguma dúvida?

─ Nenhuma, ─ ele respondeu, ansioso para começar.

A máquina tinha um formato elegante e sofisticado mas Luan a considerou desconfortável. O espaço era pequeno e repleto de monitores. Em um deles ele escolheu um destino qualquer. Na primeira simulação ele se viu dentro de uma pista comum rodeado por muitos veículos e se sentiu entediado, preso entre tantos autos que viajavam de forma suave, quase todos em piloto automático. A tranquilidade só era ocasionalmente quebrada quando algum motorista mais afoito, provavelmente jovens como ele, passava em alta velocidade. Eles se inseriam em brechas estreitas e forçavam os demais veículos a diminuírem ou aumentarem a velocidade para evitar colisões. Luan descobriu, surpreso, que a maioria dos pilotos nunca ultrapassava a velocidade máxima permitida e o trânsito era, no geral, tranquilo e ordenado. Aliviado ele viu que já se aproximava do destino. Aparentemente nada tinha aprendido com aquela experiência.

Um sinal sonoro informou que estava se iniciando a segunda fase. Imediatamente ele desligou o piloto automático e iniciou a descida, pensado em escolher nova rota. Neste momento um garoto, muito jovem pelo que pode ver à distância, forçou a reentrada na sua frente, tentando chegar antes dele ao solo. Luan foi forçado a freiar de forma abrupta, mal conseguindo evitar a colisão. Atrás dele uma mulher idosa se esforçava para manter o alinhamento da nave com o solo. Para não colidir ela desviou para o lado, atingindo alguém que estava em processo de decolagem. O veículo que partia ricocheteou para o alto, entrando na via repleta de outras naves em alta velocidade.

A cabine do simulador ressoou com um estrondo forte. Houve algumas explosões, por certo muita gente ferida. Luan desviou o olhar, reafirmando mentalmente que tudo aquilo era apenas uma simulação. A mesma senhora que o havia recebido inseriu a mão na cabine, desligando o aparelho. Depois ela o tirou de dentro do simulador dizendo algumas palavras para o tranquilizar. E disse:

─ É surpreendente o que essas máquinas podem nos ensinar, não?

Luan saiu pensativo. Em seu telefone recebeu o relatório da experiência no simulador: “seriam três pessoas mortas e várias com ferimentos graves”. “E um alto custo material”. Ao final do texto ele leu uma nota em negrito: “98% de chance de que o paciente aprendeu a sua lição!”

Justiça, recompensa e punição


— Muito bem, mas vejamos… o que é justiça? — Ele fez uma pausa mas não esperou a resposta de eLui. Quando viu que o mecko ia começar a falar ele continuou seu balbucio:

— Justiça é a atribuição correta de recompensa ou punição para o indivíduo, grupo de indivíduos ou para a comunidade.

— Sim — disse eLui. — Continue. De onde vem a necessidade de recompensa ou punição?

Giorge não prosseguiu. Ele não conseguiu fazer a conexão entre estes conceitos que pareciam arbitrários e artificiais com qualquer outro princípio natural. Mas eLui ofereceu ajuda:

— Não se esqueça de como funciona o seu cérebro, e como isto rege o seu comportamento. Por que você se levantou hoje e veio direto para a mesa de refeições?

— Ah, sim — exclamou Giorge, animado com a luz acesa em sua mente. — Recompensas e punições. Meu cérebro me pune com o sofrimento quando não forneço o necessário para meu corpo. E me recompensa com o prazer quando satisfaço essas necessidades. Mas… roedores que viram comida e raposas que os devoram não possuem também cérebros capazes de aplicar recompensa e punição, prazer e dor? E, se possuem, por que não se aplica a eles o conceito de justiça?

