Viés de Confirmação e Efeito Dunning-Krueger


Este artigo é continuação de Vieses de cognição, mas pode ser lido independentemente.

Viés de Confirmação

“Ouvimos e apreendemos apenas aquilo que parcialmente já sabíamos”
— Henry David Thoreau
“O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância — é a ilusão de conhecimento.”
— Daniel J. Boors
“A ignorância gera confiança com maior frequência que o conhecimento.”
— Charles Darwin, The Descent of Man.

Como vimos em Vieses de Cognição os processos de percepção e pensamento humano são poderosos mas falhos. Psicólogos estudam esses vieses cognitivos e padrões heurísticos para entender essas falhas e sugerir possíveis correções. Um dos efeitos mais importantes é o chamado viés de confirmação que consiste na tendência de se escolher entre as dados captados no mundo externo apenas aqueles que dão sustentação às nossas crenças. O efeito pode se manifestar em uma mera seleção de tópicos para debate até uma completa rejeição do dado conflitante sob forma de não enxergá-lo, de negá-lo com veemência ou de esquecê-lo. Existe também a tendência a interpretar resultados ambíguos como se fossem favoráveis.

A maioria das pessoas acredita que suas crenças e convicções são racionais, obtidas durante muitos anos de análise imparcial das coisas que são apresentadas, das informações disponíveis. O estudo desse viés mostra que isso não ocorre. Ele é perigoso porque impede que reformulemos nossa visão de mundo em face a dados conflitantes, ou nos leva a avaliar incorretamente nossa limitação e crer que conhecemos muito sobre um assunto porque as evidências todas (que percebemos) parecem confirmá-lo. Nesse último aspecto ele reforça o efeito Dunning-Krueger (de que já trataremos). Esse viés aparece em experiências cotidianas simples ou em elaborados experimentos científicos.

O termo Viés de Confirmação foi proposto pelo psicólogo inglês Peter Wason, em um experimento que ele relatou em 1960. Wason realizou uma série de experimentos onde as pessoas eram requisitadas a encontrar padrões, recebendo gradualmente informações sobres esses padrões. Ele foi um dos precursores no estudo das falhas comuns da racionalidade entre humanos. Teste de Wason.

Cortesia de The Up Turned Microscope

Alguns exemplos

Como mencionado no artigo anterior, existem pessoas que usam sempre a mesma camisa para assistir a uma partida de futebol acreditando que essa atitude facilitará de alguma forma a vitória de seu clube. É claro que essa crença não possui nenhum embasamento lógico, nem pode ser verificada experimentalmente. Mas, ao longo dos meses, seu clube é vitorioso algumas vezes, outras não. A pessoa tende a considerar importante os dias em que o mecanismo obscuro funcionou, e a relevar os momentos em que não funcionou.

Considere que alguém mantém a crença de que pessoas homossexuais são mais criativas do que héteros. Se ela encontra um homossexual altamente criativo esse dado servirá para corroborar e tornar mais forte a sua crença. Provavelmente ela poderá encontrar vários homossexuais com criatividade regular ou até abaixo da média. Mas ela tenderá a ignorar essas observações.

O mecanismo tem uma influência forte em nossa vida social. O debate sobre a liberação de armas para a população, versus uma legislação que restringe a posse de armas, se tornou politicamente envolvente, dificultando muito o atingimento de posições racionais e desapaixonadas. Um defensor do desarmamento tende a buscar, ou a prestar mais atenção, nos casos em que a posse de armas resultou em tragédias e mortes. Alguém do lado oposto coleciona informações sobre eventos onde as armas foram úteis e salvaram vidas.

O viés de confirmação age para aumentar estereótipos e preconceitos. Se você desenvolveu a noção de que pessoas argentinas são arrogantes, cada argentino arrogante que você encontrar reforçará seu preconceito. Os muitos argentinos simpáticos e gentis que você conhecer passarão ignorados e não serão contabilizados em sua contagem de confirmação. O mesmo efeito pode levar um médico a diagnosticar incorretamente um paciente que valorizou mais um sintoma sobre outro, talvez porque já tenha decidido qual é a sua doença.