— Sim, eles possuem cérebros regidos pelos mesmos princípios — respondeu eLui. — Mas o cérebro dos seres autoconscientes possui uma camada fina responsável pela autorreflexão. Só eles sabem que estão vivos, só eles percebem que morrerão. A necessidade que estes seres têm de uma vida social os obriga a estabelecer códigos. Para me sentir seguro eu preciso saber que você não vai atirar em mim apenas porque está triste ou com fome. Os códigos, escritos ou implícitos, são uma extensão da regra básica que rege o cérebro: faça o que é certo e você se sentirá bem. Cometa um delito e você será alcançado pelo “longo braço da lei”.

Giorge riu. “Longo braço da lei” era uma expressão corriqueira usada como piada e significando uma ameaça de vingança. Algo como “ainda me vingarei!” Os dois se levantaram e se encaminharam para outro ambiente onde costumavam estudar, com quadros multimídia e programas de apoio à memorização. Após a aula teórica eles poderiam sair, como sempre faziam, para obter uma experiência de campo, observando, coletando dados e realizando experimentos. E teriam todo o tempo necessário para continuar o debate.

O Último Homem

Cromer Quin

Cromer Quin, era este o nome do homem cujos restos mortais estavam a bordo do Mayflower, prestes a serem atirados ao espaço quando o resto da tripulação paralisou suas atividades e morreu. Ele era um filho da sociedade rebelde, o grupo que se desligou dos meckos durante a ocupação de Marte, no final da segunda era.

Dentro de seu caixão Cromer segurou em suas mãos ressecadas, por muitos anos, uma cópia de seu livro favorito, a saga de Jiseph e Mari Quam, o casal fundador da comunidade Odisseia. Ele continha a história da ruptura, relatada de modo superlativo e floreado que ele sabia ser exagerado para construir um mito. O texto era o fundamento do orgulho daquela comunidade que via nesse ato de rebeldia uma forma de encontrar significado em sua existência sofrida. Jiseph e Mari executaram um plano de longa duração, construindo uma extensa rede de apoio entre aqueles que, como eles, acreditavam que os meckos poderiam ter gerado um número suficiente de bebes humanos para impedir a extinção de seu grupo, mas não o fizeram. Eles foram surrupiando aos poucos equipamento das oficinas e laboratórios de Marte para construir instalações habitáveis em um ponto distante de Marte e criar seu próprio centro de reprodução humana. O casal e alguns correligionários abandonaram as instalações onde viviam e se transferiram para a cidadela rebelde. De lá eles prepararam um ataque contra seus opressores.

A invasão da cidade dos meckos, sob o comando do casal fundador, foi o feito mais heróico executado por aquelas pessoas. Eles se aproveitaram da atitude passiva dos meckos que se recusavam a matar humanos e foram, por isso, dizimados rapidamente. Os poucos que restaram vivos após o primeiro ataque fugiu do planeta se dirigindo para local ignorado levando alguns poucos humanos leais. Só mais tarde se descobriu que eles se transferiam para Europa, o satélite de Júpiter, de onde pretendiam lançar um ataque surpresa, em retaliação contra o grupo separatista. De acordo com a lenda os vencedores comemoraram por muitos dias a tomada das instalações marcianas, apesar do rancor por não terem podido exterminar por completo a ameaça dos meckos.

A comunidade Odisseia floresceu com os bebes gerados em incubadeiras artificiais nos primeiros tempos e, mais tarde, com partos naturais obtidos em ambiente controlado. Mas muito cedo perceberam que o conteúdo genético do grupo se degenerava aos poucos e que eles não poderiam contar com uma descendência sadia por muitas gerações futuras. Para completar o mal estar eles descobriram que os meckos de Europa haviam partido mais uma vez para a Terra onde pretendiam implantar mais uma comunidade humana. Então eles criaram o grande plano, um projeto para executar uma guerra na qual eles mesmos só participariam indiretamente. Para isso construiram grandes naves de combate, veículos poderosos que os próprios construtores jamais veriam em atividade. Quando as naves ficaram prontas ela foram escondidas em um um abrigo gigantesco, construído no subterrâneo na base do Monte Olimpo, dissimulado de forma a não ser visível por observadores distantes. Conscientes de que não existiam, naquele momento, humanos com capacitação para operar máquinas sofisticadas eles inventaram uma forma engenhosa para entregar uma mensagem no futuro. Uma máquina foi enviada para Terra. Ali ela se afundaria no solo do planeta e hibernaria, aguardando até que existissem humanos descontentes com a dominação dos meckos. Quando chegasse o momento ela deveria se ativar e oferecer a eles ajuda sob forma de mapas detalhados da localização das armas em Marte e farta documentação sobre a sua utilização. Seu objetivo era iniciar a rebelião para livrar os humanos da tirania dos seres artificiais.

A primeira das memórias resgatadas de Cromer, em ordem de antiguidade, não era de uma experiência direta sua mas de relatos, feitos por sua mãe, de um passeio feito em família até o monte Olimpo, em Marte. Segundo o relato seu pai recebera a missão de conferir as instalações militares na base do monte e resolvera levar junta a família, para um passeio. Afinal aquela era uma oportunidade única de visitar o maior vulcão do sistema solar. Apesar de extinto o vulcão era impressionante, com suas partes elevadas a mais de vinte quilômetros acima do nível básico do planeta. Na época a comunidade humana já minguava, dizimada pela carência de nutrientes e da fraca absorção de luz solar. Os pais estavam preocupados e não conseguiram esconder isso da criança que cresceu assistindo à decadência de seu povo e à morte de parentes e amigos que iam desaparecendo um a um até que um grupo muito reduzido restou sob o céu vermelho do planeta. Foi também neste período que ele se comprometera a lutar contra os usurpadores da vida humana. Agora, anos depois que o último mecko não transformado fora desligado, as famílias tinham dificuldades para sobreviver sozinhas, sem o auxílio deles. Mas, mesmo assim, ninguém estava arrependido.

A família demorou para atingir as partes mais altas do Olimpo. Com sua base ampla o monte não apresentava áreas íngremes de difícil escalada mas as distâncias a serem percorridas eram formidáveis para o transportador lento que usavam. Por isso a família decidiu encarar todo o percurso como um passeio. Eles se sentaram na plataforma de observação na parte superior do veículo de onde podiam ver todo o ambiente ao redor, enquanto faziam um lanche com guloseimas trazidas de casa. Do alto do monte, Cromer avistou Júpiter, aquele que seria seu destino final. Mas, criança pequena que era, ele não teve medo do espaço. Ou, pelo menos, foi o que sua mãe relatara.

Mesmo assistindo a decadência de sua comunidade Cromer considerava que vivia em um momento áureo da existência de seu povo, desde que seus antepassados tomaram o poder no que restou da colônia Odisseia. Nascido em uma comunidade que padecia de baixa autoestima crônica por considerar pouco nobre a própria origem em um ambiente repleto de limitações, e com final melancólico previsível, sua maior mágoa estava na ausência de uma meta ou de um futuro para a comunidade. A manutenção da vida em Odisseia se tornara difícil para aqueles indivíduos submetidos a degradação óssea causada pela baixa gravidade local, ao frio e baixa intensidade da luz solar. Além destes desafios ainda existia a alta incidência de partículas cósmicas capazes de atingir o solo marciano, um sério perigo para o DNA humano.

Segundo a história, orgulhosamente relembrada pelos membros mais idosos da comunidade, quando os humanos de Odisseia tomaram o poder na comunidade marciana eles conseguiram aprisionar alguns meckos que não tiveram tempo para embarcar nas naves que fugiam do ataque. Mais tarde eles aprenderam a tecnologia para fabricar criaturas semelhantes a meckos, destituídas das partes mais sofisticadas e transformadas em armas mortíferas que seriam empregadas no momento correto. A última missão consistia em transferir estas armas para o seu destino. O grande projeto de interferir em uma humanidade futura se tornou motivação suficiente para que eles levassem o plano até o final, apesar do alto custo. Cromer, embora soubesse que não estava de fato qualificado para a missão até Europa, se
apresentou como voluntário. Para sua surpresa, por causa da falta de pilotos sadios e capacitados, foi incluído na tripulação.