Muitas vezes, na história da ciência, um fenômeno novo interessante foi observado mas descartado por não ser compreendido. Um pesquisador pode descartar resultados que ele considera absurdos (de acordo com sua crença corrente) julgando que se tratam apenas de erros. Há um problema atual não resolvido com a tendência em não publicar (ou não valorizar) resultados negativos, que poderiam ser instrutivos para a comunidade de pesquisadores.


O efeito de confirmação enviesada tem papel importante nos fenômenos de ilusão de massa. No ano de 1940 em Seattle, EUA, alguns moradores notaram e espalharam a notícia de que estavam encontrando uma quantidade excessiva de perfurações e defeitos nos parabrisas de seus carros, atribuindo o problema a uma causa comum. Proprietários de veículos, naturalmente, verificaram seus próprios parabrisas, muitos deles encontrando defeitos. Muitas teorias surgiram, inclusive a de que os danos eram causados por raios cósmicos. Uma análise da polícia concluiu que 95% dos relatos não passavam de histeria coletiva.

Claro que o mesmo fenômeno age sobre a crença no paranormal e na religiosidade. Um especialista em leitura fria (cold reading), observando as reações das pessoas na platéia despeja uma descrição com extenso conteúdo, quase sempre elogioso. A pessoa que recebe a leitura aceita e recorda os acertos, ignorando os erros do “clarividente”. Um fiel que passou toda a vida rezando para passar em uma prova, para melhorar de uma doença mais ou menos séria, certamente se lembrará das situações em que obteve resultado e “suas preces foram atendidas”.

Recentemente, em 2010, foi descrito o efeito backfire (algo como tiro pela culatra) que é uma radicalização do viés de confirmação e de apego à ideias preconcebidas. Uma pessoa que defende teorias da conspiração, por exemplo a hipótese da terra plana, pode se apegar com mais rigor a suas crenças quando confrontadas com evidências fortes de que está errada. Quando o EUA invadiu o Iraque em 2003 algumas autoridades defendiam que Saddam Russein tinha um grande arsenal de armas de destruição em massa. Incapazes de encontrar essas armas as autoridades se justificaram com espanto sobre a capacidade dos iraquianos esconderem suas armas.

Alguns tópicos em debate, tais como posse de armas e pena de morte, sobre diferenças entra pessoas de grupos étnicos variados ou de gêneros opostos, são muito difíceis de serem resolvidos e um estudo sério à respeito deve envolver uma coleta de muitos dados e análise isenta e rigorosa. É muito difícil que uma pessoa não treinada em pesquisa faça sozinha essa coleta de dados e análise. Por esse motivo é importante entendermos que, embora todos tenham direito a suas opiniões, elas nem sempre são assim tão importantes.

Para a sua consideração: o que você pensa disto?

  • Todos têm direito à suas opiniões e também a obrigação de entender que suas opiniões não são extraordinariamente importantes.
  • Uma análise do viés de confirmação mostra que ele surge principalmente da dificuldade básica do ser humano em avaliar probabilidade e o efeito do acaso.

Sobrecarga de Informações

Com o advento da Internet seria esperado um efeito importante sobre a educação dos cidadãos e sua capacidade de decidir. Uma pessoa bem intencionada pode hoje procurar e encontrar informações sobre qualquer tópico e com o nível de profundidade desejada. Ela pode analisar abordagens e ideologias diferentes, argumentos pró e contra os seus próprios, realizando daí uma dialética saudável e encontrando uma posição esclarecida. Mas isso não se concretizou por dois motivos principais. Primeiro a quantidade de informação disponível está muito acima da capacidade de processamento das pessoas, principalmente alguém sem treinamento e formação básica. Em seguida verificamos que a qualidade da informação não mantém sempre bons padrões. A internet é um meio bastante democrático onde qualquer um pode disponibilizar seu conhecimento mas também despejar seus preconceitos, erros e desinformação.