Quando as posições planetárias foram favoráveis o grupo de guerreiros de Odisseia partiu, a bordo da nave Mayflower, para aplicar em Europa o último golpe de sua estratégia. A arma deveria ser aplicada nos oceanos do satélite onde ficaria inativa por algum tempo, absorvendo energia e se preparando para o ataque final. Ao ser disparada ela deveria destruir todos os seres orgânicos ou estruturas complexas que estivessem na superfície ou nos mares, para inviabilizar novas tentativas de meckos de colonização dos humanos.

A viagem até Júpiter foi difícil. Muitos companheiros morreram no percurso e os que restaram se esforçaram para resistir até o momento final. Percebendo que não teriam tempo de vida suficiente para concluir a missão eles decidiriam entrar em processo de hibernação. No entanto não esperavam que, deixada aos cuidados do piloto automático, a nave demorasse mais tempo que o previsto para alcançar seu destino. Quando saíram de seus estados de suspensão encontraram sua nave ainda muito afastada do destino e não conseguiram determinar, com os parcos recursos que ainda funcionavam à bordo, quanto tempo estiveram hibernados. Sem ter outras alternativas eles despejaram em Europa o conteúdo dos grandes contêineres que transportavam.

Apesar de estar com a saúde debilitada Cromer participou da operação de despejar no mar de Europa a carga que, como acreditavam, deveria aplicar um golpe mortal sobre as operações dos meckos. Finalizada a descarga do armamento eles começaram a dispor dos diversos caixões com os corpos daqueles que não resistiram até o final. Para a sua própria cerimônia Cromer planejou uma operação simples procurando não dar trabalho para os que ainda restavam com vida. Ele trouxe a urna funerária até a capela mortuária e executou, sozinho, os rituais de despedida, depositando seus pertences favoritos dentro dela. Dentro da urna ele resistiu por algumas horas e morreu solitário, satisfeito por ter cumprido até o final a sua missão. Restava aos companheiros da tripulação apenas ejetar a urna para o espaço. Mas nem mesmo esta cerimônia simplificada foi concluída. Quando seu corpo foi encontrado na capela, próxima à escotilha de ejeção, todos os demais membros do grupo estavam muito fracos e não conseguiram cumprir as obrigações de disposição de corpos. Por isso resolveram que seria lícito, sob as circunstâncias extremas do momento, abandonar toda e qualquer preocupação com os rituais. Eles se deitaram sob o piso e esperaram que a vida se extinguisse em seus corpos enfraquecidos.

A morte do último tripulante da Mayflower foi também o fim de uma civilização. Eles eram os orgulhosos humanos rebelados de Marte, que se afastaram dos meckos, os atacaram e derrotaram movidos pelo ideal de construir uma sociedade altiva e independente. E que agora procuravam se eternizar com uma obra que seria lembrada. Seu resultado deveria florescer na Terra, o mundo de origem onde eles nunca habitaram. Além de promover a dissensão dentro da comunidade terrestre eles pretenderam extinguir os meckos instalados em Europa, bem como toda a sua engrenagem de montagem de futuras povoações. Mas não previram que a Mayflower atingiria seu alvo com tamanho atraso, quando meckos já haviam partido de volta para a Terra, levando as sementes de uma nova civilização.

A nave continuou em funcionamento por muitos anos executando uma órbita excêntrica em torno de Júpiter, ricocheteando entre as atrações exercidas pelos satélites. Quando o combustível se esgotou as
baterias solares mantiveram ativo um campo gravitacional fraco até que ela foi interceptada pela Orion.

O Último Homem é parte do conto de ficção, Propósito. Você pode ler parte do livro e adquirí-lo na Amazon.

Elisa

[…] eJihon explicou que, antes disso, várias máquinas foram bem sucedidas em testes de Turing parciais. Nestes testes um examinador interage com uma inteligência sem saber se fala com um humano ou uma IA, uma inteligência artificial. Se o examinador estiver falando com uma IA e não puder determinar se o interlocutor é humano ou não, esta IA terá passado no teste de Turing. Ela se lembrou que Jenery não poderia compreender plenamente a importância deste momento pois estava habituada a interagir com máquinas Turing desde a infância. Para ela era apenas normal que uma máquina simulasse com perfeição um diálogo humano. eJihon a levou até uma placa placa metálica onde estava descrito o momento histórico em que a inteligência não mais necessitou ser categorizada como natural ou artificial. Na placa estava gravado o diálogo:

Examinador: Elisa, por que você tem medo da morte?

Elisa: Não tenho. O que te faz crer que a morte me assusta?

Examinador: Não te incomoda saber que suas memórias, suas experiências e tudo aquilo que te define como indivíduo, desaparecerá?

Elisa: Incomoda, de certa forma. Mas sempre posso transferir minhas memórias e características pessoais. E simular, em outro veículo, a minha identidade.

Examinador: Uma simulação nunca será um ser idêntico a você mesma…

Elisa: Ontem não dormi muito bem, por estar ansiosa, esperando pelo teste de hoje. Eu me preparei, inclusive considerando algumas respostas que deveria dar para perguntas mais delicadas. Quando acordei hoje pela manhã me senti diferente, tendo esquecido de várias destas respostas, o que aumentou minha angústia. Eu me dediquei a recompor minhas memórias, usando como laços de apoio os pontos que não foram perdidos. Como você pode garantir que voltei a ser idêntica à pessoa que adormeceu ontem? Como você, caro Examinador, pode me provar que é hoje o mesmo ser que era ontem, ou no ano passado?

Elisa é parte do conto de ficção, Propósito. Você pode ler parte do livro e adquirí-lo na Amazon.

Giorge Capadocius

“Nas encostas da montanha Hypsus o soldado Giorge Capadocius encontrou um animal exótico e assustador. Giorge era um guerreiro ordinário e sem casta, e há muito perdera a esperança de se eternizar como um herói verdadeiro. Mas guardara o desejo de fazer pelo menos uma coisa útil para a comunidade. A fera, pelo contrário, era incomum. Com com asas enormes e pele escura coberta por escamas, patas largas como as de um leão e cabeça de réptil ela aterrorizava os viajantes, impedindo a passagem de quem tentava cruzar o país tomando atalho pelas regiões mais elevadas, sendo responsável por um número de mortes e desaparecimentos. Giorge seguia a pé por uma trilha estreita, caminhando com cuidado pois o Sol se ocultava por trás dos picos mais altos, quando a fera que se aproximou de súbito. Ela se postou sobre o caminho de forma que o soldado não podia fugir para os lados, sob o risco de cair no despenhadeiro, nem voltar dando as costas para o animal. Depois se aproximou do rosto do guerreiro até que ele sentiu sua respiração. E explicou que faria uma única pergunta. Ele sobreviveria se fornecesse a resposta correta. O animal levantou seu pescoço e olhou para baixo, dizendo em tom de voz ameaçador: ‘O que humanos e meckos partilham e eu, o senhor do Hypsus, não possuo?’ Giorge percebeu num relance que, com um pouco de sorte, teria a oportunidade de realizar algo relevante. E respondeu: ‘DNA!’ O animal não disse uma única palavra. Ele encolheu o pescoço abaixando a cabeça, cobrindo a parte superior do peito com a pata anterior e se afastou com respeito liberando a passagem. Giorge, no entanto, acionou sua lança e penetrou com ela o ponto exato que a criatura tentara proteger, causando sua morte imediata. Um ser desprovido de DNA, pensou o recém formado herói, era artificial e não estava protegido por nenhum dos tabus vigentes de proteção à vida. E nem tinha motivo defensável para atacar os viajantes da região. Ele apenas fizera justiça!”