E se a Terra fosse plana?

Obter um conhecimento sólido em alguma área de estudo sério exige dedicação e sempre uma dose de conhecimentos prévios. Algumas vezes os prerequisitos são eles mesmos complexos e demandam tempo de aprendizado. Nas áreas de exatas a matemática costuma ser um empecilho que nem todos conseguem superar sozinhos. Os excluídos reagem assumindo posições extremas, conspiratórias e negacionistas da ciência.

Alguém que procure se educar pela internet teria necessariamente que buscar um tutor ou cursos bem avaliados, pelo menos para se iniciar no assunto desejado. E o aprendizado sobre as formas de discurso falacioso e de pensamento crítico pode ajudar a estabelecer filtros que eliminem o pensamento enviesado. É o que buscamos fazer aqui, neste site.

Efeito Dunning-Krueger

É curioso que, em muitos casos, a incompetência não deixa as pessoas desorientadas, perplexas ou cautelosas. Pelo contrário, os incompetentes são com frequência dotados de uma confiança inadequada, estimulada por alguma coisa que para eles parece conhecimento.
— David Dunning.

O efeito Dunning-Krueger é outro viés de cognição que faz com que os indivíduos não saibam avaliar o seu nível de expertise em algum assunto. Verifica-se que pessoas que sabem pouco sobre um tópico se consideram especialistas, enquanto os verdadeiros especialistas questionam a profundidade e abrangência de seu conhecimento.
Em 1999 os psicólogos David Dunning e Justin Kruger identificaram o efeito, inicialmente através da consideração do caso de um assaltante de bancos que praticava assaltos com o rosto coberto por suco de limão, na expectativa de estar invisível para as câmeras de segurança. Sua crença se originou do uso de suco de limão como “tinta invisível”. Outros testes confirmaram a existência do efeito, inclusive por meio de experimentos onde pessoas eram treinadas para resolver problemas de lógica. Quanto mais treinadas melhor as pessoas conseguiam avaliar sua competência na solução dos desafios.

Nas palavras de Dunning: “Se você é incompetente você não consegue perceber que é incompetente. As habilidades de que você precisa para encontrar respostas corretas são as mesmas necessárias para reconhecer que elas estão corretas”. Apesar de cometer muitos erros as pessoas julgavam que estavam desempenhando bem nos testes.

Dunning e Kruger realizaram diversos testes com estudantes de graduação em psicologia em níveis introdutórios, testando sua habilidade para avaliarem suas habilidades intelectuais em pensamento lógico, gramática inglesa e senso de humor pessoal. Em seguida os alunos avaliaram suas posições em relação aos colegas de classe. Verificou-se que os melhores alunos não se atribuíram boas classificações bem dentro de sua turma, enquanto os alunos fracos não se viam como mal colocados nesse ranking. Os mais competentes afirmaram não se colocar no topo porque pensaram que as tarefas fáceis (para eles) fossem fáceis para todos.

Em outro experimento Dunning e Kruger pediram a 65 participantes que avaliassem a quanto eram engraçadas diversas piadas. Alguns dos participantes se mostraram péssimos na determinação do que outras pessoas considerariam uma boa piada. No entanto esses mesmos indivíduos se descreveram como bons juízes do humor.

Essa incompetência na autoavaliação pode ter impactos profundos nas crenças individuais, nas decisões e atitudes tomadas. Por exemplo, em testes de qualificação científica os pesquisadores verificaram que mulheres tiveram desempenho idêntico aos de homens, embora se avaliassem como inferiores. Acreditando que homens são mais hábeis no pensamento lógico-científico muitas alunas podem se afastar dos cursos e carreiras científicas ou de competições nessas áreas.

Testes envolvendo a compreensão linguística foram realizados em experimentos que exibiam uma série de termos em áreas como política, biologia, física e geografia. Palavras inventadas eram ocasionalmente inseridas e se perguntava aos entrevistados se eles conheciam os termos. Um dos estudos mostrou que aproximadamente 90% dos entrevistados que afirmaram conhecer um assunto também julgavam compreender as palavras inventadas associadas àquele tema.