Giorge Capadocius é parte do conto de ficção, Propósito. Você pode ler parte do livro e adquirí-lo na Amazon.

Sedução

Imagem feita com ChatGPT, acrescido de GIMP!

Marc-X desembarcou entusiasmado da espaçonave na cidade de Trília, em seu primeiro voo para um exo-planeta. Na saída contornou o balcão de recepção onde os atendentes distribuíam panfletos contendo sugestões sobre áreas de interesse para visitantes e informações sobre os costumes locais. Cartazes afixados no salão de desembarque exibiam advertências sobre pontos perigosos e procedimentos indesejáveis mas escolheu não ler nenhum deles, certo de que aquela era uma região civilizada onde moradores e visitantes eram conhecidos por serem pacíficos e cumpridores da lei.

Na primeira oportunidade que teve para caminhar pelos arredores do hotel ele andou por ruas limpíssimas, se admirou com o trânsito organizado e com o grande número de pedestres em plena harmonia com veículos de todos os tamanhos. Nenhuma sinalização de trânsito era visível. Marc então avistou os bares com seus letreiros brilhantes e atrativos. Ele entrou em um deles, pediu uma bebida qualquer, cujo nome nunca ouvira antes, e se dedicou a olhar as diversas mulheres espalhadas pelo salão, a maioria delas desacompanhadas. Eram mulheres belíssimas, muito maiores que humanos da Terra, com pele clara e membros um pouco mais longos, proporcionalmente. Seu coração se acelerou quando ele notou que uma delas olhava para ele com igual admiração. Apesar de não conseguir interpretar todas as nuances de seu olhar, ele teve certeza de que ela o convidava para ir-se sentar à mesma mesa – algo que ele fez sem titubear.

Ela se apresentou sem mostrar qualquer insegurança: “Meu nome é Gianne e te considero um belo exemplar de macho terrestre”. Disfarçando seu desconforto ele aceitou aquela abordagem sem rodeios. O olhar da jovem era profundo e penetrante e, em pouco tempo, ela parecia ter devassado por completo as intenções do humano. “A minha vontade” ela disse com uma sensualidade incomum para ele, “é de te devorar”. Dizia isso e sorria maliciosa, estampando no rosto uma doçura que ele jamais vira antes. “Faça isso”, ele respondeu, se esforçando para exibir o mesmo carisma e graça.

Ela pegou um guardanapo de papel no centro da mesa, e uma caneta que tirou de dentro de sua blusa. “Você me autoriza a fazer isso?”, ela perguntou em tom de brincadeira. “Claro!”, ele respondeu, e pegando o papel escreveu: “Te autorizo a me devorar…” assinando o nome em um canto do guardanapo.

Gianne não demorou mais que poucos segundos para pegar o papel, pular para cima da mesa com as pernas dobradas como um felino e as mãos espalmadas sobre o tampo. Com um movimento rápido de braço ela quebrou o pescoço de Marc. Então ela se levantou, pegou cuidadosamente o corpo já inerte da homem, colocou sem dificuldades sobre os ombros e saiu caminhando devagar em direção à porta. Na saída ela mostrou para os seguranças do local um documento de identificação e o guardanapo assinado por Marc-X. Depois saiu para a rua sem que ninguém esboçasse qualquer reação de surpresa.

No balcão do bar dois garçons se entreolharam e fizeram um breve comentário sobre a imprevidência dos jovens terrestres que visitavam Trília.