O efeito não ocorre apenas em indivíduos com pouca formação, ignorantes no geral ou ingênuas, nem exclusivamente sobre temas técnicos-científicos. A maioria das pessoas possui pontos fracos em sua formação, à respeito de algum assunto. Por mais especializadas que elas possam ser em temas de seu domínio elas poderão exibir esse defeito de cognição. Uma forma relativamente simples de perceber o viés em grupos consiste em reunir pessoas de uma mesma comunidade, com uma base cultural comum e perguntá-los como se qualificam em relação a tópicos de interesse comum. A absoluta maioria delas se classifica como entre os 10 ou 15% dos melhores motoristas, melhores amigos, pessoas mais honestas, trabalhadores mais eficientes, etc, o que é matematicamente impossível.

Dunning e Kruger sugeriram que o efeito é causado por uma “dupla deficiência”. A incapacidade em compreender o assunto em questão também age para dificultar a autoavaliação. Pessoas incompetentes tendem a superestimar a própria competência, ser incapazes de encontrar seus erros e falta de habilidade e não reconhecem a competência de pessoas qualificadas, quando as encontram. As pessoas mais afetadas pelo efeito Dunning-Kruger exibem maior dificuldade com a metacognição, a capacidade de obter uma visão abrangente sobre o próprio comportamento e habilidades.

Por outro lado, indivíduos com altos níveis de realização (em uma determinada área) sabem que estão acima da média mas não sabem se graduar em relação aos demais. Além de conhecer as meandros do tema em que se especializaram, e saber que há muito mais a ser conhecido, eles tendem a julgar que as outras pessoas conhecem tanto quanto eles.

Em 1980 o extraordinário pensador, conhecedor de ciência e escritor de ficção científica Isaac Asimov fez uma observação que parecia antever os tempos de obscuridade e incerteza que vivemos hoje. Ele se referia aos EUA, mas não é difícil traduzir para o espírito de nossa época e nosso país.

“Existe um culto à ignorância nos Estados Unidos, e sempre houve. A tensão do anti-intelectualismo tem sido um fio constante na nossa vida política e cultural, alimentada pela falsa noção de que democracia significa que ‘a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento“.

O que podemos fazer sobre os nossos olhares enviesados?

Mesmo que você seja uma pessoa de mente muito aberta, é útil reconhecer como funciona o viés de confirmação e o efeito Dunning-Krueger. Todos nós apresentamos tendências e inclinações das quais podemos ou não estar conscientes. Entender esse mecanismo e estar atentos para seu funcionamento, fazendo uma metacognição, ou pensar sobre a cognição, pode ser importante para desenvolvermos uma atitude mais isenta.

Na atualidade enfrentamos um desafio social gigantesco (e global) que consiste na radicalização de posições estimuladas pelas mídias sociais. As notícias hoje são dirigidas para o perfil esperado do consumidor da informação. Seu perfil é analisado pelos algoritmos de inteligência artificial e tudo o que você recebe está filtrado pelo que você (e seus amigos, em certa medida) escolheram ver anteriormente. Uma pessoa que gosta de armas verá notícias e propagandas sobre armas e será dirigido para o encontro com outros apreciadores de armas. Sua preferência por um político ou ideologia social será explorada ao máximo, até você achar que a maioria das pessoas concordam com você. Nesse sentido estamos todos sob um processo de manipulação muito mais poderoso do que já estivemos, em qualquer tempo passado.

Psicólogos sociais identificaram duas tendências interessantes, ambas alimentadas por viés de confirmação, na forma como as pessoas buscam ou interpretam as informações que têm de si mesmas. Auto-verificação é o empenho para reforçar a imagem própria, e auto-reforço é a busca por feedback positivo. Nos experimentos as pessoas tendem a não se envolver ou se lembrar daquelas informações que conflituam com suas autoimagens. Eles se esforçam para diminuir o efeito dessas informações interpretando como não-confiáveis. Efeito oposto ocorre quando recebem um feddback positivo.

Compreender o efeito Dunning-Krueger também é importante, particularmente nos dias de hoje, quando as pessoas se consideram especialistas depois de consultar alguns sites na internet. O estudos dos mecanismos psicológicos do autoengano e de como eles podem ser alvos de metacognição podem ajudar. Manter uma mente aberta e disposição para novos aprendizados é essencial. Você pode pedir a avaliação de terceiros desde que, é claro, encontre pessoas que conheçam o tema onde você deseja ser avaliado. E, finalmente, você deve manter um postura de questionar o que conhece. Uma dose de ceticismo é necessária, junto com o esforço para escapar do viés de confirmação e busca por informações que contradigam seu paradigma mental e suas crenças.

Adendo: O Teste de Wason

Apenas como uma ilustração segue o teste de Wason usado para testar competência de seus sujeitos (as pessoas testadas). No estudo original, feito em 1966, apenas 10% dos testados acertavam a resposta. Quatro cartas estão dispostas em uma mesa à sua frente mostrando A, 7, D e 4.

Você recebe a informação de que cada uma delas contém uma letra em uma face, um dígito na outra. Você deve verificar a seguinte hipótese: todas as cartas que contém uma vogal contém um número par. Quais cartas devem ser levantadas para verificar a hipótese?

Pense um pouco e tente resolver este teste. Só depois olhe a resposta.

Bibliografia

Vieses de cognição

“Nossas crenças não repousam pacificamente em nossos cérebros esperando serem confirmadas ou negadas pela informação que recebemos. Pelo contrário, elas agem ativamente modificando a forma como vemos o mundo.

—Richard Wiseman

Introdução e Conclusão

Nosso mecanismo de percepção, incluindo os órgãos sensórios e de processamento das informações obtidas, é sofisticado e muito eficiente. Mas não é perfeito. Diversas falhas são conhecidas e é útil conhecermos seus efeitos. Essas falhas afetam nossa forma geral de ver e compreender o mundo, mas também de ver a nós mesmos, as outras pessoas e nossa relação com elas.

Pretendemos aqui explorar os argumentos que indicam as seguintes conclusões:

  • Não podemos confiar no que vemos, ouvimos ou percebemos por qualquer de nossos mecanismos sensoriais.
  • Não podemos confiar na interpretação que fazemos dessa captação sensorial.
  • Não podemos confiar na memória que temos dessas experiências e da interpretação que delas obtivemos.

Em seguida, dentro da suposição de que queremos conhecer as coisas com algum grau de confiança, pretendemos argumentar que existe uma forma de contornar, em algum nível, essas limitações. Ela consiste em analisar o próprio mecanismo, algo que vem sendo chamado de metacognição. Além disso, de muitas formas diferentes, o método científico foi desenvolvido para anular (ou minorar) o efeito do erro cognitivo e nos permitir um vislumbre de como funciona a natureza.

Hardware são as partes mecânicas e eletrônicas de um computador. Software é composto pelas programas ou aplicativos (as linhas de código inseridas no computador).

Para efeito de discussão é praxe se estabelecer uma distinção entre órgãos sensoriais, dos quais os mais óbvios são a visão, audição, tato, olfato e paladar, e nosso mecanismo de processamento dos dados que obtemos por meio deles. Esse processamento ocorre principalmente no cérebro com seu poder de análise e memória. No entanto a divisão não é perfeita pois nosso cérebro se ajusta à limitação dos sentidos. Não conseguimos pensar em quatro dimensões porque só vemos duas (e calculamos uma terceira). Não podemos planejar um ato ou movimento que nosso cérebro sequer possa imaginar. A metáfora do cérebro como um computador composto de hardware e software pode ser útil até um ponto mas quebra quando pensamos que o cérebro tem plasticidade e se modifica de acordo com o conteúdo a ele apresentado. Naturalmente um cérebro ampliado pode ter pensamentos ampliados e essa dinâmica não tem fim. A modificação dos sentidos também age sobre a capacidade de processamento. Em nós, hardware e software se confundem.