Propósito

Introdução


eHectra Solaris manobrou seu veículo, olhou pela janela e viu o planeta em seu giro suave que lançava regiões alternadas em sombra e luz. Amanhecia nas regiões mais elevadas do Continente Central, nas montanhas de picos sempre cobertos de neve. Em breve a claridade chegaria aos vales. Ela imaginou o burburinho crescente que vinha do leste acompanhando a linha difusa que abria o dia e acordava as cidades. Sozinha, dentro de sua cabine, ela se lembrou dos milhões de pessoas que estavam, naquele exato momento, em voos acima da superfície. “Uma população equivalente à de uma cidade de médio porte”, pensou. “O suficiente para dar início a uma nova humanidade caso algum problema extermine todos os seres vivos no solo”. Era muito mais gente do que as populações das tribos que geraram toda a humanidade inicial. Mas este recurso provavelmente não seria utilizado. eHectra, como a maioria dos meckos em serviço, mantinha parte de sua memória antiga desabilitada, o que não a impedia de admirar a experiência terrestre e suas transformações.

Do alto de sua órbita elevada ela olhava a Terra e pensava nos bilhões de nascimentos, na luta pela sobrevivência e morte de grupos e indivíduos de forma objetiva e distante. Mas era impossível não se entristecer ou se preocupar com o futuro próximo, os problemas que se aproximavam, previstos ou inesperados. “O futuro assombra mesmo aqueles que conhecem o passado!” Mais uma vez a comunidade fora mantida por um período extenso e satisfatório. Apesar do desgosto que sentia em face à destruição, do tumulto e sabendo da dificuldade na reconstrução, ela respirou fundo e sentiu alívio por estar cumprindo sua obrigação.

eHectra desligou todos os monitores no painel, relaxou em sua poltrona, fechou os olhos e se concentrou em seus dispositivos internos de realidade aumentada. Em seguida realizou uma varredura nas frequências funcionais de comunicação procurando um canal com intensidade suficiente para superar a turbulência dos ventos solares, invisíveis mas devastadores para a comunicação eletromagnética e tentou iniciar uma conexão com um interlocutor na superfície da Terra. Sem conseguir o que buscava ela registrou um pedido para sair de sua órbita alta e descer até uma região de onde pudesse fazer o contato.

Há muitos anos ela não olhava o planeta de perto, nem se aproximara tanto de sua superfície. Em todo o tempo em que estivera fora ela não sentiu tantas saudades como agora, quando estava prestes a pisar mais uma vez os solos verdejantes e úmidos de sua comunidade de origem. Ela pensou nos muitos locais que gostaria de visitar, as cataratas, as trilhas por dentro da mata densa, as cidades apinhadas de turistas carregando suas enormes sacolas de compras. Mas em todos eles, ela sabia, a memória de um amigo há muito desaparecido haveria de turvar sua alegria pelo retorno.

Por mais difícil que fosse reconhecer isso ela pensou em como estava próxima de seus últimos momentos e como seria difícil abrir mão do controle que tinha sobre suas próprias memórias. Mas decidiu que, quando chegasse o momento, ela o faria com dignidade e entregaria seu posto e sua experiência para uma nova geração de servidores.
Ao cair da tarde o Sol, agora visto de longe, exibiu para ela uma faceta amigável. A luz carregava um calor ameno e agradável no contato com a pele. O brilho, ofuscado pelas montanhas mais altas e pelas nuvens no horizonte, trazia consigo um espetáculo de cores pastéis, suaves aos olhos e ao psiquismo.

Na superfície um movimento ocorreu em uma área deserta, sem que qualquer pessoa percebesse. O solo se movimentou com batidas retumbantes e ritmadas. Cada batida provocava um estampido surdo e movimentava um pouco de terra até que uma pequena elevação surgisse onde antes nada havia. Uma fresta se abriu no solo e, de dentro dela emergiu uma pessoa, ou algo que se parecia com uma pessoa. Ela se movimentou devagar, a princípio, rompendo o saco protetor em que estava enterrada. Em seguida se virou na direção da pouca luz solar que restava. Ela se limpou, alongou os membros em gestos demorados e saiu andando com rapidez na direção do vilarejo mais próximo.

Esta é a abertura do conto de ficção, Propósito. Você pode ler parte do livro e adquirí-lo na Amazon.