O que é Viés de Cognição?

Quantos pontos pretos você consegue ver na figura?

Apesar da complexidade e eficiência de nosso cérebro, com frequência ele toma atalhos para responder mais rapidamente à demandas do cotidiano. Por exemplo, no passado remoto, nas savanas, o movimento de folhas e barulho de passos deveria ser rapidamente interpretado como a aproximação de um animal perigoso que exige a postura de defesa ou fuga. Essa é uma característica evolutiva pois indivíduos “corajosos” certamente eram mortos mais cedo por predadores.

Uma forma clara de percebermos essas “imprecisões” nos sentidos está nas ilusões óticas, imagens fixas que parecem se mover ou que mostram coisas totalmente diferentes dependendo como se olha. Mágicos compreendem bem esse efeito e se utilizam dele para realizar suas façanhas. Eles sabem, por exemplo, que nossos olhos não conseguem gerar imagens nítidas de objetos em movimentos. Se olhamos fixamente para o rosto do mágico não conseguimos ver o que ele faz com as mãos em movimento.

Parte do problema está em que tudo o que vemos (ou ouvimos, etc) é construído no cérebro e não uma mera imagem objetiva do mundo exterior. Muitos exemplos interessantes podem ser listados: possuímos um mecanismo de identificação de fisionomia, algo como um aplicativo interno que reforça traços no rosto das pessoas para que as identifiquemos. Um prova disso é o efeito de pareidolia que é a tendência de ver rostos e formas humanas em manchas, nuvens e borrões. Se você olha para um lado da sala onde está, e move rapidamente os olhos para o outro lado, você não deixa de ver a sala durante o movimento dos olhos. No entanto, fisicamente essa imagem está borrada pelo efeito do movimento. Nosso cérebro consegue apagar a imagem borrada e substituí-la por outra da sala que é calculada e montada à partir de memórias que temos do ambiente.

Pareidolia: Uma rosa decaindo e buracos na rocha.

O conceito de viés de cognição foi proposto por Amos Tversky e Daniel Kahneman em 1972. Depois deles muitos pesquisadores estudaram e descreveram tipos diferentes de vieses que afetam nossa percepção e análise das coisas e capacidade de decisões e julgamentos em questões diversas como no comportamento social, financeiro econômico, na educação, etc.

Você já se perguntou a razão de as lojas colocarem preços fracionários em seus produtos. Que diferença faz um item de mercado a R$39,99 ou R$40,00? Em compras desse tipo quantas vezes você recebeu 1 centavo de troco? Ocorre que temos uma tendência de nos balizar pela análise do primeiro dígito à esquerda. Esse atalho, que economiza o cérebro de um processamento mais dispendioso, pode ser útil algumas vezes mas gera essa prática exploratória comum do consumidor, simples, ingênua mas efetiva, em alguns casos.

Todas as pessoas estão sujeitas a erros por viés de cognição. Ele ocorre, por exemplo, quando você só aceita ler artigos em jornais ou assistir vídeos ou canais de TV que concordam com você, ou só considerar novidades que apoiam sua visão de mundo. Ele ocorre quando você aprende um pouco sobre algum tópico e já se considera um especialista na área (o Efeito Dunninham-Krueger).

Algumas formas de vieses de cognição são listadas a seguir. Mais tarde analisaremos alguns deles com maiores detalhes.

Cherry picking, ou escolher a cereja do bolo, é uma forma sutil de fazer isso. Você entra em contato com um volume grande de informações mas só registra aquelas que te interessam. Você lê um livro recheado de informações polêmicas mas recolhe e registra apenas aquelas que interessam ao seu alvo intelectual, ideológico ou de fé.

Viés de ancoragem é a tendência de atribuir maior confiança às primeiras informações que você recebe. Por exemplo, alguém te informa que o preço médio de um carro é de um determinado valor (e a informação pode estar certa ou não). Se encontrar ofertas abaixo dessa esperada você julgará que o ítem está com ótimo preço. Esse viés é usado na propaganda que coloca em primeiro lugar os preços mais altos.

Viés de atenção é a tendência de focar sua atenção em alguns aspectos e ignorar outros. Ao procurar um carro para comprar você se preocupa apenas com a aparência e ignora todos as outras características que dão valor (ou depreciam) o item. Associada a esse viés as pessoas costumam dar mais valor àquelas coisas de que se lembram mais facilmente. Por exemplo, após o atentando ao World Trading Center em 11 de setembro de 2001, os americanos passaram aproximadamente um ano se recusando a viajar de avião. Mortes causadas por acidentes com automóveis em estradas de rodagem superaram muitas vezes o número de mortes no atentado. Humanos são notórios pela sua imprecisão em avaliar riscos.

O efeito do falso consenso é a tendência de superestimar o quanto as pessoas concordam com você. Ele está associado ao cherry picking e ao viés de confirmação (de que já trataremos). Humanos são seres altamente sociais e precisam de se sentir aceitos e acolhidos. Para isso tendem a se agrupar por interesses comuns e convergência de opiniões, facilmente adaptando suas próprias opiniões às do grupo. Um escrutínio mais rigoroso pode mostrar que o grupo não é tão uníssono como parece.

A Fixação funcional é a tendência de ver os problemas sob a ótica única das ferramentas que você possui. “Para quem só tem um martelo, todo problema se parece com um prego” (Abraham Maslow). Alguém que domine o conhecimento da teoria evolucionária pode tender a julgar que apenas ele á necessária para explicar todas as situações do mundo moderno.

O Efeito Halo ou da impressão difusa faz com que você julgue todo um indivíduo (ou situação) baseado na sua impressão geral sobre ele (ou ela). Isso acontece, por ex., quando você conhece uma pessoa bonita e simpática, e a considera honesta e confiável, ou um homem vestido com um terno elegante e com uma fala convincente entra com facilidade em um banco para assaltá-lo. É impressionante a quantidade de efeitos sociais importantes, como na discriminação de raça, onde uma mera primeira impressão pode determinar comportamentos.

O Efeito de desinformação é a tendência de que informações que circulam após um evento modificam completamente a memória do evento original. Nossa memória é facilmente influenciada pelo que ouvimos de outras pessoas. Por isso as pessoas que presenciaram um crime não devem conversar entre si antes de prestarem depoimento à polícia. O mesmo fenômeno faz com que informações de testemunhas oculares esteja em descrédito nos dias de hoje.

Há uma história clássica sobre esse efeito: você está na fila de um banco quando três pessoas encapuçadas entram, ordenam que todos deitem no chão e assaltam os caixas, fugindo em seguida. Após o evento todos, naturalmente nervosos, conversam entre si. E dizem: “você viu que tinha um homem barbudo, dando proteção aos assaltantes”. “Havia duas mulheres”. “Algumas pessoas na fila eram cúmplices”. Etc. Quando a polícia chega ouve relatos incongruentes, alguns contando com a presença de 20 ladrões fortemente armados e mal encarados…

O Viés de otimismo faz com que as pessoas acreditem que nunca serão vítimas de infortúnios e/ou possuem maior probabilidade de sucesso que os demais. É o caso da pessoa autoconfiante que acha que nunca será infectado por uma doença contagiosa que assola sua região.

Caravaggio, os jogadores de cartas.

Ilusão de controle é a tendência que as pessoas têm de superestimar a própria habilidade em controlar alguma coisa ou situação que, na verdade ocorrem independente dela. Os psicólogos sugerem que essa tendência influencia as pessoas em seus hábitos de apostar e na crença do paranormal. Uma pessoa pode julgar que é capaz de controlar um resultado que, em princípio, é aleatório, ou provocar a cura de um doente com práticas mágicas ou orações. Parte, pelo menos, do comportamento ritualístico pode ser explicado por meio desse efeito. Uma pessoa usa sempre a mesma camisa quando torce para seu time de futebol acreditando que, se essa atitude funcionou um dia, ela poderá funcionar sempre. Junto com o viés de confirmação essa tendência pode determinar fortemente o comportamento irracional de um indivíduo. Em um experimento as pessoas testadas assistiram um jogador de basquete tentando encaçapar a bola em arremessos livres. Quando se pediu aos sujeitos testados para torcer, visualizando a bola ser encestada eles relataram sentir como se tivessem participação para o sucesso do jogador.

A maldição do conhecimento é a tendência de considerar simples um assunto que já é dominado. Um professor, depois de anos estudando e ensinando um tema acha estranho que os alunos demorem tanto a entender o que ele está dizendo, o que para ele parece óbvio. Um exemplo pode ser visto na brincadeira infantil onde uma pessoa cantarola mentalmente uma música conhecida apenas marcando o ritmo com batidas, enquanto a outra pessoa tenta descobrir qual é a música. Para quem sabe, a canção usada parece muito óbvia, enquanto o outro tem dificuldades em adivinhar.

O efeito Barnum ou Forer é um fenômeno psicológico comum no qual indivíduos consideram altamente precisas descrições genéricas de suas personalidades. É possível descrever genericamente uma personalidade, geralmente em termos elogiosos e agradáveis, de forma a satisfazer um grande números de indivíduos que consideram que o texto foi escrito a seu respeito. Esse efeito fornece uma explicação, pelo menos em parte, para a ampla aceitação de práticas como astrologia, leitura fria ou de aura e alguns de testes de personalidade. O mágico inglês Derren Brown realizou várias reuniões com pessoas de diversos países sob a alegação de que faria um mapa astrológico dos participantes. Quando recebiam seus mapas as pessoas, em sua absoluta maioria, declaravam estar muito satisfeitas com a descrição de suas personalidades. Depois o mágico pedia a elas que trocassem seus mapas. Com muita surpresa os participantes decobriam que apenas um texto foi distribuído para todos.

O efeito placebo é a reação de pessoas que sentem melhoras após serem tratadas com um falso medicamento, desde que acreditem estar tomando medicamento real. Esse efeito é tão importante que a industria médico-farmacêutica precisa comparar a eficácia de seus novos medicamentos com a de placebos, geralmente pílulas de farinha ou açucar. A experiência clínica indica, que quanto maior o comprimido e quanto mais amargo, maior será seu efeito. Comprimidos grandes, triangulares ou de cores intensas funcionam melhor que pílulas pequenas, de formato comum e sem cor. Tratamentos complexos, envolvendo máquinas, correntes elétricas ou aparatos tecnológicos funcionam melhor do que uma simples massagem, a menos que o paciente atribua ao massagista ou terapeuta algum dom ou virtude extraordinária. É muito bem conhecido o efeito terapêutico sobre pacientes que recebem uma visita atenciosa de seu médico. Você pode ler mais sobre placebos nesse site.

Existem, é claro, muitos outros fenômenos que mostram a natureza enviezada de nossa percepção. Dois seles serão tratados em seguida com um pouco mais detalhamento devido à sua importância direta em nossas vidas. Eles são O efeito Dunning-Kruger que é a dificuldade das pessoas reconhecerem seu nível de expertise ou ignorância sobre um assunto, e o Viés de confirmação, o favorecimento de informações que apoiam e sustentam nossas crenças, ignorando evidências contrárias a elas.

Uma deficiência muito forte de nosso mecanismo geral de percepção e entendimento das coisas está em nossa incapacidade para lidar e compreender o acaso e aleatoriedade. Já incluímos aqui um artigo sobre o assunto: Acaso e Percepção Extrassensorial.

Vieses de cognição possuem uma associação estreita com as falácias lógicas, embora não sejam o mesmo fenômeno. Falácias são erros lógicos usados no pensamento sobre alguma questão e podem ser expostos por uma análise racionalmente precisa dos argumentos. O exposição dos vieses de cognição exige pesquisa controlada. Provavelmente uma cognição imperfeita induza a erros lógicos. Leia nesse site: Falácias Lógicas.

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Bibliografia